carta de Havana

La vida por la izquierda

Como vivem e o que pensam as centenas de brasileiros que vão todos os anos estudar em Cuba, o país socialista cuja população agora aprende a dar um jeito para arrumar dinheiro

Plínio Fraga
Cuba paga hospedagem, alimentação, material didático e uma bolsa mensal de 10 dólares para alunos estrangeiros estudarem medicina no país, que conta com um leito de hospital para cada 200 habitantes. No Brasil, é um para cada 300
Cuba paga hospedagem, alimentação, material didático e uma bolsa mensal de 10 dólares para alunos estrangeiros estudarem medicina no país, que conta com um leito de hospital para cada 200 habitantes. No Brasil, é um para cada 300 FOTO: SVEN CREUTZMANN_POLARIS

A duas quadras do Teatro Karl Marx, o restaurante El Aljibe, um dos mais conhecidos de Havana, só serve frango assado ao molho de laranja, acompanhado de feijão, arroz, batata e banana frita. Cobra 15 dólares pelo prato, afora outros 6 pelo daiquiri ou mojito. A comida é boa e relativamente barata: um jantar sai por menos de 40 reais. Mas, numa única refeição, o visitante gasta ali o equivalente ao salário médio dos cubanos.

A quadra em que fica o Aljibe é frequentada por estrangeiros. São pessoas com postos diplomáticos ou então funcionários de empresas multinacionais associadas ao governo cubano. Elas circulam entre o restaurante e um complexo turístico, o Dos Gardenias, cujo nome poético-estatal disfarça a condição de ponto de prostituição. Para os cubanos que vivem ou trabalham em torno, a presença de estrangeiros é uma boa chance de ganhar uns dólares a mais.

Ao sair do Aljibe, basta dar um punhado de passos para que um táxi se aproxime. Não um dos carros comuns, pertencentes ao governo, mas as chamadas “máquinas”: relíquias automotivas, como o Oldsmobile e o Chevrolet Bel Air dos anos 50. De propriedade particular, eles levam e trazem estrangeiros, apesar de a lei ainda proibir isso. A tarifa é de 10 dólares, não importa qual o percurso.

Se não quiser um táxi, talvez o visitante se interesse por uma caixa de charutos cubanos. Custa 20 dólares, um quinto do preço oficial, e a mercadoria está armazenada numa casa a poucos metros dali. Ou, quem sabe, apeteça-lhe uma garrafa de rum habanero, envelhecido por quinze anos, por metade do preço oficial, 40 dólares. Se ainda disser não, o viajante pode ouvir um cochicho oferecendo, a 20 dólares, uma caixinha de PPG, o “produto mais valioso do Caribe”. É o Viagra Crioulo, como é conhecido o policosanol. O remédio foi produzido em Cuba para combater o aumento do colesterol, mas ganhou fama no mundo inteiro por ter como efeito colateral a ereção.

O nome clássico dessa atividade fervilhante, que está longe de ser clandestina, é mercado negro. Desviados de fábricas estatais, os produtos geram a renda de milhares e milhares de pessoas, que são impedidas de comercializar legalmente. Em Havana, onde fica a sede de um dos poucos governos de esquerda do mundo, todos se referem ao mercado negro, e aos demais jeitinhos canhotos, com a expressão por la izquierda.

A cada encontro, praticamente a cada esquina, aparece um cubano para lembrar ao visitante o quão importante é a circulação da moeda, ilegal ou não. De preferência, moeda forte. Mas, precisando, se aceita tudo, se faz qualquer negócio.

 

Essa é uma das lições que o país ministra a centenas de brasileiros que vão lá aprender medicina, cinema, dança e esportes. São quase mil os jovens que estão matriculados na Escuela Latinoamericana de Medicina (ELAM), na Escuela Internacional de Cine y Televisión (EICTV), no Ballet Nacional de Cuba, ou seguem cursos na Cidade dos Esportes. Boa parte deles tem origem pobre. Estão encantados com o sistema de saúde estatal. São militantes de movimentos políticos de esquerda e concretizam o sonho de viver, como dizem, “uma experiência socialista real”.

