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    Rosas de Sarajevo: assim são chamadas as marcas produzidas nas ruas pelos morteiros lançados durante a guerra na Bósnia e depois preenchidas com resina vermelha, como se fosse sangue CRÉDITO: SUPERIKONOSKOP_2018

carta da bósnia

Lições da História

Trinta anos depois da guerra, vítimas cruzam nas ruas com seus algozes

Simone Duarte, de Sarajevo | Edição 232, Janeiro 2026

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“Você tem que decidir agora se quer ir ao lugar onde houve o massacre.” Respondo que sim. Deixamos para trás a estrada ensolarada cercada de pinheiros e entramos em outra, mais estreita e esburacada, no meio da floresta. Não há placas. “Acho que é por aqui. A última vez que vim foi há uns vinte anos para uma homenagem às vítimas.” O tempo fecha. Quanto mais avançamos, mais avistamos nuvens carregadas. No rádio, ouvimos Amira Medunjanin, que canta sevdah, um estilo de música melancólico, tradicional, com letras que falam de amor, perda, saudade. Depois de uns 20 minutos de viagem, Refik Hodžić me diz que chegamos.

Estamos no topo de uma ravina na montanha de Vlašić, no centro da Bósnia e Herzegovina. Hodžić sai do carro. Pede para eu ter cuidado quando me aproximo da beirada da falésia. Depois se afasta e anda uns minutos em silêncio. Começa a chover. “Eles escolheram uns duzentos homens do comboio de ônibus, os fizeram entrar em outros dois veículos”, conta Hodžić. “Eles saíram daquela estrada em que nós estávamos e, quando chegaram aqui, começaram a executá-los na beirada da ravina, e eles despencavam.”

Ele suspira fundo. Olho para baixo, para o emaranhado de árvores onde os corpos caíram em 1992, durante o massacre na ravina de Korićani. Chove cada vez mais forte. Corremos para o carro. “Um dos meus melhores amigos foi executado aqui. Tinha 16 anos, jogava futebol muito bem, ninguém duvidava de que ia ser o maior jogador de todos os tempos. Quando tínhamos 12, 13 anos, íamos todos às aulas de dança por causa das meninas. Foi meu professor de dança que comandou o massacre.”

 

A viagem começara cinco dias antes. Partimos de Zagreb, capital da Croácia, e em duas horas chegamos ao posto fronteiriço de Kozarska Dubica, no noroeste da Bósnia, para o início da nossa travessia. A primeira parada foi Prijedor, cidade onde Hodžić nasceu e cresceu, cenário da maior campanha de limpeza étnica na Europa na segunda metade do século XX. Depois seguimos para Sarajevo, a capital da Bósnia, refazendo a mesma rota que milhares de bósnios, a maioria muçulmanos, foram forçados a percorrer depois de serem violentamente expulsos de suas casas. O massacre na ravina de Korićani aconteceu durante esse trajeto.

Quando conheci Hodžić, no final dos anos 1990, em Timor-Leste, ele trabalhava para a ONU. Era um jovem de 27 anos, imponente, de 1,93 metro de al­tura e olhos de um azul quase transparente, comprometido em construir aquele país do Sudeste Asiático. Quase três décadas e trinta países depois, o especialista em Justiça transicional, com experiência em conflitos em lugares tão diversos como Colômbia, Sri Lanka, Líbano, Afeganistão, Ucrânia e Síria, iria me guiar, durante dez dias, por 1,5 mil km pelo passado e pelo presente da Bósnia e Herzegovina.

Entre 1992 e 1995, a Bósnia foi palco da guerra mais mortífera no continente europeu depois da Segunda Guerra Mundial: 100 mil mortos, 20 mil mulheres estupradas, mais de 2 milhões de refugiados. Não havia um só dia em que a tevê não nos bombardeasse com imagens do cerco a Sarajevo, que durou 1 425 dias – o mais longo do século XX, ultrapassando os de Stalingrado e Leningrado, na antiga União Soviética. Quase 11 mil pessoas morreram durante o cerco em Sarajevo. Campos de concentração e genocídio voltaram à realidade europeia, menos de cinquenta anos depois do Holocausto e da promessa de “Nunca Mais”. A Bósnia foi arrasada. Quase 40% dos mortos eram civis.

 

A guerra foi uma consequência da desintegração da Iugoslávia, então composta por seis repúblicas: Bósnia e Herzegovina, Macedônia, Montenegro, Croácia, Eslovênia e Sérvia. Tudo começou em 1991, com movimentos separatistas da Eslovênia e da Croácia. Na Bósnia e Herzegovina, a maioria da população também votou pela separação da Iugoslávia. Porém, quando a Europa e os Estados Unidos reconheceram o novo país, os ultranacionalistas sérvio-bósnios proclamaram uma nova república para se tornarem independentes da Bósnia – e começaram a expulsar e matar quem não era sérvio-bósnio. Contavam com milícias sérvias e com o apoio dos líderes sérvios que controlavam o governo iugoslavo, cujo Exército era o quarto maior da Europa.

Em que pese o conglomerado de ultranacionalistas sérvio-bósnios, a Bósnia era a república iugoslava mais multiétnica. No Censo de 1991, 44% da população era formada por bosníacos (como são chamados os bósnios muçulmanos), 31% por sérvios (cristãos ortodoxos), 17% por croatas (católicos) e 5,5% por pessoas que se consideravam iugoslavas. A maioria dos muçulmanos não era religiosa, muito menos praticante. Até hoje, grande parte consome bebidas alcóolicas. A Bósnia também tinha o maior número de casamentos entre sérvios, croatas e bosníacos (todos de origem eslava). No entanto, apesar das atrocidades generalizadas, as principais vítimas dos massacres foram os bosníacos: 80% dos mortos. O conflito durou três anos e meio e se encerrou com os Acordos de Paz de Dayton, patrocinados pelo governo de Bill Clinton e cuja assinatura final ocorreu em dezembro de 1995.

Uma das melhores explicações sobre o que aconteceu na Bósnia e Herzegovina entre 1992 e 1995 é a do historiador inglês Noel Malcolm, autor de Bosnia, a short history, um dos livros de referência sobre o passado do país. “Os paramilitares sérvios, que adquiriram um prazer patológico nos massacres que cometeram, seguiram uma estratégia racional ditada pelos seus líderes políticos [Slobodan Milošević e Radovan Karadžić], um método calculado para expulsar e eliminar duas etnias [os croata-bósnios e os bosníacos] e radicalizar a terceira [os sérvio-bósnios].” Malcolm cita a entrevista do jornalista independente sérvio Miloš Vasić a uma tevê americana nos anos 1990 para dar o exemplo mais contundente do método dos líderes ultranacionalistas sérvios: “É como se todas as tevês dos Estados Unidos tivessem sido tomadas pela Ku Klux Klan. ‘Imagine que cada pequena estação de tevê do país seguisse a mesma linha editorial do supremacista David Duke. Vocês também teriam uma guerra daqui a cinco anos.’”

 

Para julgar os crimes cometidos na Guerra da Bósnia, a ONU instituiu o Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia, o primeiro tribunal especial criado depois dos de Nuremberg e de Tóquio. Em 24 anos, 161 pessoas foram indiciadas e 90 condenadas por crimes de guerra, incluindo genocídio e crimes contra a humanidade. Entre elas, o ex-presidente sérvio Slobodan Milošević – que morreu de um ataque cardíaco na prisão em Haia, na Holanda, em 2006 – e os chamados “carniceiros dos Bálcãs”: o líder sérvio-bósnio Radovan Karadžić, que cumpre prisão perpétua na Grã-Bretanha, e o comandante e general das Forças sérvio-bósnias, Ratko Mladić, condenado pelo genocídio de mais de 8 mil homens e meninos em Srebrenica e que cumpre prisão perpétua em Haia. “Muita gente me considera um caçador de criminosos de guerra de tanto que eu apareci na tevê ou no rádio falando sobre o trabalho do tribunal”, me diz Refik Hodžić, meio sem graça.

Durante dois períodos que totalizaram quase oito anos, ele foi porta-voz e diretor de comunicação, em Haia e na Bósnia, do Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia. Mas hoje prefere ser reconhecido pelo seu recente romance Polaroid cowboy, um retrato delicado da infância e adolescência passadas na antiga Iugoslávia. “Não queria escrever sobre a guerra, o livro me ajudou a lidar com a tristeza do que perdemos, dessa vida que foi interrompida. A minha geração foi destroçada”, diz Hodžić. “É um romance com histórias curtas para que os jovens também queiram ler. A gente hoje vive essa luta constante, colossal, entre o passado e o futuro. O meu filho Tarik e minha filha Azra sabem e entendem o que aconteceu, mas não querem que a vida deles seja moldada por todas essas mortes.”

 

Os imensos rolos de palha nos campos de trigo que margeiam a estrada são um sinal de que a colheita já passou. Refik Hodžić chama a minha atenção para as placas em todo o trajeto, desde que cruzamos a fronteira entre a Croácia e a Bósnia. Nas placas, os nomes escritos em caracteres latinos e cirílico significam que estamos começando a viagem por uma parte da Bósnia que se chama República Srpska.

Os Acordos de Dayton dividiram a Bósnia e Herzegovina em duas entidades. Uma, que abrange 51% do território, chama-se Federação da Bósnia e Herzegovina. A outra, com 49% do território, chama-se República Srpska (ou República Sérvia, que não deve ser confundida com a Sérvia, que é um país vizinho). A República Srpska, governada pelos sérvio-bósnios, é justamente o território que eles ocuparam durante a guerra e queriam proclamar independente. A Federação da Bósnia e Herzegovina é administrada pelos bosníacos e pelos croata-bósnios. Mas os Acordos de Paz de Dayton estabeleceram uma série de mecanismos de controle.

O sistema político criado pelos acordos é realmente confuso, até para os próprios bósnios. Além dessas duas entidades administrativas (República Srpska e Federação da Bósnia e Herzegovina) e um minúsculo distrito autônomo chamado Brčko, a Bósnia tem três presidentes (um bosníaco, um croata-bósnio e um sérvio-bósnio, que se revezam no poder) e dez cantões com mais cargos governamentais. Com um território pouco maior que o estado do Espírito Santo e uma população de 3,2 milhões de habitantes, o país tem mais de 150 ministros de vários níveis. A maior autoridade da Bósnia, porém, é exercida pela comunidade internacional, através de um representante, designado pelos Acordos de Dayton, com vastos poderes, inclusive de depor políticos ou impor e anular leis. “Os sérvio-bósnios da República Srpska não ganharam independência, mas têm algum grau de autonomia”, explica Hodžić. Os bosníacos e os croata-bósnios não têm uma república unificada, governam a federação, embora não completamente. “Essa é a complexidade de Dayton, que obriga todos os lados a fazerem concessões todos os dias: vítimas e algozes.”

