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    ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2014

esquina

Maníaco da máquina

Um colecionador de lavadoras

Bernardo Esteves | Edição 98, Novembro 2014

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Numa tarde de 2011, o paulistano Fernando Ricci passeava por uma loja de eletrodomésticos num shopping de Higienópolis quando perdeu o chão. O motivo do transtorno foi uma máquina de lavar de cor grafite com design elegante e minimalista. Era a primeira vez que via aquele modelo importado. Era a Ferrari das lavadoras. Obcecado, não sossegaria enquanto não tivesse uma daquelas na sua coleção.

A máquina estava ligada e conectada à rede de água, e ele se precipitou para explorar as configurações e ciclos de lavagem. Perdeu a noção do tempo e passou várias horas na loja. Voltou para casa encantado e triste – com preço na casa dos 14 mil reais, ela não estava propriamente ao alcance do seu salário de analista de informações numa companhia telefônica. “É um modelo que nunca terei e nem verei lavando roupa”, pensou, resignado. Mas a sorte virou. Fracasso de vendas, a lavadora foi tirada de linha. No site da fabricante, Ricci conseguiu arrematar uma das últimas unidades, vendida na queima do estoque por 2 699 reais. “Apertei de tudo que era lado pra poder comprar”, contou numa manhã recente.

A máquina de aparência futurística é a joia da coroa da sua coleção. Fica em seu quarto, espremida entre outras duas lavadoras, sob a tevê de 55 polegadas. Com orgulho indisfarçado, Ricci ligou-a e, manipulando com desenvoltura o menu na tela sensível ao toque, mostrou as centenas de programas de lavagem disponíveis. A função mais notável é a de remoção de manchas, na qual o usuário informa a cor da roupa, o tipo de tecido e a natureza da nódoa, e a máquina se encarrega do resto. Se o caso fosse remediar um acidente com ketchup numa camiseta branca, a lavagem demoraria 157 minutos – a duração poderia variar se a mácula fosse provocada por graxa, manteiga ou fezes de bebê.

 

O

fascínio de Fernando Ricci pelas lavadoras remonta à infância – ele se lembra de quando a mãe o colocava de pé sobre um banquinho para assistir enfeitiçado às maquinadas com a roupa suja da família. Aos 18 anos, quando arrumou emprego como caixa num supermercado, usou parte do salário para adquirir seu primeiro modelo. Não parou mais desde então – sempre que juntava algum dinheiro, trazia um modelo novo para casa. Ricci guarda um registro detalhado das quinze lavadoras que já adquiriu, com a data da compra, o modelo e o custo da transação.

A obsessão ganhou escala depois que ele deixou de morar com a mãe, há dois anos e meio. Em sua casa, sentiu-se à vontade para espalhar as máquinas por todo canto. Aos 36 anos, Ricci mora no 2º andar de um sobrado na Vila Fachini, na Zona Sul de São Paulo. É um imóvel de quarto e sala que não deve ter muito mais que 50 metros quadrados, o que não impede que ele acumule ali doze lavadoras (das quais duas portáteis), uma secadora e uma pequena centrífuga. “Moro numa grande lavanderia adaptada para ser também a minha casa”, definiu.

É preciso se desviar das máquinas para se locomover e já na sala de estar o visitante se depara com dois trambolhos junto ao sofá. Só na cozinha ficam cinco, incluindo uma de parede e outra portátil que lembra uma lixeira. O centro nevrálgico é o espaço que Ricci chama de lavanderia – o único banheiro da casa, que faz as vezes também de área de serviço. Além de acomodar três lavadoras, o cômodo serve de depósito para uma profusão de sabões e amaciantes estocados em duas estantes e uma fruteira de plástico. “Quando vou ao supermercado, o primeiro corredor que visito é o de insumos para lavar roupa”, contou. “Se amigos viajam para o exterior, peço sabão importado de encomenda.”

 

Em 2006, o fã das lavadoras começou a frequentar diariamente os sites das fabricantes em busca de novidades. Notou que, quando algum modelo saía de linha, simplesmente desaparecia da internet, o que o exasperava. Ter essa informação à mão sem depender de ninguém foi a principal motivação para que ele criasse um blog temático. Roupa suja se lava na máquina! estreou em 2010 e já teve quase 4 milhões de páginas acessadas. Ricci publica ali resenhas minuciosas dos novos lançamentos e esclarece dúvidas dos leitores. Posta também as centenas de vídeos do seu canal no YouTube, que mostram maquinadas comentadas por ele em tempo real.

A popularidade do blog chamou a atenção dos fabricantes, que começaram a lhe mandar modelos para testes (dos catorze aparelhos atualmente em sua casa, cinco estão ali para avaliação e serão devolvidos). Ricci já ganhou uma máquina de presente e passou a receber convites para o lançamento de novos modelos e eventos temáticos. Disse que não recebe dinheiro das empresas e que a proximidade não compromete a isenção das suas avaliações – “Senão perco minha credibilidade”. Mas encontrou um jeito de fazer dinheiro com o hobby: ganha a vida escrevendo resenhas de eletrodomésticos (não só lavadoras) para um site de compras. Prefere não revelar quanto recebe, mas diz que consegue pagar suas contas.

O paulistano costuma lavar roupas trazidas por vizinhos e familiares – um serviço que presta de graça e feliz. Chega a fazer sete maquinadas por semana nos períodos mais ocupados, mas diz não gastar muito com luz e água – as contas de setembro custaram-lhe 121,30 e 32,62 reais, respectivamente. Quando foi visitado por piauí, suas lavadoras estavam ociosas, algumas cheias de roupa acumulada – faltara água por cinco dias em seu bairro.

Com frequência, Ricci convida amigos para uma lavação coletiva de roupa suja, evento que batizou de wash-in. “Faço almoço e passamos o sábado usando as máquinas e testando ciclos diferentes”, explicou. Frequentador dos wash-ins, Eduardo Freitas comprou um modelo sob orientação de Ricci e até conseguiu ver certo encanto na máquina. Mas demorou a se acostumar com a esquisitice do amigo. “Ele colocava a máquina para funcionar e ficava sentado olhando por mais de uma hora”, contou, desconcertado. “Não via nenhum sentido nisso.”