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    ILUSTRAÇÃO_ANDRÉS SANDOVAL_2018

esquina

Mão de ferro

A líder da ocupação

Guilherme Novelli | Edição 144, Setembro 2018

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Numa tarde de junho, uma senhora entrou no escritório do Movimento de Moradia Para Todos (MMPT), no Centro de São Paulo. Queria pagar o aluguel mensal do cômodo onde vive, que fica num prédio ocupado a poucos metros dali, na rua Marconi. “São 215 reais, mais a taxa de reforma, dá um total de 351,50 reais”, explicou a auxiliar administrativa que a atendeu, ela também moradora da ocupação. A senhora pediu ajuda para contar o dinheiro. “Preciso do seu título de eleitor para poder receber”, disse a auxiliar. “É para saber quantos votos a Edinalva vai ter”, completou, mostrando-lhe uma planilha com o número do documento dos demais moradores.

A moça referia-se à líder do MMPT, Edinalva Franco, que nas eleições de outubro vai concorrer à Assembleia Legislativa paulista pelo PT. À frente das quatro ocupações coordenadas pelo movimento, Franco é a responsável por cobrar aluguéis atrasados, além de contratar e pagar empresas para as reformas dos imóveis. Preside as reuniões semanais de boas-vindas, verifica a documentação dos novos moradores e negocia com as autoridades quando algum pedido de reintegração de posse recai sobre as ocupações.

Cabe a ela zelar pelo cumprimento das regras. “Não pode entrar drogado ou alcoolizado e nem roubar ninguém”, explicou. Franco exige atestado de antecedentes criminais dos adultos e cartão de vacinação das crianças. Ninguém pode chegar depois da meia-noite, e os ocupantes têm que participar dos atos e invasões promovidos pelo MMPT. “Eles estão vindo para a luta, não para uma imobiliária”, justificou.

 

Franco chamou a atenção da imprensa no começo de maio, depois que um edifício ocupado por dezenas de famílias de sem-teto no Largo do Paissandu desabou em decorrência de um incêndio. A ocupação era coordenada pelo Movimento de Luta Social por Moradia, sem ligação com ela ou com o MMPT, mas na esteira do episódio repórteres foram investigar outras ocupações e descobriram a firmeza com que a baiana comandava as suas. Num áudio de WhatsApp vazado na época, ela ameaçava de despejo os moradores inadimplentes. “Nem que for duas da manhã eu vou bater para cobrar”, avisou. Exonerada do cargo de assessora da deputada estadual Márcia Lia após o episódio, Franco justificou a cobrança ao receber a piauí: “Se eu disser ‘A senhora está inadimplente’ eles não vão entender. Tenho que fazer pressão, porque as empresas que prestam serviço para nós não vão esperar.”

 

Edinalva Franco nasceu em Itanhém, na Bahia, há 46 anos, e se mudou para São Paulo ainda criança. Filiada ao PT desde 1991, fez carreira como assessora de políticos – no cargo que ocupava até o mês de maio, o salário era de quase 10 mil reais mensais. Tem uma caminhonete Mitsubishi Triton de 121 mil reais e um apartamento na rua Brigadeiro Tobias, no Centro, com valor declarado de 300 mil reais. Mas prefere morar numa das ocupações que lidera, para manter o controle sobre os moradores. Atualmente reside num prédio da rua Capitão Salomão, a cerca de 100 metros de onde ficava o edifício que desabou no começo do ano.

Franco levou o repórter para conhecer o Edifício São Manuel, imóvel ocupado sob sua gestão na rua Marconi. Naquela tarde ela acompanhou três funcionários da Secretaria Municipal de Habitação que inspecionavam o prédio. Eles estavam preocupados com as condições estruturais do imóvel e o bem-estar dos moradores. Negaram que a visita tivesse alguma relação com o desabamento no Largo do Paissandu.

 

O MMPT se instalou no Edifício São Manuel em 2012, três anos depois que o último dos seus andares foi desocupado pelo proprietário (os onze donos do imóvel estão em dívida com a prefeitura, que iniciou um processo de desapropriação). O prédio de doze andares, com a fachada pichada e deteriorada, tem um portão de metal pintado de vermelho. No hall, as paredes igualmente vermelhas exibem pôsteres do ex-presidente Lula. Os únicos espaços reformados são uma creche, ainda em obras, e um salão de beleza batizado com o nome do escritor e guerrilheiro Carlos Marighella. Vivem ali 148 famílias de baixa renda, sem condições de pagar aluguel (“Nossas ocupações não são para moradores de rua”, frisou Franco). Estão distribuídas em quartos de aproximadamente 10 metros quadrados – as mais numerosas precisam de um cômodo duplo, e nesse caso o aluguel sai por 430 reais.

Enquanto mostrava a cobertura, Franco chamou a atenção para o estado de conservação do lugar. “Elevador e banheiros reformados, fiação nova, portaria, escritório”, enumerou. “Por isso não aceito que as pessoas digam que a Edinalva está roubando”, protestou. “Quem tem má-fé não é o morador, mas a imprensa que edita tudo para denegrir nosso trabalho.” Descendo as escadas ou percorrendo os corredores movimentados do prédio, Franco era saudada por onde passava. Os moradores pareciam constrangidos com a presença do repórter – a líder os orientara a não falar com jornalistas.

Os ocupantes não são os únicos a se intimidar diante da baiana corpulenta. Ricardo Rodrigues, um dos integrantes da comissão da prefeitura que inspecionou a ocupação, contou que a conheceu dez anos atrás numa delegacia paulistana, após uma reintegração de posse. “Vi o tamanho dela e preferi não discutir”, contou. “Numa eventual briga, eu certamente levaria a pior.” Claudio Pereira da Silva, ex-marido de Franco e ex-prefeito de Paranapuã, conheceu na pele a fúria da ativista. “Dei umas pancadas nele, mas foi por causa de uma traição”, ela admitiu.

 

De volta ao térreo, a gerente falou de suas pretensões eleitorais. Disse que defende as bandeiras dos movimentos sociais e espera obter os 4 mil votos das ocupações que coordena. Está de olho também nos votos das 45 mil famílias distribuídas pelos 206 imóveis ocupados na capital. “Tenho um vínculo muito forte com minhas famílias”, explicou.

Confrontada com o relato da atendente que pediu o título eleitoral para receber o aluguel de uma moradora, Franco negou que a tivesse instruído a exigir o documento. “Ela pediu o número do título porque essa informação estava pendente no sistema”, alegou.

Guilherme Novelli

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