Mal estaciona o carro na garagem de sua casa em Prijedor, na República Srpska, Hodžić cumprimenta os vizinhos da frente efusivamente. A Rua Mrakovačka só tem casas, e muitas das aventuras de menino escritas em Polaroid cowboy se passam aqui. “Essa casa foi meu pai que construiu”, diz, ao entramos na moradia de dois andares. “Não mudei nada desde que minha mãe morreu, há quatro anos. Durante o conflito, a amante de um criminoso de guerra ocupou a casa, e demoramos sete anos para tirá-la daqui. Antes de sair, ela roubou todos os móveis.”

Os parentes, que viviam em frente, também não moram mais na rua. Em junho de 1992, o seu tio Hassan foi arrancado de casa junto com um dos filhos e levado para o campo de concentração de Omarska, onde os prisioneiros eram espancados, torturados e violados diariamente. Os pais eram obrigados a assistir aos próprios filhos serem torturados. Quando foram libertados, o tio e o primo se mudaram para o lugar mais longe que podiam: foram para a Nova Zelândia, e nunca mais voltaram. Quase todos os outros moradores da rua são sérvio-bósnios. Antes do conflito, Prijedor tinha 112 mil habitantes, com cerca de 50 mil bosníacos e 48 mil sérvio-bósnios. “Não há estatísticas confiáveis, mas a população de Prijedor não passa hoje de 75 mil pessoas. Mais de 90% devem ser sérvio-bósnios e há menos de 5% bosníacos e pouquíssimos croatas”, estima Hodžić.

“Em outras cidades, como Sarajevo ou Mostar, civis morreram em bombardeios, e soldados foram mortos ou capturados em combates, como na maioria das guerras. Aqui e em 42 cidades e vilarejos da República Srpska, não foi uma guerra, mas uma limpeza étnica, uma campanha sistemática para se livrarem de todos os não sérvios do território que eles acreditavam ser unicamente sérvio. Houve apenas um foco de resistência, com cem homens que foram esmagados em poucas horas pelas milícias sérvias. O líder foi esfolado vivo”, diz Hodžić, já abrindo uma cerveja na sala de sua casa. “Está vendo aquela rua atrás da casa que era do meu tio? Os sérvios tiraram o filho da vizinha e outros dez rapazes de seus lares, colocaram todos num caminhão e durante dezessete anos ninguém soube o que tinha acontecido, até encontrarem os restos mortais deles numa vala na floresta.”

No dia 30 de abril de 1992, paramilitares, policiais e militares sérvio-­bósnios chegaram com 1 mil homens armados e assumiram o controle de Prijedor. Tomaram conta das instituições, promulgaram novas leis, recrutaram sérvios locais, obrigaram bosníacos e croatas a usarem braçadeiras brancas e a colocarem bandeiras ou lençóis brancos nas fachadas das casas, para serem identificados como tais. Começaram a atribuir aos bosníacos e aos croata-bósnios incidentes violentos para ter um motivo para retaliar. A perseguição e a expulsão seguiam o mesmo método: os sérvios roubavam os bens de valor dos não sérvios, queimavam as suas casas, mandavam os homens e rapazes para campos de concentração ou os executavam imediatamente ou no caminho. Expulsavam as mulheres e as crianças. Cometiam estupros em massa. “Foi na República Srpska que aconteceram 95% dos desaparecimentos de bosníacos e croatas”, diz Hodžić.

Prijedor conhece a violência na carne. Durante a Segunda Guerra Mundial, na floresta da Montanha Kozara, os partisans comunistas liderados por Josip Broz Tito (1892-1980), que governaria a Iugoslávia por 35 anos no pós-­guerra, travaram algumas das batalhas mais sangrentas contra os nazistas. Hoje, Prijedor é o município recordista mundial em número de criminosos de guerra indiciados: 161. Destes, 65 foram condenados por crimes de guerra pelo Tribunal Internacional ou em julgamentos na própria Bósnia e Herzegovina. Vinte e oito processos ainda estão na Justiça. A maioria dos condenados já cumpriu a pena. É comum vítimas e criminosos de guerra se cruzarem nas ruas da cidade.

“Uma noite dessas eu estava passeando com uma amiga, e um homem se aproximou, dizendo que era ótimo me reencontrar. Perguntou como eu estava e sugeriu que um dia desses fôssemos tomar um café”, conta Nusreta Sivac, de 74 anos, a única dos cinco juízes muçulmanos da cidade que sobreviveu aos massacres cometidos pelos sérvio-­bósnios. Estamos em um dos cafés da principal rua de Prijedor, em frente à Mesquita de Čaršija, a mais antiga da cidade, totalmente reconstruída depois da guerra. Com um vestido estampado de corações e um chapéu de palha para conter o Sol escaldante, ela saboreia um sorvete de cereja, enquanto recorda seu passado trágico.

“Minha amiga perguntou quem era aquele homem que, sempre que passava por mim, parecia estar falando com uma irmã. Expliquei que era um dos guardas do campo de concentração de Omarska e que ele tinha sido condenado a dezoito anos de prisão graças ao meu depoimento”, continua a ativista e juíza aposentada. “Testemunhei contra todos os indiciados por crimes cometidos em Omarska, tanto nos julgamentos na Bósnia como no Tribunal Internacional em Haia.” Ela prossegue: “Nunca aceitei o convite para o café. Quis evitar que um encontro com um criminoso de guerra gerasse um mal-entendido.” Sorrindo, ela completa: “Mas confesso que fiquei um pouco curiosa. Nada é preto no branco. É mesmo difícil para quem é de fora entender.”

Nusreta Sivac tinha 41 anos quando foi levada para o campo de concentração de Omarska. “São poucos os momentos de lucidez quando se vive rodeada durante 24 horas por assassinatos, tortura, estupro. Não dava para sonhar em sobreviver, não era realista. O medo se apoderou de mim quando percebi que todos os meus quatro amigos juízes haviam desaparecido. Não acreditava que iam me deixar viver”, diz, enquanto acende um cigarro. Hodžić, que está traduzindo para o inglês as respostas da ex-juíza, acrescenta: “Havia um esforço sistemático de assassinar as elites.” Sivac continua: “Em algum momento, decidi que, caso eu sobrevivesse, passaria a vida contando sobre o que tinha acontecido em Omarska.” Ela só soube o que tinha ocorrido de fato com os outros juízes anos mais tarde, quando os restos mortais dos seus amigos foram identificados em valas comuns.

Entre maio e agosto de 1992, ainda no começo da guerra, mais de 3 mil homens e rapazes bosníacos e croatas foram torturados, espancados, abusados sexualmente e submetidos a todo tipo de violação de direitos humanos no campo de concentração de Omarska, uma mina de minério de ferro a 20 km de Prijedor. Quase quinhentos foram executados. Ao contrário do cerco a Sarajevo, que acontecia diante dos nossos olhos nas telas da tevê, a limpeza étnica em Prijedor se arrastou por três meses na penumbra, até que uma equipe da Independent Television News (ITN), da Grã-Bretanha, e o jornalista Ed Vulliamy, do Guardian, conseguiram entrar nesse campo de concentração e no de Trnopolje, a cerca de 15 km de distância. Na revista Time, a imagem de um prisioneiro esquelético sem camisa atrás de uma cerca de arame farpado em Trnopolje evocou os fantasmas do Holocausto.

Sivac era uma das 37 mulheres prisioneiras no campo de concentração de Omarska. “Os guardas vinham quando queriam e levavam uma de nós”, diz a ex-juíza, mudando ligeiramente o timbre de voz. “No início, não entendíamos o que estava acontecendo, mas logo percebemos do que se tratava. Mas lá, entre nós, não falávamos sobre estupro. Quando chegava a sua vez, você descobria.” Foi a partir da Guerra da Bósnia que o estupro passou a ser considerado crime contra a humanidade. “Eu demorei a falar abertamente que tinha sido vítima de estupro. Tinha medo, porque meu irmão, que também fora preso em Omarska, e a família dele ainda estavam aqui.”

Ela aponta para o prédio onde o irmão vivia, cuja parede lateral exibe hoje um dos gigantescos e coloridos murais de arte urbana que cobrem alguns edifícios do Centro de Prijedor. “Só depois que eles conseguiram sair da cidade eu comecei a falar.” Das 20 mil vítimas de estupro em todo o país, estima-se que apenas 1 mil denunciaram o crime. “Toda mulher tem o direito de escolher se quer ou não falar. Algumas não conseguem. Eu decidi que tinha que falar.” Quando voltou a viver em Prijedor, ela às vezes cruzava na rua com um dos guardas que a havia estuprado em Omarska. Ainda hoje, como grande parte da população bosníaca de Prijedor, ela cruza na rua com seus algozes.

No café, um bebê começa a chorar na mesa do lado. As famílias que nos rodeiam são de origem sérvia, como a maioria das pessoas que vive na República Srpska. Sivac acende o quarto cigarro antes de continuar a falar. “Eu podia ter ido viver em qualquer lugar do mundo. Mulheres que foram prisioneiras nos campos tinham prioridade. Mas resolvi voltar. Quando cheguei, foi muito difícil: tinham ocupado o meu apartamento, picharam a palavra Omarska na minha porta, os vizinhos me ignoravam, eu recebia mensagens desagradáveis. Isso aconteceu com todos os retornados, mas nós éramos muitos naquela época. Tenho que ser sincera: depois que voltei, nunca fui vítima de um ataque ou ameaça grave”, ela conta. “Meus parentes vivem em Sarajevo e, a cada nova crise política, me telefonam pedindo para eu me mudar para lá. Respondo que, se for para Sarajevo, vou passear pela parte sérvia da cidade. Então, eles dizem que não consigo viver sem os sérvio-­bósnios”, conta Sivac, rindo. Hodžić também ri. “Eu não saio mais de Prijedor. Ninguém me tira daqui.” (Segundo o censo de 2013, contestado até hoje, 80% da população de Sarajevo é formada por bosníacos, 5% por croata-­bósnios e 3,8% por sérvio-bósnios.)

Pergunto se ela acha que houve justiça. Sivac acende o quinto cigarro. “Talvez uma justiça parcial. Justiça absoluta é impossível. Já a reconciliação é um processo longuíssimo. Nós estamos todos cansados, a gente quer seguir em frente. Posso dizer com muita autoridade que, entre as pessoas comuns, no dia a dia, não há problemas. O problema são os políticos no poder, que perpetuam os discursos de ódio. Eles são o principal obstáculo para a reconciliação”, diz a ex-juíza. “Outro dia fui dar uma palestra para jovens em Omarska. Toda vez que volto, sinto como se estivesse estado lá no campo de concentração ontem. As imagens todas ressurgem, e eu digo para mim mesma: ‘Meu Deus, isso foi há 33 anos. Nunca pensei que fosse viver tanto. Não sou religiosa, mas a vida é um milagre.”

