esquina

Limusine, nunca mais

Um passeio abafado para comemorar o aniversário de quadrigêmeos

Ricardo Cabral
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

Ninguém entendeu o que faziam na hora do rush aquelas três limusines enfileiradas no engarrafamento da avenida Atlântica – uma preta, uma branca e uma rosa-choque. Não fosse a cena incomum o bastante, a janela de vidro fumê de uma delas se abriu e revelou a algazarra ruidosa de quinze crianças espremidas nos bancos do carro. Braços agitados jogaram pela janela balões brancos, roxos e rosas, junto com alguns pacotes vazios de salgadinhos.

Eram os convidados de João, Vitória, Maria Eduarda e Maria Carolina – quadrigêmeos bem-nascidos que tiveram o aniversário de 10 anos comemorado com um passeio pela orla da Zona Sul do Rio num cortejo pomposo. Os pais dos aniversariantes, Fernanda e o empresário Ricardo Behar, decidiram alugar quatro limusines – uma para cada aniversariante – para um passeio de duas horas. Reservaram os carros para as quatro da tarde do dia 13 de outubro.

O empresário Jorge de Oliveira entrou no ramo do transporte executivo em novembro do ano passado, quando comprou uma limusine de segunda mão – uma Mercedes-Benz preta de 9 metros. Queria fazer dinheiro alugando-a, a princípio de olho nos grandes eventos internacionais que o Rio receberá nos próximos anos. Mas se surpreendeu quando a Advents começou a receber dezenas de reservas para festas de crianças, que viraram sua pequena mina de ouro. A maioria dos quinze serviços que sua frota chega a fazer em uma semana é de aniversários infantis, bem na frente de casamentos ou despedidas de solteiro. “Casa de festa virou coisa do passado, a criançada agora quer comemorar em limusine”, disse Oliveira, entre uma ligação e outra no celular. O passeio custa de 950 a 1 100 reais.

Uma hora depois do combinado, sete cones continuavam a interditar um espaço de mais de 40 metros de rua para o estacionamento das quatro limusines em frente a uma pequena escola no bairro da Gávea. Estava difícil conter a agitação dos 42 convidados que aguardavam os carros do lado de dentro do colégio. Cada um tinha um crachá colorido indicando a limusine que ocuparia, preparado com esmero na véspera pela mãe dos aniversariantes. Os meninos alvoroçados agitavam as mãos, roíam os dedos, falavam aos berros e apertavam o nariz uns dos outros. “Faz a limusine chegar!”, se esganiçou uma menina com vestido de oncinha e sapatilhas brancas, enquanto se entretinha com seu celular.



Assim que a Grand Blazer rosa despontou na esquina, uma gritaria aguda tomou conta do saguão de entrada do colégio. A excitação aumentou com a chegada das limusines preta e branca, mas foi substituída por apreensão e desconfiança pela ausência da quarta, lilás. Logo correu a notícia: ela não viria. Quebrara no meio do caminho. “Foi um problema no chicote dos bicos injetores”, esclareceu Jorge de Oliveira alguns dias depois. Os pais se revoltaram. A representante da empresa foi inexorável: nada havia a fazer. Toda a frota havia sido mobilizada para o aniversário. O jeito era apertar os convidados nos carros disponíveis, que normalmente têm lotação de onze crianças e um adulto cada.

 

Quando o chofer da limusine rosa deu a partida, o piso acarpetado já estava repleto de papéis de bala, pedaços de chocolate, jujubas e restos de salgadinhos. Dois copos de refrigerante e outro de água foram derrubados no estofado rosado de couro – impermeável, claro. Estavam a bordo quinze meninas, duas delas no chão. Representando os quadrigêmeos, Maria Carolina e Maria Eduarda. Ainda no início do passeio, uma convidada pisou no pé de outra, que desatou a chorar. Assustada com a balbúrdia, uma outra se levantou num estalo e bateu com a cabeça no teto do automóvel. Logo depois, um dente de leite de Maria Carolina caiu.

O Jaguar branco que fechou o séquito foi ocupado pela gêmea Vitória e suas amigas. Como o ar-condicionado não desse conta de refrescar a limusine superlotada, pediram ao motorista que abrisse o teto solar. Ele alegou que as crianças não se aguentariam, porque sabia que colocariam os braços para fora do carro. A mãe solicitou que ao menos uma fresta se abrisse, mas a representante da empresa não cedeu. Uma criança irrequieta queimou o braço numa lâmpada. Vendo a própria festa ir por água abaixo, a aniversariante comeu a unha do dedo indicador direito até sangrar.

Durante a maior parte do passeio, a diversão dos convidados consistiu em observar a reação dos pedestres na rua, surpresos com a improvável carreata. Ao final, quando os carros encostaram, as crianças desceram desembestadas, ruborizadas de calor. Frustrados com a comemoração que não saiu exatamente conforme os planos, os pais perderam a paciência com a representante da empresa. No ardor do bate-boca, a criançada acabou aprendendo um par de palavrões que nunca havia escutado. O aniversariante João chorava.

Jorge de Oliveira minimizou o infortúnio dos contratantes, alegando que foi uma falha infeliz, fruto de uma fatalidade. Se aquilo fosse rotineiro, garantiu, sua empresa não teria reservas até março do ano que vem, nem estaria investindo na reforma do quinto carro da frota, que se tornará a maior limusine do Brasil, com 11 metros e capacidade para vinte adultos.

Um tanto desapontadas, as crianças terminaram a noite numa pizzaria. Encolhida num canto da mesa, uma menina balbuciou, de cara fechada: “Se andar de limusine é assim, não quero nunca mais.”

Ricardo Cabral

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