Outros estudantes brasileiros, minoritários, são de classe média, e estão mais preocupados com a estética do que com a política. Eles veem nos cursos livres um jeito de se libertar de dogmas burgueses do cinema e da dança. São brasileiros que decidiram experimentar la vida por la izquierda, de uma maneira ou de outra.

Faz quatro anos que o sergipano Hermann Hoffmann, de 27 anos, chegou a Havana. Em vez de dragão, ele tem no braço uma imagem tatuada de Che Guevara. Foi estudante de economia em Aracaju, interessou-se pelo marxismo e entrou no PT na adolescência. Dentro do partido, escolheu uma de suas alas mais duradouras e consistentes, a Articulação de Esquerda, liderada pelo historiador Valter Pomar.

Hoffmann descobriu que o PT apadrinhava militantes que quisessem cursar medicina em Cuba. Decidiu batalhar por sua indicação e iniciou uma troca intensa de mensagens com Pomar. Encerrou as atividades de sua microempresa da área de informática e anunciou à família a intenção de mudar-se para a terra de Raúl e Fidel Castro.

Seus parentes vivem em Estância, a 90 quilômetros de Aracaju. Ao saber do projeto, um político da cidade, amigo dos pais, passou a recortar notícias sobre a ilha e a entregá-las à mãe de Hoffmann. Ora era um recorte sobre a prisão de um dissidente, ora sobre a falta de alimentos, ou mais um longo apagão em Havana. A cada recorte, a mãe do petista chorava.

Não adiantou. Conseguida a indicação, Hoffmann fez uma prova de conhecimentos gerais, aplicada pela embaixada cubana em Brasília, e, em poucos dias, o PT lhe pagou a passagem para Havana.

 

Com o capital cultural revolucionário auferido em livros marxistas, Hoffmann tornou-se o líder das duas dezenas de jovens que chegaram com ele ao Aeroporto Internacional José Martí, numa madrugada úmida e calorenta de 2008. Eram quatro da manhã e poucos compreendiam a rapidez e a malemolência do espanhol falado pelos integrantes da Escola de Medicina que foram recebê-los. Os cubanos tendem a engolir sílabas, dificultando o entendimento de quem não domina a língua. Os brasileiros estavam cansados de uma viagem que durou um dia inteiro.

Os estudantes saíram de várias cidades brasileiras, a maioria do Norte e do Nordeste, e foram obrigados a fazer diversas baldeações até chegar a São Paulo. Depois, fizeram uma parada no Panamá, antes de seguirem para Havana. Mal entenderam as ordens de fazer uma fila na calçada, ao lado do terminal, à espera de transporte. Hoffmann descobriu, metros adiante, um ônibus chinês tinindo de novo, com ar-condicionado. Anunciou a descoberta aos companheiros, que se perfilaram à porta, extenuados porém contentes. Mas o ônibus partiu sem levá-los. Estavam perdidos, em busca de orientação, quando ouviram as buzinadas de um caminhão amarelo, com décadas de circulação, e a carroceria adaptada para passageiros. Como que para dar boas-vindas, soltava fumaça furiosamente pela madrugada.

Já amanhecia quando o caminhão-ônibus chegou à Escola de Medicina, uma antiga base militar em Baracoa, nas cercanias de Havana. Os brasileiros foram espalhados pelos 28 edifícios-dormitórios da escola. Coube a Hoffmann a companhia de quatro paraguaios. Não tinha dormido nem uma hora, quando foi despertado aos sobressaltos. “Acorda, acorda! Chegou!”, gritava um dos paraguaios, recolhendo pertences e saindo em disparada rumo ao corredor.

Podia ser um atentado, um ataque imperialista, um furacão, alguma dessas ameaças que pairam sobre Cuba. Como um novato, decidiu seguir os paraguaios em carreira. Minutos depois, menos grogue, conseguiu pedir explicações. O que havia acontecido? “A água”, ouviu. O que é que tem a água? “A água está caindo na caixa”, explicou-lhe um paraguaio. Não lhe pareceu um evento merecedor de tanto alarido, até que entendeu. O sistema de abastecimento de água para os 4 mil estudantes tinha falhas perenes no bombeamento. As estiagens eram prolongadas e frequentes. De modo que, quando a água chegava, era imperioso tomar banho logo, porque dificilmente seria em quantidade suficiente para todos. Hoffmann estava a mais de 24 horas sem tomar banho. Resolveu não duvidar dos companheiros e tomou sua primeira ducha cubana.