Também o ativista Edin Ramulić já se deparou nas ruas com seus algozes. “Ontem, vi na rua o responsável pelo massacre de Korićani que eu ajudei a colocar na prisão”, ele conta, num restaurante à beira do Rio Sana, no Centro histórico de Prijedor. “Na época, ele estava foragido e descobri o seu esconderijo. A família dele me acusa publicamente de tê-lo denunciado. Mas ele ainda não cumpriu toda a pena, estava andando tranquilamente por aí e me viu. Imediatamente publiquei um post com a foto dele no Facebook e reportei à Justiça. Há muita corrupção e incompetência do sistema judiciário para implementar as sentenças.”

O Book of the dead and missing (Livro dos mortos e desaparecidos) de Prijedor traz os nomes e fotos de 3 176 ví­timas. Mais de três décadas depois dos massacres, 540 pessoas ainda não foram encontradas. “Prijedor é a única cidade do país a ter um livro desse gênero”, garante Edin Ramulić, um dos coordenadores da obra. “Foi preciso fazer uma espécie de censo dos desaparecidos, porque sem saber quantos eram e quais os seus nomes não poderíamos exigir e pressionar o Estado para que os encontrasse. No início foi muito duro”, ele recorda. “Eu tentei voltar para Prijedor em 1996, mas tive de viver em Sanski Most, a 30 km daqui, porque o prefeito e os líderes locais da minha cidade eram os mesmos que tinham comandado os massacres. O ex-prefeito Milomir Stakić foi, depois, condenado pelo Tribunal Internacional a quarenta anos de prisão. Então, o nosso trabalho dependia da lembrança dos sobreviventes, dos refugiados que estavam espalhados pelo mundo.” Só a partir de 1999 voltou a ser seguro viver em Prijedor.

A primeira edição do livro foi lançada em 1998. Ao longo dos anos, recebeu atualizações, com mais nomes. “É muito importante dar rosto aos que desapareceram”, diz Ramulić. Muitas famílias não têm nenhuma foto de quem morreu. Ele mostra no livro os seus doze parentes que foram levados para os campos: sete foram executados, cinco conseguiram sobreviver. “Minha filha, que tem 20 anos hoje, cresceu sem nenhuma foto do avô e do tio em casa.” Até hoje os restos mortais do irmão, que foi preso junto com o pai, nunca foram encontrados. “Não me levaram porque, apesar de eu ter 21 anos, parecia bem mais jovem, acharam que eu era um menino.”

A vala comum em que seu pai estava foi descoberta em 2004, mas só em 2009 conseguiram identificá-lo. Os sérvio-bósnios enterravam e desenterravam os corpos para transportá-los para outros lugares, reviravam as valas com retroescavadeiras e esmagavam os ossos, o que dificulta o trabalho da perícia. “Quem escondia os corpos não eram as mesmas pessoas que cometiam os massacres.” Ramulić procura a foto de uma vala no telefone para me mostrar. “No relatório da perícia, está escrito que encontraram o crânio do meu pai, mas o que recebi foram pedaços de ossos que mal cabiam nas minhas mãos.”

Um banco de DNA começou a funcionar em 2001 para reconhecer as vítimas, mas as exumações e identificações demoram anos. “A falta de preparo das equipes de exumação do país é um agravante. Sempre me consolei com a ideia de que o meu pai havia tido, pelo menos, uma vida plena, embora ele ainda tivesse muito por viver. Em contrapartida, meu irmão tinha apenas 24 anos. Hoje tenho 54 anos, a idade com que meu pai foi executado.”

Ramulić conta que a mãe mora com ele. “Para ficar pouco em casa, eu trabalho muito, pois não consigo lidar com o sofrimento dela. Todos os dias, de maneira direta ou indireta, ela me diz que não pode morrer sem enterrar o filho.” Ele admite que não é fácil explicar como se tolera viver próximo de quem cometeu os crimes. “Na minha opinião, há dois fatores. O primeiro é que muitas dessas pessoas já foram julgadas e pagaram de algum modo pelos crimes que cometeram. Isso não te deixa satisfeito, mas pelo menos houve uma punição. Essas pessoas seguem com a sua vida, eu sigo com a minha. O segundo fator é simplesmente o conformismo.”

 

Estou fazendo essa viagem para saber justamente o que aconteceu com a Bósnia e Herzegovina e tentar compreender como vivem lado a lado vítimas e algozes. Quem tem menos de 30 anos e não mora nos Bálcãs parece não saber que houve uma guerra na Europa antes da que é agora travada na Ucrânia. Quando disse que iria para a Bósnia, as perguntas dos mais velhos eram invariavelmente as mesmas: “Eles continuam a se matar? Foi em Sarajevo que assassinaram o arquiduque austríaco e começou a Primeira Guerra Mundial. Eles se matam há séculos.”

Refik Hodžić reage a esse comentário. “É uma visão colonialista. As pessoas acham que vamos para a cama afiando as facas para matar o vizinho no dia seguinte”, diz. “Esse diálogo entre as pessoas que está acontecendo aqui, no dia a dia, não acontece entre os católicos e protestantes na Irlanda do Norte, que até hoje vivem segregados, ou no Chipre, onde há um muro que divide turcos e gregos. Mas, quando são os bósnios, há essa narrativa de que nascemos querendo nos matar uns aos outros, como se fosse algo que herdamos. Um dos meus melhores amigos é um policial sérvio que foi soldado durante a guerra. A solução é tempo e diálogo.”

O ativista Edin Ramulić acredita que há duas realidades paralelas: “Uma é a criada pelos políticos e pelos líderes religiosos, que querem perpetuar essa atmosfera de medo, divisão e ódio. A outra é a das pessoas comuns, no seu dia a dia, em que há muito diálogo. No meu círculo de amigos há pelo menos quatro casamentos entre sérvio-bósnios e bosníacos. Isso costumava ser celebrado na história da Bósnia e está acontecendo agora, apesar de tudo.” Ele conta que nas duas últimas décadas trabalhou com vítimas de estupro, antigos presos dos campos, famílias das vítimas. “Elas querem os seus direitos assegurados e justiça criminal. O único sentido para mim hoje é trabalhar com os mais jovens. Os poucos que querem entender o que se passou são muito interessados e comprometidos. Eles são o nosso futuro.”

A professora de literatura Šeherzada Džafić tem olhos de esmeralda e cabelos cor de ébano. Na mesinha à sua frente, está uma pilha de livros de autores tão variados como Jorge Luis Borges, Marcel Proust, Aristóteles e Umberto Eco. Ao seu lado, onze jovens de várias partes da Sérvia (o país) e da Bósnia. A conversa com a professora é a última atividade do grupo que participa de um programa da ONG Kvart, palavra que significa “bairro” ou “vizinhança” na língua bósnia. A ONG foi criada por Goran Zorić, um jovem sérvio-bósnio, e reúne ativistas sérvios e bosníacos, entre eles Ramulić. Durante uma semana, numa espécie de colônia de férias de verão, os jovens vivem juntos em uma casa em Kozarac – cidade onde a população muçulmana foi praticamente dizimada – para ouvir as histórias de sobreviventes que seus pais, a escola ou o governo não contam.

“A verdade é que os jovens não sabem o que esperar. Imediatamente conhecem outros jovens de outras religiões e aprendem mais sobre outras culturas”, diz Isidora Ećim, que nasceu em 1995, dez dias antes dos Acordos de Paz de Dayton, e trabalha há cinco na Kvart. “Quando chegam a um antigo campo de concentração que nem sabiam que existia, eles entram em choque. Nunca ninguém lhes disse nada. No centro de grandes cidades da República Srpska não existe nenhum monumento homenageando vítimas não sérvias.” Quando Ećim começou a trabalhar na Kvart, o número de participantes bósnios de origem muçulmana era maior do que o de sérvios. De dois anos para cá, isso se inverteu. “Eles ouvem dos próprios sobreviventes, como a juíza Nusreta Sivac, as coisas horríveis e inimagináveis que sofreram, e vão aos locais dos massacres. Não dá para sair daqui e continuar acreditando que não houve genocídio.”

Uma das jovens na sala durante a fala da professora Šeherzada Džafić parece estar alheia ao que se passa: não tira os olhos do celular. Ećim e a também coordenadora Melani Isović me explicam que ela vem da parte Leste da Bósnia, a região mais radical e conservadora da República Srpska. “Não são apenas conservadores, são extremistas”, enfatiza Isović. O pai da jovem fez parte de uma das unidades do Exército sérvio-bósnio que cercou Srebrenica. “Ele louva Ratko Mladić”, diz ela, referindo-se ao general sérvio-bósnio que coordenou o genocídio de 8 mil pessoas. “Veio uma equipe de um programa de tevê de um artista muito crítico ao governo sérvio gravar com esse grupo. Ela se recusou a participar com medo de que o pai a visse. É a segunda vez que a jovem participa de uma atividade da Kvart. Ela não é uma ativista, mas quer compreender o que se passou.” A realidade é que hoje, na Bósnia, muitos jovens ficam sabendo dos crimes de guerra dos pais através das redes sociais.

A própria Isidora Ećim, sérvia-bósnia, cresceu sem saber de nada. A guerra nunca foi assunto na sua casa. Ela explica que na escola não se aprende sobre o que aconteceu entre 1992 e 1995. “Eu tinha apenas seis colegas muçulmanos. Nós estudávamos, saíamos juntos, mas mesmo entre nós nunca falávamos sobre a guerra.” Quando começou a trabalhar na Kvart, ela confrontou o pai sobre o massacre de 102 crianças, quase todas bosníacas, executadas por sérvios, em Prijedor. “O meu pai foi soldado, mas não lutou aqui e ficou inválido. Meio relutante, ele me disse que as crianças tinham sido mortas por muçulmanos”, ela conta, com um riso nervoso. “Aí, minha mãe mandou que ele se calasse, dizendo que meu pai não sabia de nada e que eu era mais bem informada do que ele.”

