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Luz nos Alpes

Povoado suíço troca estrelas por lâmpadas de led

Luís Bulcão Pinheiro
Em Surrein, 46 postes agora iluminam as ruas, que se mantiveram escuras ao longo de séculos
Em Surrein, 46 postes agora iluminam as ruas, que se mantiveram escuras ao longo de séculos THE STARRY NIGHT_VICENT VAN GOGH_SAINT RÉMY, JUNE 1889 THE MUSEUM OF MODERN ART_SCALA, FLORENCE

A locomotiva vermelha corta as montanhas enquanto, em paralelo à ferrovia, botes e caiaques descem pela corredeira do Vorderrhein, uma das principais nascentes do rio Reno. O trem vai deixando turistas e aventureiros em pequenas estações até encontrar a barragem de uma hidrelétrica. Depois, a calmaria da paisagem rural enclausurada por penhascos que passam dos 3 mil metros de altitude toma conta do percurso. E segue até as entranhas do vale de Surselva, reduto pitoresco da língua romanche, aparentada do italiano, do sardo e do romeno.

Foi nessa remota região dos Alpes, a 171 quilômetros de Zurique, que a população de Surrein, uma vila de 250 habitantes, travou um embate entre o direito à iluminação pública – há muito garantido a todas as outras vilas da Suíça – e a tradição de manter visíveis as estrelas. Em noites de céu limpo, nada impedia que, das ruas sem luz, um transeunte avistasse claramente a Via Láctea. Desde a década de 70, o povoado, cujos primórdios remontam à Idade Média, organizou quatro referendos sobre o tema. Nas duas primeiras votações, em 1977 e 1990, postes e lâmpadas foram derrotados com folga, sobretudo devido aos custos de infraestrutura e eletricidade, que recairiam diretamente no bolso do contribuinte. Em 2000, o projeto perdeu de novo, embora apenas por um voto. Entre uma topada e outra nas ruelas escuras do vilarejo, boa parte dos moradores queixava-se “do atraso em relação ao mundo civilizado”. Tanto que os proponentes da luz voltaram à carga. Chamados mais uma vez a se manifestar, os interessados se reuniram no último 15 de março, decididos a optar pelo sim (o comparecimento às votações não é obrigatório).

Franco opositor da iluminação, Simon Jacomet – um designer de 52 anos – fez de tudo para reverter a situação. Com discursos inflamados, incitou o povo a não abdicar do breu noturno. Em vão. Houve apenas três votos a favor do negrume: o dele, o de sua mulher, Lucretia, e o de outro cidadão que, diz-se no lugarejo, sempre vota contra a maioria, não importa a questão. Do lado oposto, 84 mãos se ergueram a favor dos 46 postes com fiação subterrânea. As chazzolas da via  – luminárias de rua, em romanche – foram aprovadas.

 

Dono de passadas largas, Jacomet costuma percorrer a vila rapidamente e sem perder o fôlego. Mudou-se para Surrein no final dos anos 80 em busca de maior interação com a natureza. Ao chegar, construiu sua casa acoplada a um celeiro. Ele mesmo a projetou em parceria com o arquiteto Werner Schmidt. Exibindo uma ampla janela voltada para as montanhas, a construção – que também serve de ateliê – passou a figurar entre os atrativos arquitetônicos locais, descrita como uma intervenção moderna na paisagem rural. O designer mora ali em companhia de Lucretia, um casal de filhos adolescentes e Enja, cadela da raça grande boiadeiro suíço.

Uma nova casa para a família, com janelas ainda maiores, deverá ficar pronta em 2017. Oscar Niemeyer é uma das inspirações de Jacomet: ele admira a ousadia do carioca que criou Brasília com recursos muito inferiores àqueles de que os arquitetos dispõem atualmente. “O que você precisa é ter sensibilidade para enxergar como as coisas podem ser diferentes e se tornar únicas”, explicava, enquanto caminhava pelo vilarejo.

