esquina

Mao vive

Em Nanjie, a grama do vizinho nunca é mais verde

Janaína Silveira
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2010

Pouca gente no planeta vive um cotidiano mais musical do que os 4 mil habitantes da vila de Nanjie, ou Nanjiecun, em Henan, província da China central. Todos os dias, incluindo domingos e feriados, eles acordam religiosamente às 6h15, sempre ao som de um clássico revolucionário: O Oriente é vermelho/ O sol está nascendo/ Na China brotou um Mao Tsé-tung…/ O presidente Mao ama as pessoas/ Ele é o nosso guia… Até às 17 horas, quando o hino Socialismo É Bom avisa que o expediente acabou, eles serão embalados por sucessivas peças do cancioneiro maoísta, entremeadas com discursos do próprio Timoneiro e três boletins de notícias cuidadosamente oficiais. Graças aos alto-falantes instalados nas esquinas e nos principais pontos turísticos de Nanjie, ouvir, seja a música, seja a falação, é compulsório.

Não que o fim do expediente deixe ao léu o revolucionário ainda carente. Se necessitar alimento espiritual, terá sempre à mão a contemplação dos muros. Neles abundam outdoors da Revolução Cultural, o movimento que entre 1966 e 1976 levou aos píncaros o fervor por Mao. O esfomeado poderá também correr até a praça do vilarejo e se prostrar bem perto de um branco Mao Tsé-tung, no alto de 6 metros. Aos pés dele não dá, pois a estátua é guardada dia e noite por jovenzinhos em uniforme militar, guardas vermelhos redivivos. En passant, dará uma espiada, à esquerda e à direita, em retratos de Marx, Engels, Lênin e Stálin, e dali sairá a trote para o museu que abriga a casa onde nasceu o menino Mao. Poderá passear pela réplica e, querendo, meditará passo a passo junto às diversas fases da vida revolucionária de seu líder.

Aos praticantes do turismo vermelho, as lojinhas de Nanjie oferecem boas possibilidades de escolha. Ali se compra um Mao, mas também um Buda e um Jesus. É para lembrar, quem sabe, que acreditar é preciso. A troica improvável disputa espaço com relógios digitais que trazem no fundo vermelho uma cabeça de Mao gloriosa, encimada por uma auréola flutuante de luzinhas que vão mudando de cor e de posição. Sai por uns 260 reais e não deve ser adquirido por impulso consumista ou comunista. Antes o turista precisa ver se há espaço no carro ou no ônibus, pois o mimo algo psicodélico tem 1 metro de altura.

Reduto do modelo maoísta, Nanjie é criação da unidade local do Partido Comunista da China. Em escala nacional, como se sabe, as políticas de Mao ficaram tão na moda quanto o espartilho e o voltarete. Hoje o país adota um sistema em que se pode conspurcar comunismo com capitalismo sem angústias ou crises de consciência. Para mostrar como seria se pudesse ter sido, os nostálgicos mantêm pequenas ilhas no país, espécie de parques temáticos que fazem ver, concretamente, como era bom o comunismo que não houve. Nanjie é a primeira e mais famosa dessas comunas pós-Mao. Nelas impera o sistema de coletivização do trabalho, e os operários, bons espécimes arqueológicos, recebem subvenção para oferecer suas vidas pública e privada ao controle do Estado. Oferecer é a palavra, pois conquistar uma vaga em Nanjie exige passar num duro vestibular de fidelidade ao partido.

Quem manda ali é Wang Hongbin, que está à frente da seção local do partido desde 1977. O cigarro, que ele pita à moda revolucionária, segurando-o pelo polegar e dedos médio e indicador, remete a tempos idos, assim como as quatro imagens de Mao em sua sala quase vazia. Em burocratês escorreito, ele explica que não, não existe corrupção na vila, sim, seguiremos em frente, rumo ao progresso definitivo da civilização, apesar, sim, daquela questão do empréstimo do banco.

Em 1985, na contramão dos passinhos mudancistas que a China ensaiava, Wang achou que era hora de acelerar o processo de coletivização dos meios de produção, mas, para fundar o que viria a ser o Grupo NanjieCun, a única alternativa era se valer do contrarrevolucionário método de ir ao banco falar com o gerente. Ele foi, e a resposta que obteve faria o mais sujo dos porcos de Wall Street coçar a pança em devaneio: 150 milhões de dólares.

 

Foi essa bolada (saldo ainda devedor) que financiou as 26 fábricas do grupo, as quais produzem medicamentos, artigos gráficos, cerveja, biscoitos, macarrão instantâneo e aguardente de sorgo de teor alcoólico nunca inferior a 56%. Todos os produtos, sem exceção, chamam-se NanjieCun. Somadas à estrutura do partido e do governo, as fábricas empregam todo o exército de mão-de-obra local, além de 5 mil trabalhadores migrantes.

A certa altura da história, Wang Hongbin percebeu, pelo andar da carruagem, que era hora de apostar na indústria do turismo. Raciocinou mais ou menos assim: se os ocidentais vivem batendo perna por vilarejos medievais, os engravatados de Beijing, a bordo de suas BMWs, bem que poderiam vir conhecer a nossa brava Nanjie. Investiu em hotéis e lojas, e, segundo diz, a vila atrai 400 mil turistas por ano, a maioria chineses.

Quem trabalha em Nanjie tem casa, água, luz, aquecimento, saúde e educação gratuitos. Quem está aposentado também. Os apartamentos, de três quartos, têm mobília sempre igualzinha, para não criar inveja: geladeira, televisor, sofá de madeira e um belo relógio Mao. Até casamento é sempre coletivo. Juntar os trapinhos, só em 1° de outubro, data da fundação da República Popular.

“Viver aqui é mais fácil”, diz Chen Xiu enquanto faz compras no supermercado, onde troca por mercadoria os tíquetes que recebe à guisa de dinheiro. Sim, estão vivinhos da silva os tíquetes de racionamento, aqueles que o governo central distribuía vinte anos atrás. Dinheiro mesmo, só 700 iuans por mês (180 e poucos reais). O salário sobra – já que não compra nada em Nanjie –, mas não costuma ir para a poupança, pois Chen, assim como a maioria, gosta de acreditar que os benefícios estatais jamais cessarão.

A prudência recomendaria começar um pé-de-meia, pois os dias de glória do Grupo NanjieCun parecem ter ficado lá pela década de 90. Muitas fábricas já não atendem às necessidades do mercado. O chefe do Departamento de Propaganda da comuna, Wang Zhengdong, frustrou-se ao organizar uma visita à fábrica de cerveja. Deu com a porta fechada. Em razão da escassez de demanda, ela agora só funciona de quarta a sexta. Pasmaceira idêntica atinge a fábrica de macarrão instantâneo, a menina dos olhos do grupo. “Poucos pedidos”, explicou um constrangido Wang Zhengdong.

O jeito pode ser olhar para a parede, respirar fundo e botar fé nas palavras de ordem: “Tremei, reacionários nacionais e estrangeiros, com nossos esforços incansáveis, nós, o povo chinês, certamente alcançaremos nosso objetivo. Tremei, reacionários nacionais e estrangeiros, com nossos esforços incansáveis, nós, o povo chinês, certamente alcançaremos nosso objetivo. Tremei, reacionários nacionais e estrangeiros…” Agora vai, camaradas.

Janaína Silveira

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