“Eu estava debaixo do chuveiro, quando perdoei meu professor”, diz o escritor e ativista Kemal Pervanić, de 57 anos, com sua voz pausada e tranquila. Isso foi em 2008, dezesseis anos depois de ele ter sido preso com um dos irmãos no campo de concentração de Omarska. Moradores locais eram recrutados para serem os guardas. Em geral, eram vizinhos sérvio-bósnios, que tinham crescido, estudado e trabalhado com os bosníacos. Um dos interrogadores de Pervanić foi seu ex-­professor. “Ele era mais do que o meu professor favorito, era um intelectual, e estava lá me interrogando, junto com outro guarda, fazia as perguntas e anotações. Eu sabia que, se dissesse algo ‘errado’, seria morto. Ele estava decidindo quem ia morrer. Era uma tortura psicológica. O professor também assistiu à minha tortura física. Eu o considero um torturador.”

Pervanić, que hoje vive entre a Inglaterra, a Polônia e a Bósnia, passou muito tempo se perguntando como o seu professor predileto tinha sido capaz de tamanha brutalidade. “Quando você passa por uma violência dessas, você se sente muito ferido: violaram todos os seus direitos, tentaram tirar toda a sua humanidade, me demonizaram. Eu sonhava que matava os meus torturadores. Fiquei um ano e meio sem conseguir chorar.” Em Cambridge, na Inglaterra, para onde foi levado como refugiado, ele foi tratado por uma psiquiatra. “Comecei a estudar e a fazer outros tipos de perguntas: ‘Por que as pessoas seguem políticos que as estão levando para a morte? Por que eu tive que passar por tudo que passei, como se eu fosse culpado pelas mortes dos sérvios durante a Segunda Guerra Mundial, quando eu nem era nascido?”

Dez anos depois de ter saído do campo de concentração, Pervanić encontrou-se com o antigo professor. “Ele ficou surpreso e constrangido com algumas das minhas perguntas. Estava com raiva, incomodado com os crimes que tinha cometido. Deu a justificativa usual de criminosos de guerra: ‘Se eu não fizesse primeiro, eles fariam contra mim.’” O professor também lhe garantiu que tinha salvado quinhentas pessoas, mas não conseguiu dizer um só nome. Por fim, pediu desculpas, dizendo que os dois precisavam se reconciliar. “Não consegui desculpá-lo, respondi apenas que tínhamos que garantir que algo assim nunca mais aconteceria. Ele concordou. Senti que não estava diante de uma pessoa má, mas, sim, de uma pessoa normal, e que as pessoas normais podem cometer atos horríveis, qualquer um de nós. Não sei o que eu faria se estivesse na posição dele. Nós achamos que não cometeríamos esses atos, mas não dá para saber. Este entendimento é importante.”

Foi em 2008, depois da morte de seu pai e do professor, quando vivia uma crise no seu casamento, que Pervanić disse a si mesmo que não tinha mais tempo a perder, que precisava deixar aquilo tudo para trás. “Eu estava tomando banho, e ali, no chuveiro, saiu da minha boca: ‘Eu te perdoo.’ Ele voltou a ser o professor que eu adorava antes da guerra. Isso não significa que o que aconteceu será esquecido, mas isso me fez retomar o controle da minha própria vida – o torturador já não me controlava mais. O importante não é a vítima dizer pa­ra o algoz que o perdoa, mas dizer para si mesma, porque o maior perigo está dentro da nossa cabeça.”

Em 2009, Pervanić criou a organização Most Mira (Ponte da Paz), que trabalha pela reconciliação recorrendo a atividades artísticas. O projeto começou com casos reais de crianças em outros conflitos, como Palestina e Ruanda, para evitar o desconforto de meninos e meninas ouvirem a história dos próprios pais. “Usamos também o método criado pelo brasileiro Augusto Boal, com o Teatro do Oprimido.” Há alguns anos, um jovem sérvio-bósnio foi assistir a uma das palestras de Pervanić. Era o filho mais novo do seu professor. “Ele só sabia que o pai tinha sido policial durante a guerra. A família não conversava sobre esse assunto em casa.”

Quando Pervanić publicou um artigo que mencionava o nome do seu professor, o rapaz entrou em pânico. “Depois de um tempo, ele veio conversar comigo. Eu falei que tinha empatia por ele, porque afinal o meu professor era seu pai. Disse também que ele podia fazer as perguntas que quisesse. O fato de eu e o filho do meu professor termos virado amigos significa que consegui ultrapassar o meu trauma. Hoje, ele é um importante ativista.” O filho do professor é Goran Zorić, o fundador da ONG Kvart.

 

Avançamos em direção ao Parque Nacional Kozara, a meia hora de Prijedor. Quanto mais nos distanciamos da cidade, mais somos envolvidos pela floresta e por uma das mais belas paisagens da Bósnia, que é conhecida por suas montanhas, rios e cascatas. Meu guia, Refik Hodžić, não está me levando até o alto da montanha para eu admirar a beleza de seu país. A 800 metros de altitude, uma estrutura de concreto em espiral parece rasgar a vegetação.

Nessa região, em 1942, os partisans – como eram conhecidos os combatentes comunistas liderados por Josip Tito – travaram uma das batalhas mais sangrentas da Segunda Guerra Mundial contra os nazistas, que tinham o apoio dos ultranacionalistas da Croácia, os ustaše, e dos ultranacionalistas sérvios, os chetniks. “Você tem de entender que é a partir da Batalha de Kozara que os sérvio-bósnios e os líderes sérvios constroem um discurso para justificar os massacres dos anos 1990. Eles alegam que os sérvios foram massacrados por croatas e bosníacos durante a Segunda Guerra Mundial e têm de atacar, antes que sejam massacrados de novo”, explica Hodžić, mostrando as paredes de concreto onde estão gravados os nomes de quase 10 mil partisans mortos na Segunda Guerra.

Durante a ofensiva nazista, milhares de civis se esconderam nessa floresta. Os soldados alemães, apoiados pelos nacionalistas locais, cercaram os combatentes comunistas. Entre 25 e 60 mil pessoas morreram ou foram enviadas para o campo de concentração na Croácia. “A maioria dos mortos, além de judeus e ciganos, era formada por sérvios, perseguidos pelo governo ultranacionalista da Croácia da época”, diz Hodžić. “Mas dizer que todos os bosníacos e croatas estavam lutando ao lado dos nazistas contra os sérvios é uma mentira.”

Na extensa lista de mortos há nomes de todas as etnias. “Essa batalha não foi dos sérvios contra croatas ou bosníacos. Eram combatentes comunistas e socialistas lutando juntos contra o fascismo. Quando eu era criança, os meus heróis não eram o Super-­Homem e o Homem-Aranha, mas os partisans que travaram essa batalha épica de Kozara”, lembra Hodžić.

Ele aponta para a imensa cruz que foi construída pelas autoridades da República Srpska na entrada do monumento. “Como podem colocar uma cruz simbolizando a Igreja Ortodoxa, se os partisans eram socialistas, comunistas e, portanto, ateus? Eles querem se apropriar da batalha como se fosse um ato heroico sérvio para criar esse discurso de ódio e justificar o que fizeram nos anos 1990. São os mesmos que negam que houve um genocídio em Prijedor em 1992 ou em Srebrenica em 1995. Mas vamos agora ver o museu, onde a doutrinação é ainda pior.”

Seguimos para o museu. A exposição não é grande: uma sucessão de imagens de crianças sérvias mortas durante a Segunda Guerra, heróis sérvios e frases escritas em vermelho. Hodžić faz, em silêncio, um gesto na direção da foto de um comandante nazista ao lado de um ultranacionalista croata. Quando saímos da exposição, ele me mostra na internet a imagem original, em que se vê três homens: o terceiro é um comandante dos nacionalistas sérvios. O museu o recortou da foto para esconder que sérvios participaram do massacre contra os próprios sérvios. “Este revisionismo é extremamente perigoso. Se um jovem sérvio visita esse museu vai odiar bósnios muçulmanos e croatas para sempre, pois todo o discurso é ‘os sérvios contra os vizinhos do mal’.”

 

Os moradores de Prijedor ainda se lembram do calor infernal do verão de 1992. Na manhã do dia 25 de julho, sábado, na aldeia de Rasavci, dois antigos colegas de escola, um comandante de brigada e um chefe de polícia sérvio-bósnios, alinharam os voluntários civis que participavam da ofensiva, bem como reservistas entre 17 e 67 anos e deram as ordens: ir ao vilarejo de Zecovi, a 8 km dali, em busca de armas e para completar a “limpeza”.

Os homens de Zecovi já tinham sido levados para o campo de concentração de Keraterm. Restavam as mulheres e as crianças. Os sérvio-bósnios da aldeia de Rasavci conheciam os vizinhos bosníacos de Zecovi: tinham jogado futebol e pescado juntos quando crianças, frequentado a mesma escola, os mesmos cafés, os mesmos trabalhos. O comando subiu a colina e matou quem encontrou pelo caminho.

A 500 metros dali Zijad Bačić, de 14 anos, engolia um pedaço de pão que a mãe acabara de lhe dar. Ela o instruiu a comer devagar e, com o olhar, fez sinal para que ele nem pensasse em pegar o pedaço de pão dos primos Nermin e Nermina. Foi quando ouviram os tiros e os palavrões: “Saiam de casa, seus filhos da puta.” As crianças gritaram. Zijad abraçou a irmã que tremia. Um dos soldados arrebentou a porta: “Saiam, saiam, o que estão esperando?” O homem cheirava a álcool.

Catorze mulheres e quinze crianças saíram de casa. Zijad atrasou-se, procurando um dos sapatos, mas reconheceu algumas vozes e conseguiu ver algumas silhuetas. Estava chegando à varanda para se juntar à família, quando ouviu o som ensurdecedor das metralhadoras. Ele correu em disparada pelos fundos da casa e se escondeu no mato. Depois de metralharem todas as 29 mulheres e crianças, a mais nova de apenas 2 anos, o grupo saiu atirando em quem ainda se mexia.

Zijad ficou escondido durante horas, petrificado, enquanto via a casa de seu tio Fikret Bačić arder em chamas. Quando finalmente se levantou, foi em busca de ajuda na casa de um amigo da escola. O pai e o filho sérvios o esconderam e o ajudaram a fugir. Zijad conseguiu chegar à Travnik, no centro da Bósnia.

Naquele dia 25 de julho, 150 pessoas foram executadas em Zecovi. Meses depois, os sérvios que ajudaram Zi­jad foram assassinados por um bando de homens mascarados. Fikret Bačić, o tio de Zijad, pai de Nermin e Nermina, estava na Alemanha, trabalhando a fim de conseguir recursos para terminar a construção da nova casa da família em Zecovi, quando teve notícias do massacre. Ele viajou nove vezes para Zagreb, na Croácia, onde milhares de bósnios buscavam refúgio, para tentar encontrar os parentes, até que localizou Zijad e soube da morte de sua mãe, sua mulher e seus filhos.

