esquina

Latidos no centro cirúrgico

O primeiro hospital público para cães e gatos de baixa renda

André Gravatá
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2013

Lince de Souza Soeiro estava prestes a entrar na faca. Sedada sobre a mesa cirúrgica, em breve teria um tumor retirado da parte lateral do tórax. Para aproveitar o ensejo, na mesma operação também teria o útero e os ovários removidos. O cirurgião Cauê Toscano, coordenador do serviço de cirurgia e oncologia, estava pronto para conduzir o procedimento ao lado de um auxiliar e de um anestesista. No andar de baixo, Osvaldo aguardava apreensivo. Com lágrimas nos olhos, dizia que, para ele, Lince era como uma filha, sua herdeira.

Às oito da manhã começaram os trabalhos cirúrgicos em Lince, uma dobermann de 9 anos, paciente do primeiro hospital público para cães e gatos do Brasil. Sediado no bairro do Tatuapé, na capital paulista, o Serviço Veterinário da Associação Nacional de Clínicos Veterinários de Pequenos Animais de São Paulo oferece tratamento gratuito para animais de pessoas de baixa renda. Os serviços do Publicão, como é conhecido, abrangem áreas como endocrinologia, oncologia, oftalmologia, ortopedia e odontologia.

O hospital foi criado em julho do ano passado a partir de um convênio com a Prefeitura de São Paulo. Mensalmente, a Associação recebe até 600 mil reais, conforme a quantidade de consultas e cirurgias realizadas. O valor permite que os sessenta veterinários da equipe façam mil atendimentos e 400 cirurgias por mês.

Na cidade de São Paulo, há cerca de 3 milhões de cães e gatos com dono, segundo o Centro de Controle de Zoonoses. Não espanta que houvesse uma grande demanda reprimida por tratamento veterinário. Já de madrugada, é possível ver a fila se formando na frente do sobrado onde é feita a seleção dos pacientes do Publicão. Na primeira visita, Osvaldo chegou às três da manhã e pegou a senha de número 11. No processo de triagem, os donos têm que provar a participação em programas sociais do governo, como o Bolsa Família ou o Renda Mínima. A maioria dos atendidos vem de periferias e favelas, e não é raro encontrar ali moradores de rua com seus cães.

Na sala de espera do Publicão, a maltês com roupinha colorida e laço vermelho aguardava sentada ao lado de vira-latas impregnados com o cheiro da rua e gatos enrolados em volumosos cobertores listrados. Cauê Toscano disse que os tumores estão entre as doenças mais tratadas no hospital e lembrou-se de quando retirou um de 10 quilos da musculatura abdominal de um cão. “Em algum momento esse tumor teve 1 grama. Tratado na fase inicial, seria facílimo de resolver”, disse o veterinário. “Mas os animais chegam com doenças em estágios bastante avançados, devido às condições financeiras dos proprietários.”

Os cachorros são de longe os animais mais atendidos no Publicão, representando de 60% a 65% dos pacientes, e os gatos respondem por quase todo o resto. Outros animais são bem mais raros no hospital – passarinhos, hamsters e até uma galinha com pedra no estômago já foram levados por donos em busca de socorro. As ocorrências incluem consultas novas e de retorno, mas dois terços dos atendimentos são de caráter urgente, como os cães atropelados que aparecem às pencas a cada dia.

Numa tarde atribulada no Publicão, doutor Cauê se impressionou com a serenidade do dono de um pastor alemão que chegou todo tingido de sangue. “Meu cachorro tomou uma mordida”, disse o senhor placidamente. O cirurgião se levantou da sua mesa para examinar o animal e não gostou do que viu. Num ato abrupto, pegou o pastor e o levou para a mesa de cirurgia, sem mais conversa.

 

Cauê Toscano tem 26 anos e o olhar sempre atento por trás dos óculos. É dono de um pit bull chamado Bono, mas não se incomoda de deixá-lo em casa quando recebe chamados de madrugada para resolver emergências. O Publicão fecha às 19 horas e o bloco cirúrgico encerra os trabalhos às 22, mas o setor de internação continua em permanente funcionamento, com capacidade para até trinta animais. Entre os pacientes internados em estado grave naquela tarde estava o gato Frajola, de 2 meses, intoxicado por veneno de rato.

Na sala de espera, o burburinho de latidos e miados às vezes cessa momentaneamente para um instante de silêncio. Mas não tarda até que um cão se incomode com a entrada de estranhos ou dê um gemido acossado pela dor. Quando chega sua vez, os pacientes são chamados pelo nome: Lola, Niki, Nina, Airon, Bam Bam.

Assim que Manuela foi convocada, sua dona se levantou com um sorriso esperançoso. Em breve Manu subiria à mesa de cirurgia para a retirada de um tumor na mama. Não era seu primeiro atendimento, conforme relatou sua dona, a zeladora Maria da Graça. Ela havia encontrado a cadela no meio da rua semanas antes com o rabo quebrado, os olhos fechados e repleta de bichos pelo corpo (antes disso, já havia levado para casa outros cinco cachorros achados ao léu). Para levar a cadela ao hospital, Maria chamou o Táxi Dog, serviço que transporta os bichinhos e seus donos por 2 reais o quilômetro. “A doutora tratou a Manu sem hesitar em tocar nas bicheiras da pele”, disse a dona, impressionada.

Entre os ganidos dos pacientes do Publicão, é possível identificar por vezes a lamúria dos donos, ora contidos, ora estridentes. Estão apreensivos com o futuro de seus filhotes enquanto aguardam o atendimento. Referem-se aos bichos sempre de forma carinhosa. Um dono puxou conversa com o vizinho na sala de espera: “O que aconteceu com seu bebê, já tirou os pontos?”

No final da cirurgia de Lince, Cauê Toscano foi conversar com Osvaldo. Contou-lhe que, apesar de uma pequena complicação, o procedimento havia sido um sucesso. “Depois de sete a dez dias de repouso, sua cadela estará recuperada”, estimou. “Fizemos uma intervenção grande, dois cortes que somam 25 centímetros, porque ela é uma cadela gorda…” Antes que o veterinário pudesse terminar a frase, o dono protestou com um riso no canto da boca: “Gorda não, né, doutor? A Lince é fortinha.”

André Gravatá

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