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    ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2015

esquina

Karalius, o grande

O primeiro filme lituano-brasileiro

Paula Scarpin | Edição 103, Abril 2015

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Durante cinco meses de mochilão pela Amazônia, Vytautas Karalius acostumou-se aos olhares confusos quando dizia ser lituano. Isso até chegar a Guajará-Mirim, em Rondônia, na fronteira com a Bolívia. “Claro que já ouvi falar da Lituânia!”, disse o dono do bar que acabara de lhe vender um refrigerante. “O maior homem que já passou por essa cidade era lituano.” O comentário fisgou sua atenção: cineasta de formação, Karalius vinha fazendo trabalhos bissextos para a televisão estatal, e sua maior intenção ao aventurar-se pela selva era buscar inspiração para um projeto mais autoral.

Até adentrar o Brasil pela cidadezinha fronteiriça, o jovem lituano nunca tinha ouvido falar no patrício famoso. O plano inicial – pegar uma embarcação para Porto Velho e, dali, rumar até Manaus – foi adiado. Karalius passou a semana seguinte abordando quem visse pela frente e registrando qualquer informação ou impressão que pudesse colher sobre Alexander Bendoraitis. Absolutamente todos pareciam ter algo a dizer; o único ponto de convergência entre as informações era a grandiosidade dos fatos.

O brilho nos olhos do cineasta ao falar sobre o conterrâneo era evidente até numa videochamada por Skype com péssima conexão. Magro, com 2,10 metros e um bigodinho canastrão, Karalius parece ter saído de um filme de Wes Anderson. “A trajetória de Bendoraitis definitivamente não foi banal”, resumiu com um excesso de gesticulação.

Um aristocrata que abandonou tudo na Lituânia para explorar a Amazônia; um missionário católico que queria catequizar os índios; um médico voluntário que havia rodado o mundo salvando vidas até aportar naquele pedaço de selva. Um nazista fugido no pós-guerra; um traficante de crianças que falava sete línguas diferentes; dono de um time de futebol com seu nome e de uma mansão amazônica com um pequeno zoológico. Bendoraitis trouxe a primeira rádio da região, construiu e administrou dois hospitais e era capaz de atender centenas de pessoas numa tarde. Acusado de mandante de um assassinato, foi preso e teve os bens confiscados pela Igreja. Terminou seus dias na cidade gêmea de Guayaramerín, do lado boliviano da fronteira.

 

Hipnotizado com as histórias que ouvia, Karalius começou a desenhar um projeto que desse conta da grandiosidade do que tinha em mãos. Sem grandes perspectivas financeiras, voltou para a Lituânia para tentar convencer uma equipe a trabalhar para ele quase de graça, enquanto assumia pequenos trabalhos para se manter. Quando um amigo lhe sugeriu fazer uma campanha de arrecadação de recursos para o projeto, Karalius duvidou do interesse do público. Mas os teasers que publicava na internet fizeram sucesso, e o vídeo de um rondoniense cantando uma canção popular lituana não demorou a se tornar um viral nas redes sociais de seu país.

Um portal de notícias que organizava um concurso de “novos heróis nacionais” elegeu o jovem cineasta como a personalidade de 2014 pelo empenho em resgatar a memória de um grande lituano, e Vytautas Karalius foi recebido pela presidente da República Dalia Grybauskaitė com pompa e circunstância. Na ocasião, Karalius ofereceu à chefe de Estado um cocar indígena que havia pertencido a Bendoraitis.

O sucesso instantâneo alavancou a arrecadação de doações, e a equipe de Karalius pôde dar início ao trabalho de pesquisa. Numa tarde de março, o cineasta explicou as dificuldades dessa nova etapa da produção: “As informações que eu tinha não se sustentavam. Se, no começo, eu podia resumir Bendoraitis como um médico missionário aristocrata lituano, com o tempo a única coisa que eu de fato podia atestar era a nacionalidade dele.”

Karalius queria atacar a produção do filme em duas frentes: uma na Europa, para perseguir os rastros deixados por Bendoraitis no continente antes de seguir para o novo mundo; outra na Amazônia, para investigar cada passo do missionário durante os mais de trinta anos em que viveu em Rondônia. Faltava-lhe, entretanto, um braço brasileiro. Na confraternização de um festival de cinema na República Tcheca, um de seus parceiros comentou numa rodinha sobre Alexander, the Grand, a menina dos olhos da produtora. No grupo estava a peça que faltava para tirar o projeto do papel: Mauricio Monteiro Filho, da jovem produtora Lente Viva, que tinha ido divulgar seu terceiro filme fora do país. “Fiquei alucinado”, resumiu o produtor paulistano com a mesma empolgação de Karalius. “Seria a primeira coprodução Brasil–Lituânia da história! Toparia cobrar quase nada para participar desse projeto.”

Monteiro Filho explicou como um projeto internacional valorizaria sua produtora, além de contar pontos em editais da Ancine. Em fevereiro, firmaram o acordo para coprodução e fizeram a primeira viagem exploratória a Rondônia. Na página da Lente Viva no Facebook, divulgaram o crowdfunding do filme, sem perder a oportunidade de chutar a piadinha que vinha quicando desde o primeiro contato: “O Karalius precisa da tua ajuda pra botar o filme dele de pé.” Vytautas, que herdou o sobrenome Puidokas do pai, optou pelo garboso Karalius como nome artístico – por significar nada menos do que “rei” em lituano. Quando Monteiro lhe contou como a palavra soava em ouvidos lusófonos, ele só teve certeza de que a escolha tinha sido acertada. “Só posso dizer que estou fazendo um filme do Karalius”, disse o produtor brasileiro, explodindo de rir.