 

Aluno do 4º ano, Hoffmann cumpriu o ciclo básico na Escola de Medicina. Todos os dias, vai ao Hospital Joaquin Albarran, onde atua sob orientação da equipe médica titular. Em um começo de tarde de outubro, visitei-o no hospital, no qual dera plantão. É de madrugada que chegam os doentes mais graves, feridos em discussões de bares que terminam em esfaqueamento. Cidade sem armas, Havana resolve as desavenças na lâmina.

Hoffmann não atendera nenhum dos feridos. Tratara de um senhor de 80 anos, internado em razão de complicações pós-operatórias. Aposentado, fora submetido a uma operação de hérnia. Fez esforços indevidos e chegou ao hospital com dores e inchaço na região escrotal. O brasileiro fizera uma incisão para reduzir a inflamação. Depois, discutira o caso com o responsável pela seção, um cubano louco pelo Brasil, onde trabalhou como clínico-geral em várias cidades pequenas.

Hoffmann achava que o paciente talvez tivesse de ser submetido a uma nova cirurgia. Falaram meia dúzia de frases sobre o caso e emendaram logo uma discussão sobre os filmes que trocam entre si. Eles arrumam DVDs no grande mercado paralelo, em um país onde o direito de propriedade não existe.

O Hospital Joaquin Albarran tem mais de 300 leitos e muitos deles estão vazios. Cuba conta com um leito para cada 200 habitantes. No Brasil, é um para cada 300. Na Europa, um para cada 100 pessoas. O índice é bom, mas as paredes internas do hospital estão malcuidadas, as portas e janelas são remendadas, e o ambiente, se não é caótico, tampouco é reconfortante. Dificilmente os cubanos permitiriam que o cineasta Michael Moore usasse, em seu documentário sobre a saúde na ilha, imagens desse hospital como símbolo da qualidade dos serviços médicos.

“O atendimento daqui é muito bom, mas, se precisamos de exames de maior complexidade, temos de transferir o paciente”, disse Hoffmann ao sair do plantão. Fomos até o símbolo do sistema de saúde cubano, o Hospital Hermanos Ameijeiras. O prédio de dezesseis andares começou a ser construído como sede do Banco Central pelo ditador Fulgencio Batista. Ao assumir o poder em 1959, Fidel Castro suspendeu as obras, que só seriam concluídas em 1982. Determinou que fosse transformado em hospital e batizou-o com o nome de três irmãos revolucionários que cresceram na vizinhança.

O Ameijeiras é um centro de referência cubano no tratamento de câncer, transplantes e cirurgias de coluna. Ao circular por seu prédio, em muito bom estado de conservação, é possível ver um atendimento organizado, com espera escalonada por meio da distribuição de senhas. A dificuldade é obter a senha. “Conseguir uma vaga aqui demora meses e meses, e um cubano comum dificilmente consegue tratamento”, queixou-se uma jovem professora. Ouvi com frequência que era preciso corromper algum funcionário para assegurar tratamento ou marcação de exame. A senha só pode ser obtida por la izquierda.

 

Os índios sateré mawé viviam às margens dos rios amazônicos no século XVII, quando tiveram o primeiro contato com missionários. Foram os inventores da cultura do guaraná. São mais de 10 mil índios e moram em aldeias. Epidemias variadas levaram diversos grupos a viver cada vez mais próximos de cidades, como Barreirinha. É um núcleo de 30 mil pessoas onde o último censo contou 1 carro, 1 caminhão, 65 ônibus e 175 motonetas como meios de transporte.

Isaac de Sousa Carneiro é um sateré mawé de Barreirinha. Viajou 470 quilômetros até Manaus para prestar vestibular e não passou. Por meio de movimentos em defesa dos índios, soube que poderia ingressar numa escola de medicina de Cuba. Fez um teste cujo objetivo era medir mais potencial do que o conhecimento efetivo. Passou. “Cuba não seleciona os melhores, mas capacita os menos favorecidos para serem os melhores”, explicou. Leu o que pôde sobre Cuba, Fidel e Che. “Identifiquei-me de imediato”, disse.

