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    CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2023

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Lugar ao sol

Em São Paulo, a luta de ativistas pelos sobradinhos

Angélica Santa Cruz | Edição 203, Agosto 2023

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No final de 2020, a publicitária Rosanne Brancatelli, de 60 anos, ainda atordoada com o lockdown imposto pela pandemia, passou a andar pelas ruas do bairro de Pinheiros, em São Paulo, para esticar as patas de Yogi, seu cãozinho shih-tzu. Levou um baita susto. Moradora há doze anos da região antes cheia de casas, ela se deparou com uma vizinhança tomada por um cenário de demolições. Os sobrados estavam vindo abaixo para dar lugar a canteiros de obras em série. Algumas ruas, como a Alves Guimarães, batiam a inacreditável marca de nove espigões subindo ao mesmo tempo, em um único quarteirão. “Mas o que está acontecendo na cidade?”, ela pensou, atônita.

Durante um passeio, Yogi confraternizou com Baldo, um vira-lata sociável. Desse encontro, nasceu a amizade entre as donas dos cãezinhos, Brancatelli e Marjory Imai, a Maju, administradora de empresas de 55 anos, também indignada com as construtoras que engoliam linhas inteiras de casas como um Pac-­Man desvairado. As duas decidiram que era hora de espernear.

Começaram pendurando em uma árvore uma faixa com os dizeres “Menos prédios, mais casas”. Outros moradores simpatizaram com a causa. Havia, porém, aqueles que, interessados em vender seus terrenos, não gostaram da movimentação. Certa vez, um casal que morava em frente à casa de Brancatelli retirou a faixa sorrateiramente. Acabou dedurado por um vizinho, dono de um lhasa apso, que testemunhou o furto da janela.

Já fazia uns dois anos que os moradores do bairro eram assediados por empresas que se identificavam como assessorias de grandes construtoras e às vezes ofereciam dinheiro grosso pelas residências. Mas eles não esperavam tal voracidade. “Veio a pandemia, todo mundo ficou trancando em casa e, quando saiu, só tinha obras”, conta Brancatelli, sentada em um café ao lado de sua casa.

 

Localizadas a dois quarteirões da estação de metrô Fradique Coutinho, as ruelas habitadas por aqueles desavisados estavam no miolo do que a burocracia municipal chama de Zona Eixo de Estruturação da Transformação Urbana (ZEU). São as áreas com grande oferta de transporte público em que, de acordo com o Plano Diretor Estratégico (PDE), aprovado em 2014, podem ser construídas mais moradias – por isso não há limite de altura para os prédios. Em tese, as construções deveriam contemplar habitações populares, atraindo cidadãos de baixa renda para perto de seus locais de trabalho.

Nas imediações dos corredores de ônibus e estações de metrô, as construtoras botaram para quebrar. A língua das demolições lambeu lanchonetes, botecos e restaurantes tradicionais, arrastou pequenas lojas e escritórios. Predinhos também sumiram de repente, com a clássica situação em que o último morador era obrigado a se render e sair. Pipocaram histórias de idosos que se recusaram a vender e acabaram espremidos entre edifícios altos. Em 2020, a região da Subprefeitura de Pinheiros registrou o maior número de alvarás de demolição da cidade – foram 382. Em meados de 2021, a área onde moram Brancatelli e Maju já era o único quadrilátero baixo que sobrou na região, formado por 52 casas distribuídas por 25 mil m2. Junto com outros vizinhos, elas passaram a brigar pela preservação desse conjunto, que batizaram de Vilas do Sol. “Apesar das sombras feitas pelos prédios, ainda tem luz aqui”, explica Maju.

Os moradores de Vilas do Sol entraram em contato com urbanistas e apelaram para representantes de pequenas entidades que já existiam na área – entre eles Veronica Bilyk, fundadora da Associação de Moradores e Amigos dos Predinhos de Pinheiros, devotada à preservação de um conjunto de 28 edifícios de três andares reconhecido como patrimônio histórico pela prefeitura. Mais experiente, Bilyk foi importante na organização dos vizinhos de Vilas do Sol. Batizou o movimento de Pró-Pinheiros e abriu uma conta no Instagram, hoje com 5,4 mil seguidores.

