questões cinematográficas

Jogo de espelhos  

Em Cisne Negro, Darren Aronofsky retrata o desejo de imortalidade como busca de perfeição

Eduardo Escorel
Natalie Portman é ao mesmo tempo ingênua e sedutora em um inocente conto de horror
Natalie Portman é ao mesmo tempo ingênua e sedutora em um inocente conto de horror ILUSTRAÇÃO: CAIO BORGES_ESTÚDIO ONZE

 

Depois da crueza de O Lutador, feito em 2008, Darren Aronofsky encena um grandioso espetáculo ilusionista em Cisne Negro. Mantendo-se fiel aos mesmos temas e figuras de linguagem desde Pi – primeiro longa-metragem que dirigiu, em 1998 –,as mudanças radicais de estilo que adotou em e Cisne Negro não alteraram o destino sempre reservado aos personagens principais: eles percorrem a via-crúcis, sendo sacrificados no final do caminho.

Livre das intenções obscuras de Pi, em que um gênio matemático procura descobrir padrões numéricos na natureza e na Bolsa de Valores; dos maneirismos formais de Réquiem para um Sonho, de 2000, no qual abusa de planos curtos; e das pretensões místicas de Fonte da Vida, de 2006, em que recorre à pseudomitologia maia para narrar uma saga amorosa de ficção científica, Aronofsky acabou acertando o tom, quer no realismo semidocumental de O Lutador, quer na fábula romântica de Cisne Negro.

Mesmo tendo deixado de assinar os roteiros dos seus filmes a partir de O Lutador, Aronofsky continua recorrendo às mesmas premissas dramáticas ao tratar primeiro de luta livre, depois de balé, indo do desfigurado Mickey Rourke à bela Natalie Portman, ambos notáveis em personagens sob medida para render prêmios, por exigirem dos atores empenho físico sobre-humano.

Invariante nos filmes de Aronofsky, escritos ou não por ele, é uma noção lúgubre, derivada do romantismo, que condena à pena capital quem se empenha além das próprias forças para conseguir desempenho transcendente. Custa caro, nesse universo ficcional, tornar-se campeão de luta livre ou bailarina de exceção, tendo que derrotar rivais e vencer competições.

A forma de pagamento pode variar, mas alucinações e sofrimento são penas obrigatórias. Dor lancinante leva o matemático, em Pi, a fazer um buraco na própria cabeça com uma furadeira elétrica. Loucura, choques elétricos, degradação moral e antebraço amputado são o desfecho de Réquiem para um Sonho. Convulsão, morte prematura e fracasso da neurociência, a fatalidade de Fonte da Vida. Flagelo físico e suicídio, o destino de O Lutador. Atropelamento mutilador e ferimento fatal, as sanções de Cisne Negro.

Corpos são prisões da alma, nossa pele e sangue, as barras de ferro do confinamento – diz o grão-inquisidor de Fonte da Vida. “Mas não temei”, continua, “a morte transforma tudo em cinzas e, assim, libera a alma.” Para o juiz da Inquisição, na sentença condenatória recorrente dos filmes de Aronofsky, o desejo de imortalidade – que em Cisne Negro toma a forma da busca de perfeição – é um “falso paraíso” que leva “à vaidade”. O que seria, nas palavras dele, uma “bobagem, pois a morte existe. O dia do julgamento é irrefutável. Toda vida deve ser julgada”.

Esse ideário anacrônico, no qual a morte é um ato de criação – fundamento mórbido e moralizante dos filmes de Aronofsky qualquer que seja a época em que se passem –, é explicitado em Cisne Negro na apresentação do enredo de O Lago dos Cisnes feita pelo diretor do balé: “Devastado, o cisne branco salta do penhasco, morre, e na morte se liberta.” Será incorporando esse preceito que a bailarina poderá fazer o papel do cisne branco e cumprir seu destino.

Personagens jovens em busca de realização pessoal, ou maduros condenados ao ostracismo, costumam ser foco do interesse de Aronofsky. Em Cisne Negro, a bailarina Nina Sayers deve transpor o rito de passagem que a introduzirá à vida adulta, deixando a adolescência, para conseguir fazer as irmãs gêmeas de O Lago dos Cisnes – uma pura e ingênua, outra traiçoeira e sedutora.

Tratada como criança pela mãe possessiva, com bichos de pelúcia espalhados pelo quarto cor-de-rosa e uma caixa de música na cabeceira, Nina está apta a viver o papel do cisne branco, dada sua perfeição técnica. O cisne negro, porém, requer dons que ela só poderá adquirir se amadurecer, deixando aflorar a sensualidade, além de, aprendendo a transgredir, ser má e dar prioridade aos seus próprios interesses. Esforço penoso para ela que se reflete em sucessivas lesões físicas.

Ao contrário do que as colegas de Nina chegam a supor, ela não se rebaixa para ser a eleita. Seus primeiros passos a levam ao camarim destruído e abandonado pela antiga primeira bailarina a quem espera substituir. Ao pintar a boca com o batom furtado dela, assume traços de sua personalidade. De lábios vermelhos, vai ao encontro do diretor pedir o papel da rainha dos cisnes e, beijada por ele, lhe dá uma mordida. Iniciativa e agressividade decisivas para demonstrar que é capaz de encarnar o lado de sombra da heroína do balé.

Ter conseguido o papel é o início da trajetória. Resta ainda ser convincente representando a personagem traiçoeira e voluptuosa. Para vencer o desafio, Nina deve aprender também a ser egoísta, aproveitando o momento sem se deixar distrair por manifestação de solidariedade pelo atropelamento que aleija sua antecessora.

Continuando insatisfeito com a atuação de Nina,o diretor quer que ela demonstre paixão, e deixe de ser uma bailarina frígida. Com esse objetivo, não mede nem palavras, nem gestos. Agressões verbais e contatos físicos fazem parte do método para conseguir a interpretação desejada. Pode ter sido ele, embora o filme não esclareça, quem atribuiu a outra bailarina da companhia a missão de conduzir Nina nos estágios finais do amadurecimento, que incluem sexo, drogas e rock’n’roll. Em nome da eficiência do resultado, o pragmatismo da tática não mede as graves consequências da manipulação.

Quando a estreia se aproxima, a pressão chega ao paroxismo, fazendo Nina ter fantasias e alucinações. A ambiguidade dos eventos aumenta, ficando difícil distinguir realidade de imaginação.

Pelo fato de serem fonte de angústia, incertezas desse teor são anátema em filmes de entretenimento. Para espectadores que desejam sair do cinema apaziguados, toda dubiedade é problemática, costumando ser esclarecida nas produções de grandes ambições comerciais. Em geral, Aronofsky acaba dando indicações suficientes em Cisne Negro para distinguir fantasias e alucinações. Pelo fato de ter sido produzido com um orçamento de 13 milhões de dólares, valor relativamente modesto para o padrão médio da indústria americana, talvez tenha podido preservar certa margem de dúvida. Dessa maneira não quebrou o encanto de O Lago dos Cisnes e deu ao filme algo do seu fascínio.

No final do processo de amadurecimento, Nina ainda precisa superar um último obstáculo – a possibilidade de ser substituída pela bailarina reserva. Fragilizada pela ameaça, reage, encontrando forças para ser sedutora, transformar-se no cisne negro, saltar no vazio e ser consagrada.



Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

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