Carneiro está no 2º ano de medicina. Ao desembarcar morou sem se queixar num alojamento com treze outros alunos. “Não vejo problema, vejo riqueza cultural”, disse. “No meu quarto, tinha um africano muçulmano que lavava só os pés. O Corão diz que sagrado é o pé. A gente sentia o odor, mas é o preço de conviver com diferentes. Somos uma grande família. A essência da medicina cubana é a caridade. Isso aqui é o campo dos oprimidos da humanidade.”

 

Os alunos de medicina têm aulas pela manhã e à tarde, de segunda a sexta-feira, e são proibidas as saídas noturnas do alojamento nos dias de semana. “Mas, no sábado e no domingo, nos divertimos, tomamos uma cervejinha”, disse Carneiro. Seu plano é se formar e voltar para o Amazonas: “Quero contribuir para o meu povo, ser médico da minha comunidade.”

Em matéria de divertimento, o que há de mais perto da Escola de Medicina está em Playa de Baracoa, um povoado à beira do mar de águas translúcidas. As atrações não são muitas: um prédio do Exército em que se destacam bloqueadores para barrar as transmissões de rádios anticastristas de Miami, dois hotéis e três bares do Estado – criativamente batizados de Rancho 1, 2 e 3 –, que parecem transportar os fregueses para um século distante. Não passam carros, não há grupos de turistas e as casas pequenas estão sempre de portas abertas, como nos vilarejos brasileiros do interior.

Seria idílico, não fosse o reggaetón, uma mistura altamente combustível e tóxica de reggae com salsa, rumba e outros ritmos latinos, com batida forte e instrumentação produzida por computador. Para fazer efeito, o reggaetón é ouvido em altura máxima, em vários locais, com músicas diferentes e simultâneas, como se houvesse um baile a cada esquina. O ritmo conquistou a garotada, apesar da contestação oficial. O Juventud Rebelde, jornal da ala jovem do Partido Comunista, chamou a música de “perigosa” por divulgar “luxúria e vício”, incitando a violência e o consumo de drogas.

Annarede Trapago Santana atende num dos ranchos de Baracoa. Tem 21 anos, diploma de curso técnico em gastronomia e é funcionária pública. Cumpre jornada de 24 horas de trabalho direto, por 72 horas de folga. Ganha um salário de 250 pesos cubanos, uns 10 dólares ao mês. Não gosta muito, mas é garçonete porque ganha de gorjeta cinco vezes mais do que seu salário. “Não existe futuro, o que existe é o agora”, disse. Há quem fale que, com as mudanças econômicas promovidas por Raúl Castro, os ranchos de Baracoa serão geridos em forma de cooperativa, com os lucros divididos pelos funcionários, e não mais enviados ao governo, como hoje. Ela não acha que isso mudaria sua vida, porque os funcionários teriam de se preocupar com a compra das bebidas e comidas. “É difícil achar produtos no mercado e, quando achamos, são muito caros”, disse Annarede. Hoje tudo é fornecido pelo Estado, ou seja: cerveja, rum, refrigerante, arroz, feijão e peixe.

 

Um dos erros mais comuns do estrangeiro é achar que Cuba é uma nação morena. Dos seus 11 milhões de habitantes, no entanto, 65% são brancos, 25% mestiços e 10% negros. São quase sempre estrangeiros os brancos de olhos azuis que andam por Cuba. Uma delas é Vanessa Adams, de 22 anos, pele alva, olhos azuis e cabelos louríssimos, um tipo físico muito comum em Não-me-Toque, a cidade gaúcha de colonização alemã, italiana e holandesa onde nasceu.

Filha de pequenos agricultores, Vanessa Adams estudou em escola pública e tentou cursar medicina na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, mas não passou no vestibular. Integrante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, não pensou duas vezes antes de comunicar à família que iria estudar em Cuba. “Aceitaram de boa”, disse, em gauchês jovem. “Sabiam que era meu sonho. Sempre quis conhecer Cuba; o Movimento tem no seu íntimo o apoio a Cuba, a luta por igualdade, por justiça”, afirmou.

