esquina

Leilão da esquerda

Cinquenta fotos para libertar Lula

Fellipe Bernardino
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2019

A arquiteta Clara Ant foi uma das primeiras a chegar ao bar Sabiá, na Vila Madalena, em São Paulo. Sentou-se em uma das mesas, pediu um Guaraná Zero e uma porção de bolinho de arroz. “Minha mãe dizia que é o bolinho Lavoisier”, brincou, citando o químico francês para quem “nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Ant estava ali para participar do Leilão Lula Livre, de cinquenta imagens do ex-presidente feitas por 43 fotógrafos entre 1978 – quando era líder sindicalista – até 2018, antes da prisão pela Operação Lava Jato.

Aos poucos, o bar ficou repleto de gente, a maioria portando alguma peça vermelha no vestuário. “Lula livre!” – gritavam as pessoas, ao chegar ao local. E iam se ajeitando nas mesas, ao som do jingle Lula Lá, da campanha à Presidência em 1989 (quando Fernando Collor venceu as eleições): “Lula lá, brilha uma estrela/Lula lá, cresce a esperança…”

Às 20h15 do dia 3 de abril, o leilão teve início. Em um telão, as fotos eram exibidas para as cerca de 150 pessoas, e os lances começavam sempre em 1 313 reais. Quando o número eleitoral do Partido dos Trabalhadores, o 13, era citado, ocorria uma ovação. Vaias ecoavam quando aparecia o número 17, do Partido Social Liberal (PSL), de Jair Bolsonaro. Enquanto uma mulher servia aos apostadores doses de cachaça artesanal feita pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), o leiloeiro insistia: “É pouco! É pouco!” Se o lance atingia 20 mil reais ou mais do que isso, ele convidava o próprio comprador a bater o martelo.

Em meio à aglomeração, o ex-deputado federal José Genoino distribuía rosas às fotógrafas presentes. O presidente do Instituto Lula, Paulo Okamotto, circulava de mesa em mesa, cumprimentando amigos e amigas. “O importante é mostrar que Lula não é um qualquer, mas que tem passado e futuro”, disse Okamotto. O vereador Eduardo Suplicy não deu nenhum lance, pois achou os preços altos para o seu bolso. Mas não deixou de contribuir com o evento. Ao final do leilão, às onze da noite, comandou uma serenata em homenagem a Lula. “Eu sei que vou te amar/Por toda a minha vida, eu vou te amar…”, entoou, acompanhado pelo público.

Todas as fotos foram arrematadas. Os valores gravitaram entre 5 mil reais e 65 mil reais. O lance mais alto foi dado a uma foto de Paulo Pinto que registra Lula sendo carregado por uma multidão de apoiadores no dia da prisão. A arrecadação total do leilão chegou a 623.900 reais.

Foi em novembro último que a fotógrafa Mônica Zarattini teve a ideia de um leilão de fotos de Lula para ajudar na campanha pela libertação do ex-presidente. Falou com o coletivo Fotógrafos pela Democracia, do qual faz parte, e uma convocatória foi feita para o envio de imagens de valor “histórico, icônico e inusitado”. Todas elas foram autografadas por Lula na prisão. “Isso as torna únicas, porque não existe cópia”, disse a fotógrafa.

As fotos foram impressas em papel algodão, mais grosso e duradouro, por meio da técnica fine art, impressão de alta qualidade, feita com cuidados rigorosos. Esse tipo de papel também confere melhor aspecto às imagens em preto e branco – 31 das cinquenta fotos leiloadas.

O ex-presidente recebeu as fotos na prisão em três remessas. Com um lápis tipo HB, assinou em cada uma delas: Lula. “Proporcionamos momentos muito felizes a ele”, afirmou Zarattini. “Imagine Lula na cela vendo a foto de Miguel Chikaoka e lembrando quando subiu naquele caminhão no Pará.” A foto, feita em 1987, mostra o deputado federal Lula cercado por camponeses durante uma carreata contra a violência no campo.

“Nunca vi dois homens se beijando por tanto tempo”, disse ele na prisão, ao ver a foto de Ed Viggiani feita durante um ato em defesa de sua candidatura à Presidência, no ano passado. Na imagem, ele e Gleisi Hoffmann observam, sorrindo, dois artistas que se beijam, deitados no chão. Uma única imagem era inédita: a que Edu Simões fez em 1980, durante o julgamento de Lula pela Justiça Militar.

O ex-presidente autografou de bom grado todas as imagens, menos uma. Não quis saber de colocar sua assinatura em uma foto em preto e branco feita por João Bittar em 1979, no Congresso Nacional dos Metalúrgicos em Poços de Caldas (MG). Na imagem, o então líder sindical, com vasta barba preta, está com a camiseta levantada e aponta o próprio umbigo.

Bittar – que morreu em 2011 – contou que Lula, um tanto incomodado com a presença constante do fotógrafo, parou diante dele, mostrou a barriga, indicou o umbigo e disse: “Pô, saco! Então fotografa aqui.”

Para substituir o flagrante exibicionista que Lula não quis autenticar, a família de Bittar ofereceu outra imagem, mais solene, feita em 1979. A foto mostra o então líder operário de mãos dadas com outros trabalhadores, durante uma passeata após o velório do metalúrgico e líder sindical Santo Dias da Silva, morto aos 37 anos por um policial militar.

Fellipe Bernardino

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