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    ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2008

esquina

Lixo é relativo

As riquezas do refugo numa sociedade afluente

| Edição 19, Abril 2008

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“Os Estados Unidos? Em recessão? Esse país é abençoado! Eles não sabem o que é pobreza.” Para o ganense Desmond Antubam, faxineiro do Port Authority Bus Terminal, a rodoviária da cidade de Nova York, o melhor termômetro para saber a quantas anda a sociedade americana não é a volatilidade de Wall Street, mas o lixo. Antubam trabalha na maior rodoviária americana e a mais movimentada do mundo. Em operação desde 1950, o Port Authority ocupa dois quarteirões de Manhattan. Por dia, passam por ali 200 mil passageiros. Gente chega, gente parte e quase todos deixam pistas, geralmente nas latas de lixo. Pode ser um papelzinho amassado, mas também são roupas, brinquedos, jornais, revistas, sapatos, bicicletas, rádios, televisões – tudo em bom estado.

Há dezoito anos, de quarta a domingo, das duas da tarde às dez da noite, Desmond Antubam esvazia os latões do terminal. Entre goles do chá que toma sem pressa num café Starbucks, desfia seu acervo de histórias.

No último Natal, na entrada da rodoviária, Antubam notou uma moça que falava pelo celular com o namorado. Ela segurava um enorme embrulho de presente e um buquê de flores, mas, pelo andar da carruagem, tinha sido esquecida ali pelo rapaz do outro lado da linha. A conversa foi esquentando, os decibéis aumentando e ploft!, ela bateu o telefone na cara do canalha. E, sem pensar duas vezes, jogou todos os mimos no lixo – o presente, as flores e mesmo o telefone. Antubam, um homem bonachão, calmo, de fala mansa, esperou o desfecho da cena e, a passos lentos, se aproximou da moça: “Senhorita, o seu celular foi pro lixo.” “Vai se danar, você e aquele imbecil! Foi ele que comprou o telefone e eu não vou pegar de volta! Ele se quiser que compre outro!” E, assim dito, partiu bufando. Com serenidade olímpica, Antubam pescou o telefone no lixo e o enfiou no bolso. O aparelho, que valia mais de 200 dólares, não parava de tocar. Ele chegou a atender, mas não quis falar com o namorado, que se esgoelava. Deixou tocar por dias a fio, até decidir devolvê-lo ao dono mediante uma recompensa financeira. E avisou ao rapaz: “Salvei só o celular; as flores e o presente se foram.”

 

Para Antubam, desperdício deveria ter limite. Ele nasceu em Acra, capital de Gana, numa família de nove irmãos. O pai morreu quando ele tinha 10 anos, o que deu início a uma vida de dificuldade. Mais tarde, Antubam cursaria design gráfico e iria morar na Nigéria, país mais próspero do que Gana. Lá, obteria um visto para os Estados Unidos, mas o despachante, como se não bastasse embolsar os 1 700 dólares da comissão, roubou o passaporte. Ele conseguiu chegar a terras americanas via Bahamas, em 1985.

Antubam se casou pela primeira vez com uma americana e obteve o visto de residente, o green card. Depois de dois anos, separou-se e viajou à África, onde conheceu a atual mulher, hoje com 27 anos. O casal tem três filhos, de 10, 4 e 2 anos. O filho do meio continua na África, com os avós paternos; por um problema na hora do registro, Antubam precisa provar que é o pai e por isso ainda não conseguiu trazê-lo para os Estados Unidos. “Imigração aqui está muito complicado”, lamenta.

Sobre a filha mais velha, comenta: “Ela dá uma mordida no pão e joga o resto fora. Nessas horas, digo que, se paguei quase 3 mil dólares para tirá-la da África, não foi para ela desperdiçar pão”. A menina contra-argumenta como americana: na escola, diz, é orientada a jogar qualquer resto de comida fora. Essa norma de saúde pública se estende aos restaurantes da rodoviária. Depois das 21h30, é Antubam quem recolhe as centenas de sacos de comida fresca descartados pelas dezesseis lanchonetes do terminal. Tudo vai para o lixo.

 

Como os funcionários estão autorizados a guardar o que é jogado fora, há colegas que despacham para a África contêineres inteiros com tralha descartada por americanos. Durante o verão, camisetas suadas vão para o lixo. Casacos trazidos sem necessidade, idem. Quando a chuva estia, é a vez dos guarda-chuvas. Tênis que não cabe na mala? Lixo. Bicicleta que não entra no ônibus? Lixo. Pais que desistem de levar o carrinho de bebê deixam o trambolho ali, no lixo. Na época dos guarda-volumes, antes do 11 de Setembro, a coleta era ainda mais proveitosa: malas e mais malas estouravam o prazo máximo de três meses. Depois, lixo. Um colega chegou a achar em uma delas um colar de ouro que lhe rendeu 2 mil dólares.

Antubam termina o chá. Antes de se despedir, aproveita para dar uma palhinha no assunto do momento: “Eu ia achar muito bom se algum candidato democrata ganhasse essas eleições.” Nas primárias de Nova York, seu voto foi para Obama, mas se Hillary sobreviver à onda obamista e for indicada, votará nela, ainda que não tenha gostado de vê-la chorar na televisão: “Líder que é líder não chora.” Antes de deixar o Starbucks para encarar um frio de 10 graus negativos, Desmond Antubam ajeita a gola rolê e, com um pequeno gesto, mostra que ainda não está de todo integrado à América: cuidadosamente, recolhe os guardanapos de papel que sobraram na mesa e os coloca no bolso do casaco de couro.

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