Entre os brasileiros, há raras exceções de apoios vindos de um partido que não o PT. A pernambucana Eloá Daniel conseguiu a vaga graças a uma tucana. “Eu tentei pelo PT, mas tinha de ser filiada há pelo menos dois anos”, disse. “Então uma amiga da minha mãe conseguiu a carta de indicação de uma ONG ligada ao PSDB.” Depois de dois anos em Cuba, Eloá disse que gosta muito do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Mas gosta um pouquinho mais de Lula: “Ele é mais humilde.”

Desde que o Estado distendeu relações com diversas religiões, são os evangélicos que mais têm ganho terreno entre os cubanos, em especial na juventude. A acreana Ana Paula Guimarães, uma estudante de medicina alta, magra e de longos cabelos pretos, não teve dificuldade em encontrar uma Assembleia de Deus para frequentar nos finais de semana. “Sou uma socialista que acredita em Deus”, disse. “Nunca tinha vivido fora de casa e chorava por estar distante. O que me equilibra é que tenho um objetivo que é terminar a faculdade.” Morando em um alojamento com outra brasileira e duas guatemaltecas, Ana Paula Guimarães disse que voltará ao Acre como médica para retribuir o que os sem-teto fizeram por ela: “É a minha missão.”

A Escuela Latinoamericana de Medicina foi criada em 1998. Como quase tudo em Cuba, “por iniciativa direta do comandante-em-chefe Fidel Castro Ruz”, conforme reza a história oficial. Foi no ano em que dois furacões mataram milhares de pessoas na América Central e no Caribe.

A falta de médicos na assistência às vítimas levou à ideia da criação da escola. Ela formou mais de 24 mil médicos, que hoje trabalham em 116 países. Cuba paga hospedagem, alimentação, material didático e uma bolsa mensal de 10 dólares para os alunos. A passagem é por conta dos estudantes. A seleção é feita a partir da indicação de instituições sociais, políticas e partidárias em todo o mundo. Os alunos precisam ter entre 18 e 25 anos, diploma de conclusão do ensino médio e realizar uma prova de seleção de conhecimentos gerais. A cada ano, cerca de 2 mil são recrutados. Venezuela e Brasil, com 600 alunos cada, são os países que mais têm alunos no momento. Mas há palestinos, israelenses, etíopes e até americanos – ligados a uma fundação protestante.

Os alunos brasileiros têm dificuldades para registrar o diploma de médico quando retornam ao Brasil. Universidades federais como as do Ceará e do Acre aceitam revalidar os diplomas, desde que os alunos cursem disciplinas complementares por mais seis meses. Outras universidades não reconhecem o diploma. O Congresso ainda discute um projeto para normatizar o registro de diplomas obtidos no exterior, sem que tenha chegado a uma solução.

 

Maritza González Bravo é vice-reitora da escola e responsável pela parte discente. Morena de cabelos encaracolados, aos 42 anos é também pesquisadora de um centro de estudos genéticos, no qual trabalha para descobrir a vacina contra a hepatite. Ela resumiu assim o objetivo da escola: “Formar médicos para levar justiça social e saúde para todos os necessitados, sem distinção de raça, de gênero, de origem. Algo importante na Revolução Cubana é compartilhar o que temos com todos os membros de nossa sociedade e do mundo. Dividir o que temos.”

Ela disse que a escola não tem nenhum requisito ideológico. “Com os exemplos que damos aqui, achamos que os valores que prezamos permanecerão nos corações dos alunos quando retornarem às suas comunidades”, explicou Maritza González. “Os cubanos estudam filosofia e sociedade. Os estrangeiros, não. Aprendem história da medicina, conhecimento universal. E nada de luta de classes.”

Depois de dois anos de ciclo básico, os alunos atuam sob supervisão dos grupos médicos. A partir do 6º ano, quando se tornam clínicos gerais, podem escolher uma especialidade. Os alunos têm quarenta horas de estudo de medicina naturalista e tradicional. A ênfase é mais na prevenção do que na cura propriamente dita.

Cuba vive uma crise financeira desde 1991, quando a União Soviética ruiu. Os subsídios que recebia secaram e ela perdeu um terço de todas as suas riquezas em cinco anos. A situação melhorou um pouco graças a acordos comerciais com a Venezuela, que vende petróleo a Cuba a um terço do preço de mercado, o que resultou no fim dos apagões em Havana. Tudo o que Cuba produz equivale à soma dos bens de Goiás ou do Sri Lanka.