Em 2003, Jacomet fundou uma fábrica de esquis, a Zai, que se localiza num município próximo e virou referência entre os praticantes do esporte. O equipamento mais barato da marca custa 3 300 francos, ainda que o mercado suíço ofereça bons produtos por 500 francos. Além de conceber os esquis e traçar as estratégias de comercialização, o designer faz questão de testá-los pessoalmente. Quando retorna da pesada rotina de trabalho, estaciona o carro longe de casa. Atravessa o povoado a pé, admira as estrelas e frui o silêncio das montanhas.

Surrein fica 900 metros acima do nível do mar. Das quatro vilas que compõem o vale, não só é a mais baixa como a única plana. A falta de luz nas ruas costumava deixar um grande espaço negro entre as casas iluminadas, bem distantes umas das outras. “Minha cabeça explode quando penso nas novas luminárias. Elas vão mudar muito o povoado”, lamentou Jacomet, retirando os óculos de sol e contorcendo o rosto. “Você chegava aqui e mergulhava no escuro quase absoluto. Imaginava ir em direção ao nada. A partir de agora, essa sensação nunca mais será a mesma. Parece que levei um tapa na cara.”

 

Funcionária de um pequeno mercado, Cornelia Deplazes contou que tinha dificuldades para transitar na penumbra total. “O céu é lindo, só que eu não enxergava um palmo à minha frente.” No restaurante Placi Pign, ponto de encontro do vilarejo, a garçonete Benedicta Flepp também afirmou estar convencida de seu voto: “Adoro a luz da lua sobre a neve e amo ver as estrelas, mas não acho que a iluminação vá atrapalhar.” Marcus Pelican, dono da única pousada local, foi taxativo: “Se quiser observar as estrelas, vou atrás da minha casa e olho para o alto.” O aposentado Ulrich Forster mostrou-se um pouco mais comedido: “Caso votasse com o coração, diria não. Mas a cabeça me disse para votar pelo sim.” Guardando boa parte da memória política do lugar sob os cabelos levemente desgrenhados, o presidente comunitário, Otto Deplazes, de 59 anos, concordou com os conterrâneos. Era duro olhar para cima e ver a vizinha Sumvitg brilhando enquanto Surrein permanecia às escuras.

Controladas por um sistema inteligente, as luzes brancas do povoado estão programadas para acender ao anoitecer e diminuir às 22 horas. A partir desse horário, sensores captam o movimento de pedestres, e a intensidade das lâmpadas de led aumenta apenas ao longo do caminho percorrido, proporcionando uma economia de 80% em relação ao gasto de energia dos sistemas convencionais. Assim que amanhece, todos os postes se apagam.

Na noite de 19 de agosto, a iluminação finalmente chegou ao vilarejo. Foi simbolicamente trazida pelas crianças, que carregaram lanternas de papel até o restaurante, onde a população estava reunida. Discursos das autoridades marcaram o ato histórico. Último a se manifestar, Rico Kramer – executivo da Esave, companhia detentora da tecnologia inteligente – pediu desculpas por falar em alemão, e não em romanche. Após discorrer sobre os benefícios que as luzes trariam à vila, estendeu seu tablet ao presidente comunitário, que, segurando uma das lanternas de papel, acessou um aplicativo e iluminou Surrein.

Jacomet estava lá. Ele e Lucretia haviam acabado de retornar de uma caminhada e acompanharam a cerimônia conversando animadamente com os vizinhos. O designer brincou sobre a possibilidade de hackear o sistema e desligar as luzes com seu smartphone. Mas na verdade não lhe passava pela cabeça contestar a decisão: a maioria tem sempre a palavra final. É assim que funciona no país, no cantão e no povoado onde vive.

 

Extra: Uma caminhada no escuro por Surrein



Luís Bulcão Pinheiro

Luís Bulcão Pinheiro é jornalista brasileiro radicado na Inglaterra, mestre em relações internacionais pela Universidade de East

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