esquina

Lá fora e aqui dentro

Paralisado em Seul, imagino vias de escape que são de todo inúteis

Felipe Fortuna
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2020

De Seul

Chefio a Embaixada do Brasil em Pyongyang, Coreia do Norte, desde dezembro de 2018. No final de 2019, rumo a Lisboa e ao Rio de Janeiro para as festas de Natal e Ano-Novo, deixei aquela capital. Deixei a minha casa. E, até agora, tem sido impossível voltar. O governo norte-coreano fechou as fronteiras do país assim que eclodiu a epidemia do coronavírus, agora classificada de pandemia. Quase todos os governos passaram a seguir decisão semelhante mais recentemente.

No início, por e-mails e por mensagens via WhatsApp, fui sendo informado do que acontecia por lá: os restaurantes fecharam; as recepções foram canceladas; não era possível frequentar locais públicos. Finalmente, foi decidido que estrangeiros recém-chegados ao país deveriam se submeter a uma quarentena de trinta dias, não necessariamente em Pyongyang. Sem internet, sem telefone. Os voos de Pequim foram cancelados – e, assim, tornou-se na prática impossível regressar ao país.

Depois de insistentes gestões diplomáticas, a quarentena para estrangeiros passou a ser mais curta e na modalidade domiciliar. Só havia permissão para visitar colegas nas suas residências, dentro de um quadrilátero muito bem delimitado. Aos poucos, o sufoco se instalou. Com o desaparecimento das rotas aéreas regulares, organizou-se, há poucas semanas, o voo derradeiro Pyongyang-Vladivostok, que transportou diplomatas, funcionários internacionais e seus dependentes.



 

Sendo impossível voltar para casa, fui designado para permanecer em Seul e acompanhar daqui os assuntos diplomáticos e a situação epidêmica que se desenvolviam em Pequim e Pyongyang. Integrei-me à equipe da embaixada e continuei a manter contato com colegas e funcionários locais na Coreia do Norte.

Obviamente, a epidemia da Covid-19 também abalou a Coreia do Sul. No momento em que escrevo este texto, pouco mais de 8 500 pessoas estão infectadas no país – a maioria na cidade de Daegu, onde uma seita religiosa foi identificada como foco do vírus. O número de mortos pela doença é 94, ou seja, nem mesmo chega a 1,5%, o que pode ser considerado um índice baixo no contexto. A capital, Seul, tem trezentos casos confirmados. Parte desses casos está concentrada em um call center localizado na região Sudoeste, e outra parte, em uma igreja protestante na área central. Aparentemente, seriam esses os últimos espaços para aglomerações, uma vez que restaurantes, cinemas e escolas estão fechados ou tiveram a frequência reduzidíssima.

Todas as manhãs, no hotel em que me hospedo, funcionários com máscaras registram minha temperatura com um termômetro digital do tipo pistola. Tudo feito de modo simpático e até fraternal, mas disciplinadamente: só se pode entrar na cafeteria depois desse controle. Na entrada do hotel, o meu corpo, transformado em espectro por uma câmera que projeta numa tela as minhas temperaturas da cabeça aos pés, acaba sendo a senha para a porta principal abrir ou não. Na embaixada, também seguimos um rígido protocolo, combinação das portarias que recebemos diariamente do Brasil com as diretrizes que o governo sul-coreano divulga. Os escritórios foram desinfetados, mantemos estrito distanciamento social, e segue normal o atendimento consular, com as precauções intensificadas. Como expliquei uma vez a um colega de trabalho, “o bom senso agora é capaz de provocar insônia”.

Evito entrar em metrôs e ônibus, abro portas empurrando-as com os cotovelos, vejo ao longe grupos de fumantes reunidos e me felicito por não fumar nem me reunir. Forço comportamentos para não parecer “o estrangeiro que contamina”. Lavo as mãos conforme as novas e mais exigentes rotinas, sentindo o sabonete acabar a cada vez. Elogio a disciplina e a organização de quem é daqui, como se sentisse inveja. Aos poucos, para preservar a saúde, nosso corpo e nossos hábitos se modificam.

Na televisão, a pandemia ora é atual e moderna, uma vingança da globalização, ora segue a lógica medieval da peste negra. O que muito me apavora é perceber que os governos estão gastando bastante dinheiro com a Covid-19: a Coreia do Sul, por exemplo, já anunciou medidas no valor de mais de 40 bilhões de dólares. Juros foram suspensos, empresas fecharam voluntariamente. Se essas decisões foram tomadas, é porque a situação se mostra de fato gravíssima, especulo – e aqui o verbo não tem qualquer sentido econômico.

 

Algo vem sendo dito, escrito e analisado por todos nós: há um mundo novo “lá fora”. Mas esse “lá fora” está cada vez mais “aqui dentro”: e essa internalização do vírus que pode devastar as pessoas e a realidade, tal como a conhecíamos, é que exibe, creio, a maior sensação de terror. Lentamente, essa sensação se infiltra por meio de informações que vão fechando o cerco.

Existem agora restrições a viajantes estrangeiros vindos da Coreia do Sul. Eu já não poderia regressar ao Brasil pela Europa ou pelos Estados Unidos. Mas restam abertas as rotas via Dubai, Doha e Adis Abeba. E assim fico no mesmo lugar. Paralisado, a imaginar vias de escape que, bem consideradas, são de todo inúteis: a minha casa, atualmente, não está mais no Rio de Janeiro ou em Brasília, e sim em Pyongyang, onde guardo meus livros, meus discos, onde pendurei meus quadros, onde escolhi um lugar para a cama. E, no momento, a casa desabitada permanece no mais estrito isolamento.

Eu mesmo não enfrento quarentena rígida, sendo possível caminhar nas ruas e ir ao trabalho. Mas me sinto gradualmente enquadrado por forças que me levam não para o centro da epidemia ou da pandemia, mas para um lugar isolado e cada vez menor em suas dimensões. Sim – fora de minha casa norte-coreana, fora da minha cidade carioca ou da capital, longe do Brasil, temporiamente no entrelugar da Coreia do Sul, eu estou confinado.

Felipe Fortuna

Poeta, ensaísta e diplomata. Publicou O Mundo à Solta, pela Topbooks, e O Rugido do Sol, pela Pinakotheke, ambos de poesia

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