Raúl Castro assumiu o poder em 2008, quando seu irmão Fidel se afastou com uma diverticulite de cólon. Abriu o país ao turismo, promoveu a associação do Estado com grupos privados estrangeiros, legalizou a posse do dólar e autorizou mais de 150 atividades privadas, muitas ligadas a restaurantes familiares, táxis e funções pouco comerciais – artistas de rua que simulam ser estátuas e vendedores de CDs e DVDs piratas.

Um relatório do Departamento de Estado americano calcula que 40% da economia cubana passa por la izquierda. O governo cubano aponta um culpado para a crise: o embargo que, desde 1962, proíbe os norte-americanos de negociarem com a ilha. Em outubro, o Granma, o jornal do Partido Comunista, calculou em 577 milhões de dólares o prejuízo direto só da indústria açucareira cubana em razão do embargo dos últimos cinco anos, o que é algo perto de 0,51% do faturamento anual da Petrobras.

Apesar da crise, existe um bairro em Havana que se parece com o Jardim Europa, de São Paulo. Miramar é uma região de casarões neoclássicos do século XIX. Ali estão as embaixadas e empresas associadas ao Estado, e fica  perto do grande parque onde moram os irmãos Castro. Gente usando grifes europeias passa a pé ou em carros importados novos. É a nova elite cubana que surge, associada aos negócios com empresas estrangeiras. Frequentam restaurantes privados, vão por la izquierda para comer lagostas, mas não podem ter fazendas, fábricas, bancos: não são uma burguesia.

Numa noite recente, o bar El Tocororo reunia parte dessa elite em suas mesas. Pouco depois da 1 hora, surgiu um jovem cubano descalço, calção de banho e camiseta molhada, que entrou cantando e dançando no bar. Pediu seis garrafas de uísque Ballantine’s no balcão. Enquanto esperava, contou que estava em uma festa num casarão a poucas quadras dali. Na saída, estendeu o convite para o rega-bofe a quem estava em volta. “Mas tem de levar algumas mulheres”, ressaltou. Pagou o equivalente a 240 dólares pela bebida, quase dez salários do médico-taxista que me levou naquela noite de volta ao hotel.

 

A Escuela Internacional de Cine foi fundada em 1986 por Gabriel García Márquez, pelo cineasta argentino Fernando Birri e pelo teórico e cineasta cubano Julio García Espinosa. Oferece três anos de estudo e o aluno pode se especializar em direção, fotografia, edição, produção, som, roteiro ou documentário. Formou 736 alunos de 55 países em 25 anos de existência.

Inicialmente gratuito, o curso de cinema custa hoje 15 mil euros pelos três anos. Como definiu seu diretor, o cineasta guatemalteco Rafael Rosal, os alunos pertencem à “classe média acomodada” de todo o mundo. São 120 estudantes confortavelmente instalados em suítes individuais, num pavilhão arborizado de uma antiga base militar. Se nos alojamentos da escola de medicina se veem camisas com a estampa de Che secando na janela, nos prédios da escola de cinema vê-se até robe de chambre cor-de-rosa pendurado ao sol.

“Estamos numa ilha dentro da ilha”, disse o responsável pela cátedra de roteiro, o vascaíno Daniel Tavares. Ele passara a manhã inteira tentando acessar a internet – uma dificuldade extrema em Cuba – para descobrir o resultado do jogo do Vasco no dia anterior. A escola tem uma rede interna de mensagens, mas não tem acesso ao YouTube ou ao Google. Somente representações diplomáticas e empresas estrangeiras têm internet por meio de satélite, que é caríssima. O acesso em geral é discado, sem banda larga, em pontos turísticos como hotéis, custando 6 dólares a hora, um terço do salário médio mensal do país.

Daniel Tavares sabe que ganha como coordenador da escola menos do que receberia no Brasil como produtor de televisão da Globosat, sua experiência anterior. Mas disse ter uma dívida afetiva com Cuba e quer pagá-la. Aos poucos, toca o roteiro de um filme que pretende rodar em Dourados, Mato Grosso do Sul, mostrando a relação entre hip-hop da periferia e as aldeias indígenas. E passa alguns sufocos: “Ano passado dormimos três noites em colchonetes num abrigo subterrâneo para escapar de um furacão.”

