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Luzes na cidade

Ativismo num paredão paulistano

Fabio Victor
CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2020

De um apartamento no bairro da Consolação, o pequeno projetor lançava frases sobre o paredão de um prédio vizinho transformado numa tela gigantesca. Passava um pouco das sete da noite. Naquela quarta-feira, 5 de fevereiro, os destaques iniciais da projeção foram notícias recentes a respeito de um mesmo tema: “Bolsonaro zera repasses a programa de combate à violência contra a mulher” e “Pesquisa em quinze estados e no DF mostra que feminicídio aumentou em 2019”. Em seguida, um comentário: “A luta feminista e o debate sobre o machismo eliminaram ontem, com 80% dos votos, um dos participantes machistas do BBB.” Na véspera, o ginasta Petrix Barbosa, participante do Big Brother Brasil, fora eliminado do reality show por votação popular, depois de suas atitudes machistas.

Como num cinema ao ar livre, as imagens eram visíveis aos paulistanos que transitavam na Rua da Consolação, na altura do cruzamento com a Rua Caio Prado, um dos pontos mais movimentados do Centro de São Paulo. Há seis meses, pedestres e motoristas têm deparado, pelo menos duas vezes por semana, com essas mensagens contra o governo Bolsonaro e em defesa das minorias e da democracia, exibidas numa superfície de concreto de cerca de 30 metros de altura por 10 metros de largura. Trata-se da empena cega – como é chamada, no jargão da arquitetura, a lateral sem janelas de um edifício – de um prédio vazio, antiga sede do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo.

No comando da operação estão duas mulheres e dois homens, entre 26 e 39 anos, criadores do coletivo Projeção Consolação, que, por temerem represálias, pediram que seus nomes não fossem revelados. Com formação em áreas diferentes – ciência política, relações internacionais, tecnologia da informação e artes –, eles se dizem de esquerda e “ativos politicamente”, mas sem ligações com partidos. “Lógico que estamos lutando contra esse governo nefasto, mas nossa intenção é ir além: é romper o cabo de guerra esquerda-direita”, diz a jovem mais falante, uma espécie de porta-voz do grupo. “A gente quer que as pessoas voltem a discutir política, queremos mudar a cultura política do brasileiro. Sei que é prepotente, mas temos que fazer a nossa parte.”

O apartamento funciona como uma república estudantil, com decisões em colegiado, móveis simples e um ar de improviso. Próximo à janela, um bar de madeira sobrevive sem copos nem bebidas. Para compensar, uma participante chega com três cervejas num saco plástico. Enquanto fumam cigarros de palha, os quatro amigos contam como tudo começou. “Fui o primeiro a morar aqui, e um dia vi um vizinho projetar no paredão o filme Deus e o Diabo na Terra do Sol. Então fui atrás dele para saber como fazer aquilo”, lembra um dos rapazes.

A ideia de criar um coletivo só surgiu de fato na noite de 16 de agosto de 2019, quando os quatro amigos se reuniram para festejar o aniversário da cantora Madonna. No meio da farra, alguém pegou o projetor e resolveu exibir um vídeo de outra diva pop, Beyoncé. Filmado em preto e branco, o clipe de Single Ladies era perfeito para ser visto na empena vizinha. A turma adorou o resultado e percebeu que tinha em mãos um instrumento eficiente para fazer política. “Naquela noite, a gente se questionou como poderia furar a bolha e falar com a sociedade”, diz a porta-voz. “Essa é uma casa onde sempre se falou muito de política.”

O grupo faz tudo por conta própria: seleciona as notícias, escreve as mensagens e produz os slides no computador, no programa PowerPoint. “Jamais projetamos fake news”, garante a porta-voz. Por isso, eles dizem que, além de checar a procedência da informação, preferem recorrer a publicações de grande circulação. Os slides trazem sempre a fonte da notícia e o endereço da conta do grupo no Instagram.

Na cidade de São Paulo, projeções em fachadas são regulamentadas por uma resolução de 2011 da Comissão de Proteção à Paisagem Urbana (CPPU), subordinada à Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano da Prefeitura. Pela regra, é necessário pedir autorização antes de realizá-las. A aprovação é condicionada a certos parâmetros, como horário e dimensões, e a publicidade é proibida. As infrações são punidas com multas – a primeira é de 10 mil reais.

Os ativistas do Projeção Consolação nunca pediram autorização (e também nunca foram multados). Eles explicam sua atividade como “protesto pacífico”, o que é garantido pela Constituição. Contam que já recusaram propostas de anúncios. Mas gostam de divulgar ações de ONGs e iniciativas de pessoas físicas que lhes parecem interessantes – como quando projetaram um pedido de namoro de uma garota a outra, que aceitou a proposta, como vieram a saber depois.

 

Enquanto transcorria a sessão daquela quarta-feira, os integrantes do coletivo fotografavam com o celular as mensagens projetadas. Pouco depois, as publicariam no Instagram, onde já atraíram a atenção de políticos, personalidades e ativistas de esquerda – do coletivo Mídia Ninja à presidente do PT, Gleisi Hoffmann.

O grupo tem particular afeição por citações, aforismos e máximas, como a que aparece na biografia de seu perfil na rede social: “A revolução será projetada.” A porta-voz da turma observa: “As pessoas esquecem as notícias muito rapidamente, é importante criar algo que vá além do fato em si, como num sistema de ação e consequência.”

Por isso, durante a projeção na rua, intercaladas a notícias, fervilham mensagens provocativas, como: “Você foi feliz no Brasil de 2019?”, “A quem interessa calar a ciência?”, “Tudo é política, inclusive seu silêncio disfarçado de neutralidade.” E a preferida do grupo: “Se não nós, quem? Se não agora, quando?”

Fabio Victor

Repórter da piauí. Na Folha de S.Paulo, onde trabalhou por vinte anos, foi repórter especial e correspondente em Londres

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