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    ILUSTRAÇÃO: FERNANDO VICENTE

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Jornalismo e um punhado de dólares

Dinheiro oferecido pelo WikiLeaks para obter informação renova o debate entre a ética da profissão e o interesse público

Sérgio Dávila | Edição 106, Julho 2015

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Quanto vale uma informação? No dia 2 de junho último, o WikiLeaks anunciou que pagaria 100 mil dólares (em torno de 310 mil reais) a quem desse acesso à íntegra dos termos da Parceria Comercial Transpacífico (TPP).

Hoje sob sigilo, a negociação entre Estados Unidos e países da região do oceano Pacífico é considerada o maior e mais abrangente acordo comercial da história. Envolve economias que representam cerca de 40% do PIB mundial. Em 2013, os americanos venderam o equivalente a 698 bilhões de dólares a essas nações.

Saber o que cada país exige e oferece, e quais concessões foram feitas por Washington, é material de alto interesse jornalístico. Repórteres das principais empresas de mídia do planeta tentam romper o cerco imposto pelos negociadores até que o acordo seja aprovado pelos respectivos Legislativos.

O WikiLeaks quer cortar caminho. Em vez de seguir o método profissional na apuração de notícias – jornalistas convencem fontes a tornar públicas informações, ou por elas são procurados com o mesmo objetivo –, a organização criada em 2006 pelo ativista Julian Assange sacou o talão de cheques.

Ou pelo menos instou seus simpatizantes a fazerem isso, já que o total declarado será obtido via crowdsourcing– financiamento coletivo, doações de interessados no vazamento das informações. No momento em que escrevo, 1 437 pessoas haviam se comprometido a doar 75 118,42 dólares, ou seja, 75% do total. O site já tinha tido acesso a três dos 29 capítulos do TPP, os que tratam de saúde pública, investimentos e meio ambiente.

A iniciativa é vendida como um prêmio, que tem nome e símbolo: Prize for Understanding Good Government (Prêmio para Entendimento do Bom Governo), ou Pugg, sigla que também é variante do nome de uma raça de cachorro, o pug, o cão chinês de cara achatada que empresta suas fuças à arrecadação.

 

A ação agitou o mundo do jornalismo profissional por mexer num dos cânones mais antigos da profissão, respeitado pelos principais veículos do mundo, ao menos os mais sérios: não se dá dinheiro em troca de informação. Pagar por ela pode corromper a fonte, que troca um bem supostamente público, que é subjetivo, pelo ganho privado bastante objetivo – a soma que colocará no bolso.

Ainda que muitas fontes tenham interesses escusos na divulgação da informação que detêm, o jornalista e o meio em que sua apuração será divulgada não devem estar mesclados a esses interesses. Além disso, a recompensa financeira pode induzir o detentor da informação a “melhorar” os fatos, visando aumentar seu valor.

No caso Watergate – o padrão-ouro da apuração jornalística com coerência, cuidado e consequência –, não houve comércio entre Bob Woodward, o repórter do Washington Post que juntamente com Carl Bernstein levantou denúncias que poderiam envolver a Casa Branca de Richard Nixon, e sua fonte principal, apelidada de “Garganta Profunda”.

Mark Felt, um ex-dirigente do FBI que em 1972 havia sido preterido numa promoção e resolveu falar com Woodward, poderia estar agindo por vingança, despeito ou patriotismo. Mas não para ganhos pessoais, muito menos por ser venal.

Da mesma forma, não houve troca de dinheiro entre a jornalista Renata Lo Prete e Roberto Jefferson, na famosa entrevista à Folha de S.Paulo, em 2005, que daria o pontapé inicial da revelação do escândalo do mensalão.

 

Em artigo publicado no New York Times em 9 de junho último, Kelly McBride, especialista em ética jornalística e vice-presidente do Instituto Poynter, um dos mais renomados centros de estudo de mídia dos Estados Unidos, defende a revisão das convenções. “Empresas modernas de mídia devem desenvolver novos códigos de ética, que levem em conta o que há de melhor no potencial da internet para o jornalismo cidadão e o compartilhamento de informações”, escreveu. “Elas não deveriam descartar o pagamento a fontes, que só deveria acontecer raramente e de maneira transparente. O importante não é apenas o interesse público, mas o que serve à democracia.”

A opinião de McBride encontrou eco no meio acadêmico. “Sim, o jornalismo é uma profissão transacional”, me disse o estudioso de mídia Ken Doctor, de Harvard, definindo a questão como “fascinante e cheia de arestas”. “Sempre que os jornalistas obtêm informações de fontes, estas agem por algum motivo. Às vezes, é o interesse público. Em muitas outras, é puro ego ou o interesse próprio.”

Como distinguir um do outro? “Estamos acostumados a avaliar os motivos de uma fonte, assim como a informação em si, e é assim que deve ser. Um detector de besteiras é o eterno melhor amigo do jornalista.” Na opinião de Doctor, “a proibição pura e simples não faz sentido. Se o interesse público é mais bem servido pagando por informações – raramente e de maneira transparente para os leitores –, podemos compreender e conviver com isso”.

É semelhante a posição de Rosental Calmon Alves, diretor do Centro Knight para o Jornalismo nas Américas, da Universidade do Texas. “Continuo sendo contra o jornalismo de talão de cheques”, me disse. “Mas temos de reconhecer que o ambiente está mudando.” O importante, para ele, é ser transparente. “Dizem que a nova objetividade é a transparência. A nova ética não é a transparência, mas a transparência é parte essencial da nova ética.”

Os três têm razão. Mas tais regras se aplicam ao WikiLeaks? Parece-me que não, por um pecado de origem. O objetivo da organização (que não é jornalística) não é ser transparente ou mesmo dar transparência ao tal acordo comercial, e sim impedir que ele aconteça. O site assim define o TPP: “O tratado visa à criação de um novo regime jurídico internacional que permitirá às corporações transnacionais contornar os tribunais nacionais, evitar proteções ambientais, patrulhar a internet em nome da indústria do conteúdo, limitar a disponibilidade de medicamentos genéricos a preços acessíveis e reduzir drasticamente a soberania legislativa de cada país.”

O WikiLeaks tem uma agenda e milita por ela – desde junho último, acenando com um punhado de dólares para os interessados em lutar pela mesma causa.