As estradas estreitas de cascalho que levam à Zecovi nos confundem, apesar de Hodžić já ter estado na aldeia algumas vezes e conhecer a família Bačić há mais de vinte anos, desde a época em que trabalhava como jornalista e dirigia documentários. Quando finalmente chegamos, um homem grisalho de uns 60 anos nos aguarda no quintal. Veste bermuda jeans, camiseta branca e Crocs pretos. É Fikret Bačić, que nos faz sinal para estacionar o carro à sombra e depois nos convida para sentar à mesa no alpendre. Pergunta se queremos café, pega uma garrafa de cerveja, que vai bebendo ao longo da conversa. Seus modos são calmos, contidos.

“Acompanhei todas as audiências do julgamento dos onze acusados durante dez anos”, conta Fikret. “Eu disse ao promotor: ‘Não me importa se eles serão condenados nem quantos anos ficarão na prisão. Só quero que digam onde está a vala comum em que foram enterrados meus filhos, minha mulher, minha mãe, minha família.” Cinco dos acusados foram condenados com penas entre 5 e 20 anos de prisão. Seis foram absolvidos. Os promotores apelaram da sentença, mas o Tribunal da Bósnia confirmou o veredito, alegando não haver provas suficientes. Um dos argumentos usados foi que Zijad, o sobrinho de Fikret, não vira a bala saindo do cano da arma de um dos acusados.

Durante o julgamento, na sala de espera antes de começar a audiência, Fikret tinha de se sentar lado a lado com os homens que mataram a sua família. “Eles viravam a cara quando eu os encarava. Havia alguns no grupo que eu sabia que não tinham participado do massacre, e esses eu cumprimentava. Alguns vinham até a minha casa ou a minha loja pedir que os ajudasse e dissesse que não eram culpados. Eu dizia que não podia ajudá-los, mas que, se fossem ao promotor revelar onde os corpos estão enterrados, o juiz levaria isso em conta. Mas eles nunca foram.” A cada vez que Hodžić traduz para o inglês uma de suas respostas às minhas perguntas, Fikret toma um gole da cerveja, baixa o olhar ou mira o vazio. Os seus olhos, de um azul límpido, são difíceis de decifrar.

O que mais revolta Fikret é o silêncio dos vizinhos sérvio-bósnios que sabem onde os corpos foram enterrados. A maioria tem medo de falar e ser acusada do crime ou sofrer represálias das autoridades da República Srpska. “Há uns dois anos, durante o julgamento, um sérvio que eu tinha ajudado antes da guerra começou a aparecer aqui em casa depois de uma da manhã. Eu achava estranho. Até que, uma vez, ele disse que tinha algo para me contar e que eu fosse à casa dele às duas da tarde do dia seguinte. Liguei para o promotor, que me aconselhou a não ir, podia ser uma armadilha: eles me filmariam, e o meu depoimento seria desconsiderado no tribunal. Não fui.” Oito dias depois, o homem apareceu morto. O crime nunca foi esclarecido. Fikret se sente traído pelo Estado bósnio. “Eles nunca utilizaram a verba que têm para investigar e perguntar a essas pessoas onde foram enterrados os corpos. Fomos nós que oferecemos uma recompensa para quem desse informações, o que levou à descoberta de Tomašica.” A vala comum de Tomašica, descoberta em 2013, a 15 minutos de carro de Prijedor, é a maior encontrada na Europa desde a Segunda Guerra.

Fikret voltou a se casar e tem dois filhos gêmeos de 26 anos. “Não criei meus filhos para ter ódio, eles não merecem esse peso.” Uma de suas grandes batalhas hoje é a construção de um monumento em homenagem às 102 crianças de todas as etnias assassinadas em 1992. Há vinte anos, ele e ativistas bosníacos, sérvio-bósnios e croata-bósnios ocupam a praça principal de Prijedor no dia 31 de maio, com braçadeiras brancas, como os bosníacos e croatas foram obrigados a usar durante a guerra, e fazem um círculo de 102 flores em homenagem às crianças assassinadas. “Os soldados sérvios têm dezesseis monumentos na cidade e nós não podemos fazer um para as crianças assassinadas. Estou aqui por orgulho, para que os que cometeram esses crimes se sintam desconfortáveis, porque eles têm de me ver todos os dias, não podendo ignorar que existe alguém que sabe o que fizeram. É isso o que me faz ficar.”

Despedimo-nos e seguimos o carro de Đjulejman Bačić, irmão de Fikret, por um terreno montanhoso até o local do massacre, a uns 2 km dali. A família construiu um memorial em homenagem aos parentes executados. Um homem mais jovem sai da casa ao lado, aproxima-se, abraça alegremente Hodžić, que se surpreende ao encontrá-lo ali. Abre um sorriso generoso quando somos apresentados. É Zijad Bačić, o menino que sobreviveu ao massacre. Ficamos os quatro parados em volta do livro de mármore com os nomes das catorze mulheres e quinze crianças assassinadas. “Eles podiam ter queimado, destruído tudo, mas para que matar crianças? Nunca vou entender”, diz Đjulejman, que teve dois filhos também executados. Na nossa frente, um rebanho de ovelhas se abriga do Sol à sombra das árvores. Ouve-­se o som dos passarinhos.

 

No centro da Bósnia e Herzegovina, na mesma estrada que milhares de refugiados foram forçados a percorrer em 1992, os acordes da canção Grbavica levam Refik Hodžić a soltar ligeiramente uma das mãos do volante. Durante a guerra, o Estádio Grbavica ficava na linha de frente, na área controlada pelos sérvios, e foi praticamente destruído durante o conflito. Do outro lado do rio, os moradores que sofriam com o cerco a Sarajevo conseguiam ver o estádio ao longe.

“Meu filho já comprou os nossos ingressos para o jogo do Željo, na arquibancada da ala Sul, onde ficam os torcedores mais fiéis”, avisa Hodžić, eufórico. Željo é a abreviação do clube de futebol FK Željezničar de Sarajevo, cujos torcedores podem ser comparados aos da Geral do Grêmio, de tanto que vibram e sofrem pelo time. “Você vai me ver enlouquecer, cantar como se fosse o último momento da minha vida. Não serei só eu, serão quase 12 mil pessoas em todo o estádio”, garante.

Grbavica continua a soar no carro, enquanto Hodžić desvia dos automóveis que saem de um dos shoppings mais movimentados do país, em Vitez, no caminho para Sarajevo. “Eu fico sem ar quando ouço esta música”, ele confessa, e traduz para o inglês a letra, que diz: “Vejo você ao longe, do outro lado do rio, não sei quando, mas vou voltar. Vou dar a minha vida, mas não vou desistir porque você é a minha vida. Lutarei por você até a morte.” Hodžić comenta: “Você tem que entender que é muito mais do que uma canção sobre um time de futebol ou um estádio. Fala de voltar para casa, é uma canção de refugiado. É uma sensação horrível ser um refugiado.” E ali, na estrada entre Prijedor e Sarajevo, mais de trinta anos depois de ter saído de seu país, Hodžić começou a chorar.

“Voltei para a Bósnia duas semanas depois dos Acordos de Paz de Dayton, em dezembro de 1995. Foi um dos períodos mais poderosos da minha vida. Você promete que vai voltar para a sua casa não importa como, e a vida passa a ter um propósito fortíssimo”, conta ele. “Não podíamos ir para a minha cidade, que ainda estava sendo governada por responsáveis pela limpeza étnica. Trouxe a minha mulher e a minha filha Azra, que ainda não tinha 2 anos. Vivíamos em condições precárias em Sanski Most, perto de Prijedor, onde nasci. Ainda havia casas ardendo. Ninguém entendia por que eu tinha deixado a Nova Zelândia, onde estava morando desde 1991, e decidira voltar. Eu sonhava ser jornalista esportivo, mas em 1996 só havia dois grandes temas: os desaparecidos e assegurar que os criminosos de guerra fossem julgados. E foi esse caminho que eu segui.”

Em maio de 1991, aos 18 anos, Hodžić e a mãe foram para a Nova Zelândia, onde o pai estava trabalhando. Um mês depois, a guerra começou na Croácia. Três meses depois, o jovem recebeu o telefonema de um tio, avisando que havia sido convocado para servir o Exército da Iugoslávia, controlado pelos sérvios. O pai não o deixou voltar. Em abril de 1992, quando a guerra na Bósnia começou, as notícias da limpeza étnica não chegaram logo à Nova Zelândia. “Lembro de ficarmos ao lado do telefone à espera de alguma novidade. Quando começaram a chegar histórias de desaparecimentos e execuções, tínhamos dificuldade em acreditar. Não era possível que houvesse um campo de concentração na Bósnia, em plena Europa, depois da Segunda Guerra Mundial. Não era possível que vizinhos que viveram a vida juntos estivessem se matando”, conta. “Lembro de telefonar para um dos meus melhores amigos, que era de origem sérvia, e a mãe dele me responder friamente. Ela chegou a me dizer que um amigo nosso, muçulmano, estava preso em um campo de concentração e que ele merecia isso, porque era um mujahid, um combatente do Islã. Aquilo não fazia qualquer sentido. Ninguém era religioso. Fiquei perplexo com as palavras dela.”

A família vendeu tudo o que tinha na Nova Zelândia para levar para o país quase trinta parentes que haviam escapado de Prijedor, inclusive a namorada de Hodžić, que se tornaria a sua primeira mulher e a mãe de seus dois filhos mais velhos. “Não tenho medo de nada desde que eu veja as luzes de Sarajevo”, diz a letra de outra canção que ouvimos no rádio quando nos aproximamos da capital da Bósnia e Herzegovina.

 

“Sarajevo está cada dia mais saudável”, afirma Tarik, de 25 anos, filho de Hodžić, ao me guiar pelas ruas vibrantes de Baščaršija, o Centro histórico de Sarajevo, lotado de turistas. A capital da Bósnia é conhecida como a Jerusalém da Europa. Caminho de uma mesquita até uma sinagoga em poucos minutos. Alguns metros à frente há uma igreja católica e mais adiante uma cristã ortodoxa, confirmando o caráter tolerante e cosmopolita da cidade. Se há um lugar onde as religiões, as culturas e os impérios se cruzam é aqui. A arquitetura de Sarajevo é uma viagem do Império Otomano ao Império Austro-Húngaro, até que se avistam os prédios da época da Iugoslávia socialista de Josip Tito. O Rio Miljacka separa o Norte e o Sul da cidade, unidos por várias pontes. Em junho de 1914, depois de atravessar uma delas, a Ponte Latina, o arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do trono do Império Austro-Húngaro, foi assassinado junto com a mulher. Sua morte foi o estopim para a Primeira Guerra Mundial.