Como a escola fica a mais de 40 quilômetros de Havana, os brasileiros têm pouco contato com a pobreza cubana. A refeição (feijão, arroz, carne moída e purê, num cardápio típico) está incluída na mensalidade, assim como as sessões de cinema à noite (um festival de produções holandesas foi o destaque de outubro).

A baiana Cassandra Oliveira, 31 anos, trabalhava num parque ambiental no Amapá quando começou a produzir vídeos registrando a invasão de garimpeiros em áreas preservadas. Participou da organização do Festival Imagem e Movimento, de Macapá, que por quase uma década foi a única chance de filmes não comerciais chegarem ao estado. Nesse ambiente, conseguiu uma bolsa do governo brasileiro para estudar em Cuba – só a Venezuela e a República Dominicana têm iniciativas semelhantes. Tomou um choque quando chegou à escola de cinema. “É tudo muito eurocêntrico. Imaginei que se discutiria mais cinema latino-americano, que se discutiria mais América Latina”, queixou-se ela, que está no seu segundo ano em Cuba. “Não encontrei aqui quem quisesse discutir a situação indígena.” Mas não reclamou das condições de vida: “Também não tem internet em banda larga no Amapá.”

O mineiro Rodrigo Carneiro, que estudava história na Universidade Federal de Ouro Preto, é outro que mudou de opinião sobre Cuba. “O povo mesmo vive um novo processo de marginalização, tentando acumular dinheiro de forma ilegal”, disse. “Eu tinha uma visão utópica do socialismo. Isso aqui é uma ditadura disfarçada.”

 

Depois de trabalhar em vídeos para os grupos de teatro de José Celso Martinez Corrêa e Felipe Hirsch, e viver em Berlim, onde foi até projecionista, a paulista Lilla Halla encara Cuba como um “curso de imersão em cinema”. Encontrou, além de um namorado francês, cabeças que pensavam como ela: “O que mais me espantou aqui foi a dilatação do tempo, porque se vive com muita intensidade o cinema, as pessoas e as coisas do cinema. E tem também essa luz natural muito forte. É impressionante.” Halla tem 30 anos. No momento, faz um documentário no qual pede que cubanos escolham uma música e a dancem na frente da sua câmera.

Rafael Rosal, o diretor da Escola de Cinema, enfrenta dificuldades para tocar o curso e tenta arrumar novas fontes de financiamento. O orçamento anual é de 4 milhões de dólares, sendo 500 mil só para as passagens dos mais de 400 convidados, que proferem palestras e cursos. O governo cubano arca com água, luz, combustível e salários de servidores administrativos, gastos anuais de 1 milhão de dólares. Rosal, que assumiu o cargo poucos meses atrás, pretende criar um fundo de investidores internacionais para custear a escola. “Queremos que ela seja independente dos aportes cubanos, que estão em queda”, disse. “Em algum momento, podemos até pagar Cuba por seus serviços e voltar à ideia inicial de ser uma escola gratuita.”

A cobrança de 15 mil euros por três anos de curso mudou o perfil da escola, disse Rosal. “É a classe média acomodada que pode vir para cá”, afirmou ele. “É um contrassenso com a filosofia original: ser um espaço para quem tem talento e não tem dinheiro para estudar. Por isso, vêm mais alunos europeus do que centro-americanos, por exemplo.”

Nas paredes da escola, diretores que deram cursos deixaram suas assinaturas, do inglês Stephen Frears ao brasileiro Nelson Pereira dos Santos, do americano Tom McCarthy ao alemão Wim Wenders. Rosal sonha que um dia a escola possa vender esses cursos via internet e entrar no mercado de ensino a distância.

E Rosal também quer aumentar o contato da escola com Cuba. “Não estamos num país qualquer”, disse. “Estamos na única revolução socialista que sobreviveu no hemisfério ocidental. É um país com uma história muito particular. Não somos neutros. Vamos aceitar todas as tendências e filosofias culturais, mas não somos neutros.” As inscrições para o curso de cinema do próximo ano estão abertas.

Plínio Fraga

Plínio Fraga foi jornalista de piauí entre 2011 e 2012.

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