esquina

Longe das demais capitais

Humberto Gessinger em Piracicaba

Renata D’Elia
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

As paredes carcomidas, os vitrôs antiquados, a louça gasta nos banheiros e o piso de lajota encardido dão um ar algo decadente ao Clube Cristóvão Colombo, em Piracicaba, no interior paulista. A instituição costuma sediar eventos esportivos de modalidades que vão do truco à tranca, passando pela bocha. Recebe também shows de música, num palco montado no salão de festas que mais lembra o ambiente de um bingo. Numa sexta-feira, em junho, a atração era o trio do gaúcho Humberto Gessinger, ex-líder dos Engenheiros do Hawaii.

Foi o acontecimento do fim de semana na cidade: além de fãs, o show reuniu expoentes da sociedade piracicabana, prontamente registrados pelos fotógrafos e cinegrafistas contratados para documentar a ocasião. Os sócios do clube tiveram desconto no ingresso e acesso a um camarote com bebida liberada. Havia cerca de mil pessoas na plateia, incluindo forasteiros – no estacionamento, viam-se placas de Limeira, Santa Bárbara D’Oeste e São Pedro do Turvo.

Perto da meia-noite – uma hora antes do início do espetáculo –, um sexagenário ergueu os punhos e esbravejou com a dupla de seguranças de quase 2 metros que controlava o entra e sai do camarim. Queria botar para dentro as duas jovens que o acompanhavam, com idade para serem suas netas, mas os brutamontes permaneciam impassíveis. O homem enrubescia à medida que se exaltava. “Você sabe com quem está falando? Sou diretor do clube!”, arriscou, sem sucesso. Acabaram ficando do lado de fora.

Na plateia, as camisetas dos Engenheiros predominavam, mas o figurino incluía também botinas e chapéus. Colados à grade da mesa de som, dois jovens ébrios defendiam o descabimento da comparação do ídolo com outro líder de banda de rock dos anos 80, Renato Russo. “Renato virou um clichê, uma persona over e trágica”, sustentou um deles. “Isso é pouco diante da inventividade desse artista aqui.”



Nenhum fã ali superava a devoção de Regiane Souza, de 32 anos. Por suas contas, ela já assistiu a cerca de 200 shows de Gessinger, tem trinta selfies com o ídolo e quase uma centena de fotos convencionais. Moradora do ABC Paulista, ela viajou 180 quilômetros para tietá-lo na porta do hotel em Piracicaba antes de garantir seu lugar na primeira fila. “Adoro shows no interior, não há tanta competição entre fãs, tem gente que só vem pelo open bar”, explicou.

 

Os cabelos de Gessinger estão compridos como nunca foram na época dos Engenheiros do Hawaii. Aos 51 anos, os fios loiros e o cavanhaque estão esbranquiçados, dando-lhe o ar de um Willie Nelson dos pampas. Ano que vem completam-se três décadas do lançamento do primeiro disco da banda porto-alegrense, que está inativa desde 2008. O ex-líder segue se apresentando em carreira solo, após reunir um trio no mesmo formato do antigo grupo.

Nos anos 80 e 90, os Engenheiros enfileiraram sucessos de rádio com letras coalhadas de aliterações e trocadilhos à beira da infâmia, mas nunca foram unanimidade entre os críticos. Muitos torciam o nariz para versos que ficaram na memória dos fãs, como “minha vida é tão confusa quanto a América Central” ou “eu posso ser um Beatle, um beatnik ou um bitolado”. Gessinger enxerga um efeito colateral positivo das alfinetadas que levou. “Fomos muito xingados e isso atiçou os fãs mais ardorosos”, afirmou. De fato, o músico é visto como um messias e tratado com reverência por alguns admiradores.

Era o caso de Rodrigo “Esteban” Tavares, que, quando moleque, brincava de tocar em frente ao espelho imaginando-se um legítimo engenheiro do Hawaii. Na época, ele tatuou na mão a engrenagem símbolo da banda. Aos 33, virou o guitarrista do trio de Gessinger. “O Humberto não é fã dele mesmo”, brincou. “Conheço mais do que ele os arranjos e harmonias das músicas. Sugeri o setlist dos shows e ele aceitou numa boa.”

No espetáculo que passou por Piracicaba, Gessinger promovia o CD e o DVD InSULar Ao Vivo, do ano passado. A agenda de shows está programada até dezembro deste ano, alternando apresentações em capitais e no Brasil profundo. “Gosto de me confrontar com situações reais”, disse o gaúcho, horas antes do show. “Outro dia eu estava em Belo Horizonte numa famosa casa de shows, hoje toco à uma da manhã num clube.”

Falava diante da piscina, na cobertura do hotel, entre goles de café com adoçante. A copeira que trouxe a garrafa térmica não hesitou em lhe pedir uma foto. Na imagem estourada com flash, o dente de ouro do músico, implantado após um acidente de palco, ficou ainda mais iluminado. “No mundo há duas escolas de restauração de catedrais: a que se aproxima do original e a que se afasta”, comparou Gessinger, divisando o horizonte piracicabano. “Fui ao dentista, olhei aquela paleta de cores de próteses e me vi correndo contra a minha decadência. Por isso escolhi um metal nobre.”

 

No camarim, um cômodo revestido com azulejos marrons desusados, Gessinger dava uma entrevista a um repórter local minutos antes de entrar no palco. Trajava um macacão verde-musgo que lhe conferia a aparência de um paraquedista. Uma garrafa de uísque pela metade era todo o álcool que havia no recinto. Destinava-se aos demais músicos e técnicos; Gessinger não bebe desde 2003, por causa de uma promessa que não revela. “É um cara quase gospel, que bebe chá no backstage”, entregou o guitarrista Rodrigo Tavares.

O líder da banda dispensou o jornalista, avisou ao empresário que guardara na mochila duas bombinhas contra a asma e adentrou o palco. As canções do Engenheiros do Hawaii foram alternadas com as da carreira solo ao longo das duas horas de show – e o público cantou todas, de cabo a rabo, sem distinção. Gessinger deixou os maiores sucessos para a metade final. Voltou para um bis de três músicas concluído com Infinita Highway e saiu ovacionado.

Despediu-se dos fãs e embarcou rapidamente na van que o levaria ao hotel. Ali ele provavelmente ficaria desperto por mais algumas horas, deixando baixar a adrenalina da apresentação. Dormiria pouco, ou quase nada. Quando em turnê, o roqueiro costuma ser o primeiro a aparecer para o café, às seis em ponto.

Renata D’Elia

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