Tarik Hodžić nasceu na Nova Zelândia e trabalhava em Auckland, quando resolveu voltar à Bósnia, fazendo o caminho inverso de muitos jovens, que desejam deixar o país. A Bósnia está entre os dez países mais pobres da Europa, com mais de 30% dos jovens desempregados. É também uma das nações mais corruptas da Europa Central, segundo a Transparência Internacional: ocupa a 114ª posição em um ranking com 180 países de todo o mundo (o Brasil ocupa o 107º posto). “Minha irmã também voltou para cá. É aqui que me sinto em casa”, diz o jovem formado em ciências políticas, relações internacionais e criminologia, que já trabalhou na ONU, na Universidade de Auckland e para o governo da Nova Zelândia. “Aqui há interações muito humanas que talvez ainda existam no Brasil.”

Chegamos ao apartamento de Tarik para assistir à partida entre Fluminense e Chelsea, pela semifinal da Copa do Mundo de Clubes da Fifa. Na sala, as conversas sobre política entre pai e filho, regadas a cerveja, são tão apaixonadas quanto as relacionadas ao futebol. O nacionalismo, tanto dos sérvio-bósnios como dos bosníacos e croata-­bósnios, voltou a se exacerbar nos últimos anos. “Os Acordos de Dayton podem ter acabado com a matança, mas a divisão geográfica do país entre três etnias e o sistema político criado são um desastre”, diz o jovem. “A corrupção é gigantesca. A política em todos os níveis é corrosiva e tóxica. Toda vez que debato com meus amigos como mudar o país, eles concordam comigo, mas, na hora de agir, ninguém quer. Dizem que a mudança é impossível”, lamenta Tarik. “Estou decepcionado, confuso, com raiva, sem saber o que posso fazer. Não quero sucumbir ao status quo e desistir, mas o poder está sempre nas mãos das mesmas pessoas.”

Se há algo em comum entre a nova geração e a que lutou na guerra dos anos 1990 é o sentimento de traição em relação aos políticos do país. Encontramos Edin Zubčević, escritor, editor e fundador do Jazz Fest Sarajevo, no café embaixo do prédio onde fica a sua editora de livros, a Nomad. Na livraria do outro lado da rua, está à venda o livro que Zubčević acaba de lançar: uma autobiografia, com histórias da época em que ele foi soldado e defendeu a capital durante o cerco a Sarajevo.

Aos 55 anos, o ex-professor de sociologia e filosofia é também uma das vozes mais críticas à classe política de seu país. “Quando vi um tanque parado na porta da minha casa com aquele canhão apontado para prédios onde moravam civis, eu peguei uma arma e fui lutar para defender Sarajevo”, conta Zubčević. “Não lutei por religião, pelo Islã, não ligo a mínima para isso, nem pelo partido. Eu, meus amigos e camaradas lutamos pela república, que era a nossa única chance de futuro, e fomos traídos pelos nossos próprios representantes.”

Para ele, ao fim da guerra, os bósnios assinaram o pior acordo possível. “Perdemos a república. Os sérvio-­bósnios, que haviam cometido um genocídio, ficaram com a República Srpska, e nós com a Federação da Bósnia e Herzegovina. O que é a Bósnia hoje? Nós não somos uma federação, não somos uma república, não somos nada”, diz Zubčević. “Eu lutei por uma república para todos. Não pensávamos em separação de etnias, sempre fomos multiétnicos. A nossa identidade era bósnia, independente de sermos muçulmanos, sérvios ou croatas. Nunca me apresentei como muçulmano. Hoje falo que sou bósnio, e as pessoas estranham, porque querem que eu me apresente como bósnio de origem muçulmana. Essa separação de etnias foi o resultado dos Acordos de Paz de Dayton, que representou a derrota final. E quem nos derrotou não foram os sérvio-bósnios. Foi Alija Izet­be­gović, o nosso representante.” Izetbe­gović (1925-2003) foi um dos signatários dos Acordos de Dayton e integrante do primeiro triunvirato presidencial da Bósnia e Herzegovina.

Zubčević diz que foi tão difícil aceitar a guerra quanto se adaptar à paz. “Um dia, cerca de oito meses depois do fim dos combates, estava escutando um CD do John Zorn e o seu quarteto de jazz judeu e de repente comecei a correr como se tivesse me libertado. O jazz me fez sentir que eu estava livre de novo”, recorda. “Não lutamos contra Gandhi. Das montanhas, eles atiravam em crianças quando elas iam colher maçãs. A música me fez recuperar a sanidade que eu perdi durante o cerco a Sarajevo.” A partir desse dia, ele decidiu dedicar sua vida à música e abriu um bar de jazz. Em 1997, lançou o Jazz Fest Sarajevo. “Cheguei a trazer o John Zorn e o seu quarteto para tocarem numa das edições. O jazz é a expressão da liberdade.”

Na entrada da Prefeitura de Sarajevo, leio a placa escrita em inglês: “Nesse lugar, criminosos sérvios queimaram a biblioteca nacional, e 2 milhões de livros, jornais e documentos desapareceram nas chamas.” Hodžić – que se identifica como bósnio e se recusa a ser rotulado como bosníaco ou qualquer outra classificação –, seu filho e eu entramos no edifício mais impressionante de Sarajevo. Construído no século XIX, durante o Império Austro-­Húngaro, em estilo neomourisco, o edifício levou 22 anos para ser reconstruído depois da guerra dos anos 1990. Hoje, é o símbolo da resiliência e resistência de uma cidade multicultural e multiétnica, apesar de a população sérvia ter diminuído, e a maioria dos habitantes serem muçulmanos.

Hodžić conta que, no fim do conflito, em 1995, as autoridades sérvio-­bósnias pressionaram os 120 mil sérvios que viviam aqui para que partissem, dizendo que os bosníacos iriam se vingar. Hoje, apesar do discurso de ódio dos políticos, todos os dias uns 10 mil sérvio-bósnios saem de suas casas na parte Leste de Sarajevo, que faz parte da República Srpska, para virem trabalhar nessa parte da cidade, na Federação da Bósnia e Herzegovina, onde a maioria dos habitantes é muçulmana. Isso não acontecia há quinze anos. É um fenômeno que tem a ver com o boom econômico de Sarajevo. Os bosníacos, por sua vez, agora estão comprando apartamentos na parte Leste, onde vivem os sérvios, porque é mais barato e está a apenas vinte minutos do Centro da cidade. “A dinâmica econômica cria a integração que os políticos querem fazer acreditar que é impossível. Parece a água, que sempre encontra um caminho: você não pode deter o curso dela”, diz Hodžić. “Mas os políticos tentam o tempo todo nos desencorajar a ter essas interações”, acrescenta Tarik. E Hodžić prossegue: “É preciso entender que o nacionalismo e essa política de divisão são uma arma dos políticos para desviar a atenção de seus esquemas monstruosos de corrupção. Eles usam as empresas estatais e os órgãos do governo em troca de favores e votos. As eleições têm pouquíssima participação. E a maioria dos que costumam votar é formada por pessoas que estão nas mãos desses políticos ou que acreditam nesse discurso de ódio.”

Nas ruas e calçadas, procuro algumas das duzentas rosas de Sarajevo – como são chamados os locais onde morteiros caíram durante a guerra, espécie de cicatrizes de concreto espalhadas pela capital. Os estilhaços criaram um padrão parecido ao da flor, e foram pintados de resina vermelha, como se fosse sangue. Na saída do mercado, onde um ataque matou 67 pessoas, um cortejo atrai a atenção de quem passa pela Rua Marechal Tito. São milhares de motociclistas de diferentes etnias, regiões e países, vestindo camisetas brancas com um número e uma frase às costas: “8 372, não esqueçam Srebrenica.”

A caravana se dirige para a cidade de Srebrenica, na véspera da cerimônia que marcará os trinta anos da execução de 8 372 homens e meninos bosníacos pelos sérvio-bósnios. Seguimos em direção ao Sniper Alley, como é conhecido o entroncamento de duas avenidas onde pedestres eram mortos por franco-atiradores sérvio-bósnios, entrincheirados nas montanhas que cercam a cidade. (A Itália investiga atualmente alegações de que turistas italianos pagaram para participar de “safáris de atiradores” no Sniper Alley durante a guerra, a fim de matar civis indefesos, inclusive crianças.)

Um centro comercial ocupa agora uma das esquinas, quase ao lado do Parlamento. Chegamos ao Museu Nacional da Bósnia e Herzegovina, que abriga a Hagadá de Sarajevo, um precioso pergaminho medieval do judaísmo. Atrás do museu, uma escultura traduz o senso de humor bósnio sobre o modo como foram tratados pela comunidade internacional: a réplica gigante de uma lata de ração militar com validade vencida, como as que foram jogadas pelos americanos para aliviar a fome dos moradores da cidade durante o cerco de Sarajevo.

De volta ao carro, Hodžić, coloca mais uma canção do gênero sevdah. “Božo Vrećo é um cantor sérvio-bósnio que se transformou num guardião da música bósnia mais tradicional”, explica. “A voz dele parece divina, celestial. Ele é de Foča, cidade conhecida pelos estupros em massa de muçulmanas cometidos pelos sérvios. No início, se identificava como gay, hoje diz que é transgênero, mas transcende qualquer gênero. Para mim, Vrećo capta a Bósnia de hoje, a sua beleza, contradição, loucura e tudo o mais. A única coisa que une nacionalistas de todas as etnias é o ódio à comunidade LGBT, e Vrećo, um superastro, parece querer dizer: ‘Se eu posso ser quem sou, tudo pode acontecer.’”

O ator, escritor, ativista, piloto e paraquedista Feđa Štukan, de 51 anos, é também a personificação de que tudo pode acontecer na Bósnia e Herzegovina. Ele atuou em produções internacionais como Na terra de amor e ódio (2011), filme dirigido pela atriz Angelina Jolie, e Um dia perfeito (2015), estrelado por Benicio Del Toro. Foi Brad Pitt, então marido de Jolie, quem sugeriu que Štukan escrevesse a própria biografia. Blank (Em branco) já vendeu 73 mil cópias desde que foi lançada, virou peça de teatro e ganhou traduções para o inglês, francês, italiano e alemão. “É um fenômeno cultural”, avisa Hodžić, ao me apresentar ao ator, na casa de amigos comuns dos dois.

Blank tem um ritmo alucinante, como numa torrente. Štukan escreve sobre quando foi soldado nas forças especiais do Exército bósnio e fingiu (convencendo todos) que estava insano, indo parar num manicômio, onde foi tratado como se fosse louco ainda durante a guerra. Em tempos de paz, tornou-se dependente de heroína, sem-teto na Alemanha e depois alcoo­lista. Acabou estudando artes cênicas em Sarajevo e transformou-se em um dos atores mais conhecidos e populares dos Bálcãs. No livro, Štukan protesta contra os políticos bósnios, assim como condena o autoritarismo do atual governo da vizinha Sérvia.

