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    ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2010

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Lógica positivista

Dante e Moisés são testemunhas de que Getúlio traiu

Douglas Ceconello | Edição 41, Fevereiro 2010

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No dia 11 de Frederico II de 221 (ou 15 de novembro de 2009, para a maioria da humanidade), um senhor de ralos cabelos brancos e barbicha saliente conversava com um homem. Estavam em frente a um amplo portão de ferro que se abre em duas folhas gradeadas, contornadas no alto por uma afirmação intrigante: “Os vivos são sempre, e cada vez mais, governados necessariamente pelos mortos.” Atrás, ergue-se um prédio austero e quase imponente, em cuja fachada o transeunte em busca de orientação pode achar um norte moral. Viver às claras, Ordem e Progresso, Viver para outrem, proclamam as palavras inscritas sobre três portas altas. No frontão, há uma roseta com os versos iniciais do canto 33 do Paraíso de Dante – Vergine madre, filglia del tuo figlio…– e, em letras maiores, o preceito: O amor por princípio. A ordem por base. O progresso por fim. O senhor na frente do portão vive em conformidade com essas divisas. Ele é Afranio Capelli, o guardião do Templo Positivista de Porto Alegre.

Todos os domingos, religiosamente, Capelli, de 80 anos, abre as portas do seu mundo à visitação. Ali, não só recebe eventuais positivistas – sim, eles existem – de passagem pela capital gaúcha, como profere doutas palestras nas quais deixa claro o seu desencanto com a sociedade contemporânea. Seus pontos de vista se entremeiam com citações da doutrina criada no século XIX pelo francês Augusto Comte. Positivista de escol, Capelli defende a linha justa, pela qual a vida deve ser vivida segundo princípios estritamente humanos, sem apelo a nenhuma metafísica, sob a guarda e inspiração da ciência e da ética.

Para entrar no templo, é preciso vencer treze degraus, correspondentes à escala positivista de organização da sociedade. No primeiro está a palavra Proletariado; no último, Humanidade. Passa das dez e meia quando o Guardião apoia seus enormes sapatos sobre o proletariado e começa a escalada rumo à sociedade ideal. Pisando em Patriciado, Sacerdócio, Mulher, Monoteísmo, Politeísmo, Fetichismo, Domesticidade, Fraternidade, Filiação, Paternidade e Casamento, ele finalmente descansa em Humanidade, antes de descerrar as portas de um dos dois templos construídos no Brasil para a pregação positivista. (O outro fica no Rio de Janeiro.)

 

Por dentro o lugar é algo acanhado, não chegando a 10 metros de comprimento. No púlpito, três bustos de Augusto Comte fazem companhia à Humanidade, representada por uma figura feminina. Uma procissão de grandes homens circunda o altar – são treze, ao todo –, gente graúda como Homero, Descartes e Shakespeare. São os treze meses do calendário positivista, cujo ano zero é o 1789 da gloriosa Revolução Francesa. O janeiro deles é Moisés, fiel representante da teocracia inicial.

Afranio Capelli descansa seu chapéu de feltro ao lado de Dante Alighieri. Um homem mais para o avantajado, com vistosas tatuagens no braço, acomoda-se no órgão e começa a dedilhar com sentimento. Reproduzindo o lema do frontão, sua camiseta, ritualística, também fala de amor, ordem e progresso. É com amor que ele toca Tristesse, de Chopin. Eclético, emenda com Mariposa technicolor, de Fito Páez, passa para duas canções de Charles Chaplin e encerra o interlúdio musical com fragmentos de Jesus, alegria dos homens, de Bach. Tudo é parte da liturgia do encontro.

Algumas pessoas já se ajeitaram pelo ambiente. Sentado numa cadeira, Capelli dispensa a pompa do altar, mas não abre mão do microfone. Palestra é palestra, tanto faz como tanto fez se o público são sete pessoas.

 

Capelli herdou o positivismo dos familiares. Foi “ajustador mecânico”, antiga denominação da profissão de torneiro. Especializou-se. Morou em Buenos Aires, Paris e Rio de Janeiro, e, quando voltou para Porto Alegre, no início dos anos 70, resolveu se aproximar do templo, que frequenta desde então. Há quinze anos exerce a atual função. “Vamos fazer uma reforma no templo, mas não aceitamos verbas municipais, estaduais nem federais, porque isso aqui é uma religião e deve ser sustentada pelos seus adeptos, não pelo governo.”

 

Dirigindo-se aos seus sete ouvintes, lamenta o fato de a maioria das pessoas desconhecer o significado do dístico positivista no centro do pavilhão nacional. Numa generalização que talvez desagradasse aos rigorosos seguidores da razão, chega a dizer que “esses jovens não sabem nada de bandeira nenhuma”. Está revoltado. Sente-se obrigado a enaltecer a boa luta daqueles que, no passado, conseguiram incluir a ordem e o progresso no nosso pendão. “O clero era muito forte no Rio de Janeiro e queria a cruz de Cristo na bandeira, mas, como sempre tivemos força, impusemos as nossas ideias”, diz. Julga que a proclamação da República foi um evento “meio esdrúxulo”, porém necessário. A família imperial seria incapaz de desenvolver a nação.

De um salto, Capelli muda de Deodoro para Getúlio Vargas. Pela comprovada vileza, o caudilho gaúcho merece um comentário mais detido. O homem foi, em suma, um traidor. Era um bom positivista, frequentava as reuniões e até jurava defender os princípios da doutrina caso assumisse o poder. Ao se tornar presidente, deu as costas ao movimento. “Ele sempre contou com o apoio dos positivistas gaúchos”, diz Capelli. “Sua missão era ‘riograndizar’ o país, implantar a filosofia, mas imagine, se esqueceu de tudo isso em nome do que hoje se entende por ‘governabilidade’.” Por essa linha de raciocínio, os problemas não mudaram muito. Compreende-se o desencanto do guardião.

 
Douglas Ceconello

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