CRÉDITOS: ANDRÉS SANDOVAL_2025
Made in Acre
O presidente da ApexBrasil e sua robusta plantação de café
João Batista Jr. | Edição 232, Janeiro 2026
Maior exportador de café do mundo, o Brasil vendeu ao exterior, só em novembro passado, 3,5 milhões de sacas de 60 kg do produto, volume que representa queda de 26,7% em relação aos 4,8 milhões vendidos no mesmo mês em 2024. Em receita cambial, no entanto, houve um incremento de 8,9% no mesmo período, com os rendimentos saltando de 1,4 bilhão de dólares para 1,5 bilhão. Mesmo depois do caos promovido pelo tarifaço de Donald Trump, os Estados Unidos continuam a ser o maior comprador.
Com tamanha relevância do café em nossa balança comercial, divulgá-lo faz parte das atribuições da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil). No começo de novembro, a agência levou até o Acre um grupo com nove compradores internacionais de quatro continentes – América do Norte, Europa, África e Ásia.
O grupo foi conduzido por várias fazendas, nas quais era recepcionado por cafeicultores locais, ansiosos para convencer os estrangeiros a importar o robusta amazônico (que pertence à espécie Coffea canephora), café híbrido desenvolvido pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), que se adaptou bem ao calor e à umidade da região amazônica. Mais denso e forte que o tipo arábica (Coffea arabica), o robusta vem sendo comercializado no Brasil e no exterior.
Ex-prefeito de Rio Branco, ex-senador e ex-governador do Acre, Jorge Viana ocupa a presidência da ApexBrasil desde o início do atual governo de Lula. Durante o tour com os compradores gringos, ele se manifestou na imprensa local enaltecendo a produção cafeeira do estado, que estaria vivendo um “momento histórico”, cujos fundamentos seriam a sustentabilidade e a qualidade. Também elogiou o “trabalho extraordinário” do presidente da CooperCafe – uma cooperativa de cafeicultores –, Jonas Lima, que já foi deputado estadual pelo pt, partido de Viana. “Estamos construindo uma nova matriz econômica baseada em sustentabilidade e qualidade. Esse é apenas o começo”, disse o presidente da ApexBrasil.
Viana só não informou que uma das plantações visitadas pela comitiva de potenciais compradores de café foi a Colônia Floresta, em Senador Guiomard, município a 25 km da capital Rio Branco. E que o proprietário é ele próprio, o presidente da agência. Na ocasião, Viana guiou os visitantes em um passeio por sua plantação de robusta amazônico.
No site da agência, não consta a lista de todas as fazendas visitadas. Mas quem confirma a visita é a pessoa cujo trabalho Viana cobriu de elogios, Jonas Lima. “Visitaram a fazenda do Jorge e de diversos outros produtores”, disse ele, em entrevista por telefone. O presidente da CooperCafe conta que o setor está em expansão no estado. “Hoje temos 182 cooperados, mas em março do ano que vem iremos para 320”, afirmou.
Lima explicou que o motivo do tour era ampliar as vendas e que já rendeu frutos a visita internacional promovida pela ApexBrasil – entidade autônoma ligada ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. “Acabamos de vender dois containers para Dubai.” A CooperCafe também montou mostruários em eventos do programa Exporta Mais Brasil – duas vezes em Rio Branco e uma em Salvador. Lima contou que a ApexBrasil arca com os custos dos expositores, algo que a entidade nega. Em novembro passado, a Colônia Floresta também participou, junto com outros produtores do Acre, do evento Semana Internacional do Café, realizado em Belo Horizonte e promovido pela ApexBrasil para vender grãos para o mercado internacional.
Foi no segundo semestre de 2023 que Viana recebeu a Licença de Operação do Instituto de Meio Ambiente do Acre para plantar o café robusta amazônico em uma área relativamente pequena, de 20,44 hectares, o equivalente a 204 mil m². Em maio de 2024, já na ApexBrasil, ele promoveu uma celebração ecumênica: o padre Massimo Lombardi e o pastor Francisco Pereira da Silva foram abençoar a primeira colheita de café da Colônia Floresta. O evento recebeu cobertura da imprensa local.
Procurado pela piauí, o presidente da ApexBrasil não pôde dar entrevista, segundo sua assessoria, por não ter disponibilidade na agenda até o fechamento desta edição. A entidade, no entanto, enviou um comunicado, em que nega que Viana tenha favorecido sua própria plantação de café. Diz a nota que Jorge Viana recebeu possíveis importadores na Colônia Floresta, tal como fez em outros eventos da ApexBrasil, na condição de “anfitrião institucional”: “Nessas ocasiões, [ele] recepciona compradores dos mais variados produtos e se reúne com eles e com produtores locais.”
A agência diz que nenhuma saca de café da fazenda de Viana foi vendida durante a visita da comitiva internacional: “Jorge Viana não exporta café, e sua produção não integra os negócios da ApexBrasil.” Viana é próximo da CooperCafe, cujo presidente celebrou o fechamento de vendas para Dubai propiciadas pela iniciativa da agência.
Em outro trecho, a nota sugere que a passagem da comitiva pela fazenda do presidente da ApexBrasil se deu quase por acidente: “A visita à sua colônia, que fica no trajeto para a propriedade do presidente da Cooperacre [Cooperativa Central de Comercialização Extrativista do Acre], empresa exportadora que também fez parte da agenda oficial, teve o objetivo de mostrar aos empresários a parte da Floresta Amazônica situada no local, onde são usadas práticas de cultivo compatíveis com a floresta. Como se sabe, este é um tema que desperta muito interesse entre compradores internacionais.”
A argumentação aqui encontra um tema recorrente no discurso político de Viana, que vem batendo na tecla do desenvolvimento econômico sustentável. “O Acre se sustenta convivendo com a floresta”, ele costuma repetir.
A proteína animal é outro setor ao qual a ApexBrasil dá especial atenção. Jorge Viana tem rodado o mundo em feiras para promover os produtores do país. Empresários do setor frigorífico têm se queixado do espaço privilegiado dado aos pecuaristas do Acre. Viana é pré-candidato ao Senado pelo estado na eleição de outubro, quando duas cadeiras estarão em disputa.
No ano passado, Murilo Leite, do frigorífico Frisacre, esteve em viagens da ApexBrasil na Malásia e na Indonésia, países do Sudeste Asiático, onde o Brasil busca homologação para exportar carne bovina. No primeiro semestre de 2025, a agência de promoção firmou um convênio com o Banco da Amazônia para disponibilizar 82 milhões de reais de crédito para produtores de carnes suínas e de aves do Acre.
Logo nos primeiros dias à frente da ApexBrasil, Viana afirmou que o seu estado era o que menos exportava – 20 milhões de dólares, em 2006 – e que batalharia para fomentar a economia local. Deu certo. Só em 2024, as exportações do Acre chegaram a 87 milhões de reais. Os números de 2025 ainda não estão fechados, mas devem bater em 100 milhões de reais. E estarão fechados antes da eleição para o Senado.
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