“Estou proibido de entrar na Sérvia. No início do ano me barraram no aeroporto de Belgrado, quando eu estava chegando para participar de um festival literário”, diz ele, pausadamente, durante o jantar, em que bebe apenas água. “Consideram que sou uma ameaça à segurança nacional. Tudo começou com o livro. Como o governo de lá controla toda a imprensa, os tabloides me acusam de ser terrorista. Quanto mais me perseguem, mais livros eu vendo.” Filho de mãe sérvio-bósnia e de pai bosníaco, Štukan atribui o sucesso do livro, que levou nove anos para escrever, à sua honestidade, que não poupa nacionalistas sérvios, nem croatas nem bosníacos. “Sou excepcionalmente honesto, o que não é muito comum. Falo tão mal de mim e do que me aconteceu que é como se me desse credibilidade para falar de todo o resto. Escrevi sem tentar me proteger.”

Em uma pizzaria perto do Rio Miljacka, encontro a poeta Ferida Duraković, de 68 anos, uma das mais prestigiadas do país, autora de mais de 25 livros e traduzida em trinta idiomas. Ela também sobreviveu ao cerco a Sarajevo. “Eu me considerava uma jovem intelectual europeia, uma poeta, uma pessoa bem-educada, uma muçulmana, me sentia ofendida quando era tratada como se fosse de uma tribo selvagem cercada de arame farpado para que nós nos matássemos uns aos outros”, diz Duraković. “Em 1992, de repente, o mundo descobriu que havia muçulmanos brancos, como nós, no coração da Europa. Lembro de uma ex-assessora de Bill Clinton contar que, durante a campanha pa­ra presidente, ele um dia perguntou se alguém sabia algo sobre os bosníacos. Ninguém sabia.”

Nos anos de guerra, Duraković era diretora do Pen Clube e chegou a sair de Sarajevo duas vezes durante o cerco à capital, escoltada pela ONU. A primeira saída foi traumática. “Lembro que, quando me levaram para jantar num restaurante, fiquei com raiva ao ver que as pessoas deixavam comida no prato. Nós não tínhamos o que comer durante o cerco. Umas gotas de óleo custavam o equivalente a 50 euros [cerca de 300 reais]. Um quilo de açúcar, 30 euros [quase 200 reais]. Enquanto isso, eles estavam jogando comida fora.”

Ela passou três dias em Praga para uma reunião do Pen Clube. “Estava num quarto grande com água quente, algo que não tínhamos mais em Sarajevo, e não me sentia confortável. Tinha deixado meus pais. Nossa casa tinha sido bombardeada. O meu cunhado tinha morrido na guerra. Mas eu não via a hora de voltar”, lembra. “Durante os três anos e meio de guerra, nós tínhamos fome de cultura, queríamos viver, ter uma vida normal, ler, ir ao teatro, a concertos. Susan Sontag veio nos visitar quando estávamos sitiados, e eu pedi que me trouxesse livros.” Sontag conseguiu uma bolsa de três meses para a poeta nos Estados Unidos na época do cerco. “Ela me disse que eu ia enlouquecer se ficasse aqui.” Duraković não aguentou a estadia longe de seu país, e voltou um mês antes de a bolsa acabar.

Trinta anos depois dos Acordos de Dayton, pergunto a ela que poema gostaria de escrever. “Seria apenas uma frase: ‘Estou muito decepcionada com a humanidade’”, responde. “Eu era muito ingênua. Achava que numa guerra soldados matavam soldados. Mas não. São os civis que morrem o tempo todo. Olha estes drones na Palestina: alguém aperta um botão e destrói uma casa com uma família dentro. É horrível. Mulheres, bebês, grávidas, pessoas idosas, doentes, todos são vítimas da política de alguém. Não há guerra justa ou por uma boa causa. Não há nenhuma guerra que valha a morte de uma criança.”

 

Inconformado com o engarrafamento, Hodžić exclama: “Não vamos conseguir chegar a tempo.” Estamos a menos de 7 km da cidade de Srebrenica, onde todos os anos, no dia 11 de julho, o país lembra as vítimas do genocídio perpetrado pelos sérvio-bósnios e paramilitares sérvios. “Vamos perder a cerimônia”, reclama Hodžić, enquanto no rádio começam os primeiros discursos oficiais do dia.

No Cemitério de Srebrenica serão enterradas as vítimas cujos restos mortais foram identificados ao longo do ano. A cerimônia se repete todo ano, e dessa vez serão apenas sete vítimas. À medida que o tempo passa, fica mais difícil encontrar ossos e novas valas comuns. Como os sérvios enterraram e desenterraram sucessivas vezes os corpos para apagar os indícios dos crimes, os ossos de uma mesma pessoa estão espalhados por diversos lugares. O caso mais extremo foi o de uma vítima cujos restos mortais foram encontrados em cinco valas diferentes. Os dois ossos do filho de Munira Subašić, presidente da Associação das Mães de Srebrenica e Žepa, foram achados em duas valas que ficavam a 25 km de distância uma da outra. Hodžić me convence a desistir. “Voltaremos no domingo”, ele sugere. “Nunca vi tanta gente.” Na comemoração de 11 de julho estiveram em Srebrenica 150 mil pessoas.

Voltamos para Sarajevo ouvindo no rádio os discursos burocráticos das autoridades, até que Munira Subašić sobe ao palanque para falar. “Enquanto estou aqui, muitas mães na Ucrânia e na Palestina estão vivendo o mesmo que passamos em 1995. Ninguém tem o direito de matar o filho de alguém, de estuprar a filha de alguém, de matar a mãe de alguém”, ela afirma. “Ninguém pode devolver nossas crianças, mas, se os nossos filhos tinham nomes e sobrenomes, os criminosos também têm. Cinco mil e quinhentas crianças ficaram sem um dos pais em Srebrenica. Elas viram seus pais serem assassinados, suas mães serem estupradas. […] Muitas não têm nenhuma foto dos pais e se perguntam se são parecidas com eles. Os assassinos mataram os nossos filhos e as memórias deles também. E eles mataram nossos filhos sob a bandeira das Nações Unidas e com o mundo inteiro assistindo. O mundo deveria ter vergonha. O mundo e a Europa não aprenderam nada. No século xxi, em vez de justiça, estamos vendo o fascismo. Está na hora de parar de falar e fazer algo, está na hora de a Europa acordar.” A mãe de Srebrenica faz o discurso mais contundente das comemorações e é uma das poucas a falar do que acontece na Palestina hoje.

“Você acredita que Munira ainda preparou 5 mil tortas para serem servidas na cerimônia em Srebrenica, antes de ir para a ONU no início da semana?”, conta Duška Jurišić, vice-­ministra de Direitos Humanos e Refugiados da Bósnia e Herzegovina, quando nos encontramos para almoçar em Sarajevo. “Você tem que conhecê-la. Ela é impressionante, vou ligar para ela.” Jurišić é bósnia de origem sérvia e seu marido, que morreu recentemente, era de origem muçulmana. Quando a conheci, em 1994, nos Estados Unidos, ela era jornalista e conseguira escapar do cerco de Sarajevo por meio de um túnel secreto subterrâneo de 800 metros, bem debaixo do aeroporto da capital. Passamos dois meses juntas num curso para jornalistas estrangeiros na rede de tevê CNN, em Atlanta. Assim que acabou a sua temporada na CNN, ela voltou para enfrentar mais dezoito meses de guerra. Não nos víamos havia 31 anos.

Ela me conta que, na área dos direitos humanos e dos direitos das mulheres, um dos grandes problemas é a falta de indenizações às vítimas de crimes de guerra. “Seguimos a orientação da ONU e tentamos começar com as vítimas de estupro: pedir desculpas, garantir cuidados de saúde e dar cerca de 15 mil euros [quase 100 mil reais] a cada uma. Para isso, precisávamos dos votos dos sérvio-bósnios, croata-­bósnios e bosníacos. Os políticos de origem sérvia votaram contra.” A vice-­ministra sabe que é vista com desconfiança por muitos sérvio-bósnios e por muitos bosníacos. Mas o principal obstáculo para a reconciliação, segundo ela, é a negação dos crimes. “Enquanto as lideranças políticas da Sérvia e dos sérvio-bósnios da República Srpska negarem os massacres e o genocídio em Srebrenica, não será possível alcançar a reconciliação. O genocídio é reconhecido internacionalmente. Não é aceitável negá-lo trinta anos depois e glorificar os criminosos de guerra condenados por tribunais internacionais.”

O genocídio de Srebrenica, no Leste da Bósnia, aconteceu quatro meses antes do fim da guerra. No dia 11 de julho de 1995, as forças militares dos sérvio-bósnios, comandadas pelo general Ratko Mladić, ocuparam a cidade, que era uma área de segurança, protegida pelo batalhão holandês da Força de Proteção da ONU. Além de 5 mil bósnios que estavam abrigados no quartel-general dos holandeses, 20 mil mulheres, crianças e homens muçulmanos também tentaram se proteger na base militar, montada em uma antiga fábrica de baterias de Potočari, um distrito da cidade, a 8 km do Centro.

Mladić fez uma exigência, atendida pelo batalhão holandês sem nenhuma resistência: entregar todos os homens muçulmanos com uma lista dos respectivos nomes. Eles foram então transportados para diferentes lugares e massacrados. Mladić exigiu ainda que mulheres, crianças e idosos fossem levados para regiões controladas pelo Exército bósnio. Entre 10 e 15 mil homens tentaram fugir pela floresta, onde os sérvio-bósnios armaram emboscadas, vestidos com uniformes de soldados da ONU. Durante dias, eles bombardearam vários trechos da mata. Pais exaustos, com frio, fome e medo gritavam para que seus filhos se rendessem.

Acabaram todos executados. Apenas 3,5 mil homens e jovens chegaram a salvo em Tuzla, cidade controlada pelo exército. A maioria dos 8 372 meninos e homens bosníacos foram executados pelos sérvio-bósnios no período de 13 a 16 de julho. Apesar de o alvo serem os homens, entre as vítimas encontradas nas valas comuns também havia mulheres e bebês.

A queda de Srebrenica é um dos episódios mais terríveis da Guerra da Bósnia e um dos maiores fracassos da história da onu. Até hoje, muitos bósnios acreditam na versão registrada em jornais e livros de que o representante bosníaco, Alija Izetbegović, aquele que se tornaria o primeiro presidente do país, havia negociado antes com os americanos para que, no pós-­guerra, Srebrenica ficasse com os sérvio-bósnios, em troca da garantia de que os arredores de Sarajevo fossem controlados por bosníacos e croatas. Mas Izetbegović não anteviu o genocídio, e todos os envolvidos nas negociações de paz sempre negaram a existência desse acordo prévio.

