esquina

Latino-americanices

Yankees si! Cruzqueños no!

Julia Dantas
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

A antiga capital do Império Inca, compartilha com Machu Picchu a distinção de ser invariavelmente descrita com qualificativos que adornam as páginas de Paulo Coelho. Cusco é mágica e misteriosa, cheia de energia, um lugar com astral muito particular, para lá de positivo. (Drible-se o inconveniente histórico de os incas terem uma quedinha por sacrifícios humanos.)

Na cidade que já se julgou o umbigo do mundo, cusquenhos e turistas dividem equitativamente o espaço público. Na Plaza de Armas, lado a lado em torno da fonte, ingleses, israelenses, chilenos e peruanos recebem os últimos raios de sol antes de enfrentar o gelo da noite.
As ruas do centro histórico são um anúncio da Benetton. Na Procuradores, um italiano vende pulseirinhas sentado no meio-fio da mesma calçada em que uma senhora aimará expõe bonecas de pano. Na avenida El Sol, malabaristas argentinos disputam o sinal com crianças peruanas que vendem chiclete. Enquanto é dia, a cidade é de todos.

Já de noite, definitivamente, os gatos não são todos pardos. Quase tão famosas quanto as ruínas incas são as festas de Cusco. É praxe dançar no balcão do bar. Quase obrigatório é os meninos se balançarem colados ao bumbum das meninas, que, por sua vez, rebolam uma versão de funk carioca, mãozinhas pra lá e pra cá no joelho dobrado. Nessa paisagem de cabeças loiras e olhos azuis, uma feição nativa destoará tanto quanto um negro na Lapônia. Nas seis principais discotecas de Cusco, todas nas redondezas da Plaza de Armas – o umbigo do umbigo do mundo – a entrada é franca e gratuita, isto é, desde que o cliente tenha cara de quem nasceu além das fronteiras nacionais, de preferência ao norte do Equador.

 

A seleção começa na porta. No bar Mithology, o mais concorrido na cidade, dois franceses e um cusquenho, os três em torno dos 25 anos, sobem os degraus que levam à pista de dança, mas Richard Mendoza é barrado. De nada adianta protestar com o segurança: “Somos los dos peruanos! Me vas a cagar, a un peruano?” A coisa se resolveu rapidamente. Bastou aos franceses perceber que haviam perdido um integrante do trio e dar meia-volta para avisar na entrada: “El está con nosotros, está todo bien.” O baixinho de pele morena ganhou direito à festa.

Em dias de movimento menor, um cusquenho consegue entrar com mais facilidade, embora não sem pagar de 10 a 15 soles (7/10 reais), valor de que turistas de pele clara estão dispensados. Os não-morenos costumam também ser recebidos com um drinque de cortesia, por terem tido a gentileza de escolher aquele estabelecimento.

O critério da discriminação está mais na ordem do fenomenológico, digamos. Se, num grupo de quatro pessoas, a metade tiver feições europeias, os seguranças informarão aos mais claros que dois podem entrar de graça e dois pagam. O que importa é a cara, não o passaporte. Assim, o argentino Pablo, que faz um mochilão pela América do Sul e está há um mês em Cusco, ainda não entrou de graça em nenhuma discoteca badalada. Sem meter a mão no bolso, foi barrado em todas. Ele nasceu em Córdoba e, em vez da pele clara e dos traços ítalo-hispânicos da maioria de seus compatriotas, exibe feições indígenas.

 

Andrés, um ex-segurança de boate, explica que a triagem é necessária porque os cusquenhos tendem a se exceder com bebida e música, e sempre que há briga, diz ele, pode-se ter certeza de que há um peruano no meio. Não é de todo inexato, mas a explicação para o mau comportamento não será achada na etnia.

Que peruanos bebem a valer, é fato, mas um típico fim de noite nas boates de Cusco é povoado de estrangeiros que mal param em pé. Na mesma situação, um cusquenho é mandado embora bem antes. Basta que trance as pernas ou enrole a língua na hora de pedir outra cerveja para que entre na mira dos seguranças. O sueco que vá ao chão de tão bêbado é pitoresco; um peruano que leve o mesmo tombo é encrenca.

Os peruanos recebem tratamento especial – para pior, por supuesto – dos garçons. Também é comum que estrangeiros olhem torto para latinos de pele escura que teimem em tirar as meninas deles para dançar. Existem, é claro, os sobreviventes, pouquíssimos. Estes sairão da discoteca com uma loirinha a tiracolo, tão deslumbrada com a ginga do Terceiro Mundo quanto doida para aprender os passos da salsa, preferência absoluta dos peruanos locais.

No dia seguinte, recomeça. As vans para Machu Picchu sairão ao amanhecer, os ambulantes e os engraxates ocuparão as escadarias da catedral à espera dos fregueses, os garçons estarão nas calçadas oferecendo cardápios de café da manhã. No fim da tarde, gringos e peruanos aproveitarão o resto de sol ao redor da fonte da Plaza de Armas, uns guardando fôlego para a euforia, outros para brincar de gato e rato em porta de boate.

Julia Dantas

Leia também

Últimas Mais Lidas

Sem máscara, no meio da fumaça

Entre o combate às queimadas e o resgate frustrado de um bicho-preguiça, a rotina de trabalho de um bombeiro na Amazônia em chamas

Foro de Teresina #69: O racha no bolsonarismo, as derrotas do Posto Ipiranga e a farra do fundo eleitoral

O podcast de política da piauí discute os principais fatos da semana

O patriotismo como negócio

Vendas da Semana do Brasil, criada para incentivar consumo apelando ao Sete de Setembro, ficam 40% abaixo do esperado pelo governo

Maria Vai Com as Outras #3: Quero ser mãe, não quero ser mãe

Uma editora e uma advogada e escritora falam sobre os desdobramentos na vida de uma mulher quando ela decide ter ou não ter filhos

Vítimas de Mariana cobram R$ 25 bi de mineradora BHP na Inglaterra

Juiz deve decidir em junho se vai julgar o processo, o maior em número de vítimas da história do Reino Unido

Passarinho vira radar de poluição

Pesquisadores usam sangue de pardais para medir estrago de fumaça de carros e caminhões em seres vivos

Foro de Teresina #68: Censura na Bienal, segredos da Lava Jato e um retrato da violência brasileira

O podcast de política da piauí discute os principais fatos da semana

Presos da Lava Jato unidos contra os ratos e o tédio

Condenados por crimes de colarinho-branco já caçaram roedores e fizeram faxina em complexo penal; transferidos para hospital penitenciário e sem ter o que fazer, gastam o tempo com dominó  

Mais textos
1

Vítimas de Mariana cobram R$ 25 bi de mineradora BHP na Inglaterra

Juiz deve decidir em junho se vai julgar o processo, o maior em número de vítimas da história do Reino Unido

2

Que falta faz uma boa direita

Bolsonaro e o liberalismo no Brasil

4

O patriotismo como negócio

Vendas da Semana do Brasil, criada para incentivar consumo apelando ao Sete de Setembro, ficam 40% abaixo do esperado pelo governo

5

A casa da memória

Mentir para tratar a demência

7

Sem máscara, no meio da fumaça

Entre o combate às queimadas e o resgate frustrado de um bicho-preguiça, a rotina de trabalho de um bombeiro na Amazônia em chamas

9

Bacurau – celebração da barbárie

Filme exalta de modo inquietante parceria entre povo desassistido e bandidos

10

Sem SUS, sem saída, sem vida

Sem dinheiro para pagar dívidas médicas nos Estados Unidos, idoso mata mulher e se suicida; tragédia amplia debate sobre acesso a sistema público de saúde