O movimento cavou audiências na Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento, onde entregou um abaixo-­assinado pedindo a proibição de construções acima de três andares no quadrilátero. Entrou com duas representações no Ministério Público, a primeira reclamando do nível de ruído dos canteiros de obras à noite; a segunda mais ampla, denunciando, entre outras coisas, que nunca se viu sombra das habitações destinadas a cidadãos de baixa renda que deveriam ser construídas no bairro. Moradores de outros bairros que também passam por uma verticalização alucinada, como Vila Mariana e Ipiranga, entraram em contato, pedindo orientação para se organizar.

 

Lei urbanística que impõe regras para o crescimento de São Paulo, o PDE passou este ano por uma revisão. A turma do Pró-Pinheiros tentou participar. Esteve em peso na última audiência na Câmara Municipal em que o povo teria direito a falar – antes da votação final do texto. A sessão começou às 19 horas de 15 de junho. Sessenta pessoas se inscreveram para discursar. Urbanistas argumentaram que a revisão do plano fazia “o jogo das construtoras”. Ativistas citaram uma reportagem publicada na Folha de S.Paulo que mostrava que 26 dos 55 vereadores da cidade receberam doações de campanha de pessoas ligadas ao mercado imobiliário.

Às 21 horas, Brancatelli pegou o microfone para passar um sabão no vereador Rubinho Nunes (União Brasil), que dias antes publicara um artigo defendendo o Plano Diretor e fazendo menção ao “radicalismo das elites de Pinheiros”. “Nós viemos aqui nas audiências e nos gabinetes várias vezes, e não fomos ouvidos”, discursou ela. “Aí, depois, ele diz que os pinheirenses são elitistas. Lá, agora, tem prédio de luxo onde era para ser uma área inclusiva. Isso que é elitista.” E, como o vereador mexia no celular enquanto Brancatelli falava, ela gritou: “Rubinho, para de olhar esse celular!” Das galerias, ouviram-se aplausos e berros: “Respeita o povo!”

Até agora, a militância não adiantou muita coisa. Rubinho Nunes não tirou os olhos do celular; as representações no Ministério Público não deram em nada; o prefeito Ricardo Nunes (MDB) sancionou a revisão do PDE no início de julho, vetando a proposta de um banco de dados para fiscalizar se as construtoras estão mesmo fazendo empreendimentos de interesse social. Em Pinheiros, dezenas de casas já estão vendidas.

Vilas do Sol tem futuro incerto. As empresas contratadas por construtoras continuam fazendo marcação cerrada – ligam para os moradores dizendo que seus vizinhos já toparam sair e, do nada, aparecem medindo e fotografando fachadas. Uma de suas ruelas, a Estela Sezefreda, foi dividida em duas bandas. Os donos do lado ímpar – onde mora Brancatelli – se recusaram a vender suas casas; o lado par já foi comprado. “A construtora que comprou tudo é a Zabo Engenharia. Eles agora precisam escolher se querem preservar uma pequena área cheia de vida do bairro”, diz ela. Procurados pela piauí, os representantes da Zabo não quiseram dar entrevista.

Brancatelli diz que aprendeu a duras penas que tentar ser ouvida pelas instâncias públicas e por representantes eleitos pelo povo é como bater em uma parede branca. “Mas adorei virar uma ativista, continuo buscando uma cidade melhor.” O shih-tzu Yogi, lamentavelmente, morreu.

 

* Na versão impressa desta reportagem, publicamos que o nome do cachorro de Rosanne Brancatelli era Yoga, em vez de Yogi; e que o conjunto Vilas do Sol era formado por 52 casas, em vez de 48. As duas informações foram corrigidas na versão online.