Encontro finalmente Munira Su­bašić na sede da Associação das Mães de Srebrenica, dois dias depois das cerimônias que marcaram os trinta anos do genocídio. “Meu filho era grande, tinha 2 metros de altura, e eu enterrei uns ossinhos dele”, diz ela. “Pelo menos tive ossos para enterrar. O que faz uma mãe quando não encontra nem um osso do próprio filho para enterrar? É como se ele nunca tivesse existido. Isso não é uma injustiça?” O filho de 17 anos, o marido e mais 22 parentes de Subašić foram executados. “Em Srebrenica, eles nos mataram, mudaram as valas comuns de lugar, nos estupraram, saquearam nossas casas, nos deportaram, e o prêmio foi ter Srebrenica no território deles”, ela diz. “Praticamente metade do país está nas mãos de quem cometeu crimes, cometeu genocídio. Ficaram com as partes mais lindas da Bósnia. Essa é uma grande injustiça.”

Srebrenica não é exceção. Todos os lugares por que passei onde ocorreram massacres ou foram instalados campos de concentração estão localizados dentro do território da República Srpska, a entidade política da Bósnia e Herzegovina governada pelos sérvio-bósnios, responsáveis pelos crimes. “Os muçulmanos tinham sido expulsos das suas casas e cidades, então todas estas áreas eram dominadas pelos sérvio-bósnios no fim da guerra”, explica Hodžić. “O acordo de paz levou em consideração as conquistas militares de cada lado.”

Subašić compara o que aconteceu na Bósnia ao que acontece hoje na Faixa de Gaza. “Não se comete um genocídio sem planejamento. Nós vivíamos todos juntos antes da guerra. Os sérvio-bósnios disseram para todo mundo ouvir que tinham voltado para acabar o trabalho. Nós fomos abandonados. Eles queriam construir a Grande Sérvia. Os croatas queriam a Grande Croácia. E a Bósnia seria varrida do mapa. A mesma coisa acontece com a Palestina”, diz. “Eles não podem nos matar a todos, não podem fazer uma limpeza étnica total. Mesmo que destruam a grama, as raízes brotam novamente. De certa maneira voltar é defender a sua casa. Se você for embora, eles vencem.”

Em 2024, a ONU instituiu o 11 de julho como o Dia Internacional de Reflexão e Memória do Genocídio de Srebrenica. O Brasil se absteve de votar na eleição que fixou a data, que as mães das vítimas consideram uma vitória importante, principalmente agora que as autoridades da Sérvia e os líderes sérvio-bósnios negam que houve um genocídio. “Temos uma resolução na Assembleia Geral das Nações Unidas e duas no Parlamento Europeu. Nós processamos a ONU e o governo da Holanda. Ganhamos os dois processos. As Nações Unidas só podem ser julgadas moralmente, mas o governo holandês foi indiciado criminalmente. Vamos construir agora um muro da vergonha e colocar os nomes de todas as pessoas que apoiaram ou apoiam a negação do genocídio, incluindo líderes mundiais como o John Major [ex-primeiro-ministro da Grã-Bretanha], que dizia que a Europa estava numa cruzada cristã”, diz Subašić. “Todos os dias, vamos acrescentar um nome, para que as famílias desses negacionistas tenham vergonha e não se orgulhem de seus parentes, ainda que sejam considerados grandes políticos.”

Pelas contas de Subašić, 2 280 vítimas ainda não foram encontradas. Ela lamenta que cem mães da associação já tenham morrido sem localizarem os restos mortais de seus filhos. Só em 2022, passados 27 anos do genocídio, o governo da Holanda pediu desculpas aos sobreviventes, reconhecendo a responsabilidade de seus soldados. Numa das paredes da base de Potočari, um soldado holandês das Forças de Proteção da ONU escreveu sua opinião sobre aqueles que deveria proteger: “Sem dentes…? Com bigode…? Fede à merda…? Garota bósnia!”

Subašić conta que, quando Bill Clinton foi à inauguração do memorial em Srebrenica em 2003, ela perguntou ao então presidente americano: “Por que você não evitou o genocídio em 1995? Você é poderoso, poderia ter salvado as nossas crianças, os nossos filhos poderiam estar aqui hoje.” Ela recorda que Clinton começou a chorar. “Mas eu disse: ‘Não precisamos das suas lágrimas nem da sua tristeza, precisamos apenas da verdade.’”

É a primeira vez que Hodžić ouve Subašić contar a conversa que teve com Clinton. “A relevância da Bósnia é que há trinta anos a consciência mundial se indignou contra a injustiça, e os líderes foram obrigados a reagir”, acredita Hodžić. “Eles deixaram que o pior acontecesse, demoraram, mas foram forçados a ter empatia e agir. As guerras são sempre esquecidas. O que a Bósnia representou não existe mais. Hoje vemos nas redes sociais o que acontece em Gaza, e nada muda.”

“A senhora sonha com o seu filho?”, pergunto a Subašić, enquanto outra mãe de Srebrenica passa roupas no chão, e uma terceira, ainda de pijama, atende telefonemas. Ela me olha fixamente e, pela primeira vez desde o início da nossa conversa, abandona o discurso político. A expressão de seu rosto suaviza. Hodžić também muda o tom de voz, fala mais baixo, ao traduzir para o inglês a resposta da mãe-símbolo da cidade onde ocorreu o maior genocídio na Europa depois do Holocausto. Subašić diz: “Meu filho sempre aparece nos meus sonhos como um menino, não como um rapaz já crescido. Nos meus sonhos, estamos juntos e, de repente, ele se perde. Eu o procuro, mas não encontro. E continuo a procurar, como se ele estivesse me dizendo: ‘Não desista de mim.’”

 

“Todas as vidas foram perdidas em vão. Estamos na mão dessa enorme máfia de ignorantes violentos, intolerantes, fascistas, nacionalistas. As pessoas que estiveram e estão no poder tinham obrigação de ter criado uma sociedade integrada entre sérvios, croatas e bosníacos”, desabafa Orhan Huremagic, de 23 anos, antes de suas palavras serem abafadas pela cantoria e pelos gritos dos torcedores do FK Željezničar Sarajevo, ou simplesmente Željo.

Hodžić, seu filho Tarik e eu encontramos Huremagic no bar próximo ao Estádio de Grbavica, em Sarajevo, algumas horas antes do jogo contra o FC Koper da Eslovênia. O clima é de euforia. Uma das músicas que os torcedores cantam é em homenagem ao chefe de torcida que morreu durante a guerra. “Sou muçulmano, nasci e cresci em tempos de paz, fui criado entendendo que a minha identidade engloba a herança comum de sérvios, croatas e bosníacos”, diz Huremagic. “Nunca vi uma instituição que represente muçulmanos que tenha abraçado essa nossa identidade. Lamento que os jovens bosníacos se identifiquem apenas com o papel de vítima e tenho pena dos jovens sérvio-bósnios que não aprendem nada sobre os massacres e o genocídio.”

Vamos em direção à ala Sul do estádio, ocupada pelos torcedores mais fanáticos. O azul e o branco, as cores do Željo, cobrem as arquibancadas. Em cima de cada cadeira, encontramos papéis nas cores azul ou verde, que ao serem desdobrados parecem uma folha de cartolina. Hodžić explica que receberemos instruções do que fazer com eles durante o jogo. O estádio foi reconstruído depois da guerra com dinheiro da prefeitura e dos próprios torcedores. O espetáculo nas arquibancadas ultrapassa o de um jogo de futebol. No início, mais de 15 mil pessoas cantam em uníssimo Grbavica, a música que fez Hodžić chorar durante nossa viagem de carro a caminho de Sarajevo. Um animador passa as instruções com um megafone, pedindo para que todos cantem e agitem os papéis coloridos, formando uma coreografia no ar.

Durante os primeiros 15 minutos de jogo, mal se consegue ver o gol do adversário, tamanha a azáfama de faixas, bandeiras, músicas e palmas. Hodžić e Tarik sofrem a cada lance perdido. De vez em quando gritam: “Joããããooo!” Eles se referem a João Erick, o brasileiro que joga pelo Željo. Aos 44 minutos do segundo tempo, com a derrota já batendo à porta, a torcida do Željo explode: sai o gol de empate, comemorado como se fosse de vitória.

Hodžić, Tarik e Huremagic já não estão mais sentados: correm no alto da arquibancada como se estivessem competindo os 100 metros rasos. “A Bósnia é como esse jogo. Não perdemos, não vencemos, estamos sempre no empate, mas não deixamos de lutar por esta alegria que é viver”, resume Hodžić, enquanto nos juntamos à multidão que sai calmamente do estádio, seguindo pelas ruas do bairro que, há 33 anos, foi um campo de batalha.

Sapatos de uma criança executada durante a limpeza étnica
Sapatos de uma criança executada durante a limpeza étnica
Motociata com destino a Srebrenica
Motociata com destino a Srebrenica
Participantes da motociata
Participantes da motociata
Vista da Praça Prijedor
Vista da Praça Prijedor
Rosa de Sarajevo nas calçadas
Rosa de Sarajevo nas calçadas
A cidade de Sarajevo vista de cima
A cidade de Sarajevo vista de cima
Torcida de futebol levanta cartazes
Torcida de futebol levanta cartazes
Escritos na parede.
Escritos na parede. "Sem dentes? Um bigode? Tem cheiro de merda? Garota bósnia!"
Sapatos de uma criança executada durante a limpeza étnica
Sapatos de uma criança executada durante a limpeza étnica
Motociata com destino a Srebrenica
Motociata com destino a Srebrenica
Participantes da motociata
Participantes da motociata
Vista da Praça Prijedor
Vista da Praça Prijedor
Rosa de Sarajevo nas calçadas
Rosa de Sarajevo nas calçadas
A cidade de Sarajevo vista de cima
A cidade de Sarajevo vista de cima
Torcida de futebol levanta cartazes
Torcida de futebol levanta cartazes
Escritos na parede.
Escritos na parede. "Sem dentes? Um bigode? Tem cheiro de merda? Garota bósnia!"

 

Simone Duarte
Simone Duarte

Jornalista, chefiou o escritório da Globo em Nova York e foi diretora executiva do jornal português Público. É autora do livro O vento mudou de direção: o Onze de Setembro que o mundo não viu (Fósforo). Dirigiu o documentário Sérgio Vieira de Mello: a caminho de Bagdá

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