esquina

Matisse, Miró e Stallone Juntos

A nova aposta do mercado internacional de arte

Pedro Schprejer
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2009

Antonina Gmurzynska foi uma colecionadora e negociante de artes apaixonada pela avant-garde do Leste Europeu do século passado. Em sua missão de conferir a Rodchenko, Kandinsky e Malevich o prestígio que mereciam, vasculhou a Europa em busca de obras deles até então pouco reconhecidas. Estava ciente de ter descoberto uma pequena mina de ouro. Em 1965, ela inaugurou sua própria galeria em Colônia, na então Alemanha Ocidental.

Templos da sofisticação, as duas sedes atuais da Galerie Gmurzynska nas cidades suíças de Zurique e St. Moritz já ostentaram em suas paredes obras de Picasso, Monet e Degas, entre outros. No início de dezembro, outro nome de peso veio somar-se a este casting: Sylvester Stallone.

Acompanhado de um guarda-costas, Stallone esteve presente à Art Basel Miami Beach 2009, a maior feira de artes americana, realizada entre os dias 3 e 6 de dezembro, na Flórida. O público, ao se deparar com o homem corpulento, de paletó preto, gravata roxa e óculos escuros, deve ter tido a sensação de que algo estava fora do lugar. Não se tratava de uma performance de arte contemporânea: rodeado por jornalistas, o ator, em carne, osso e músculos, exibia orgulhoso algumas das obras que pintara ao longo de trinta anos dedicados à arte (Stallone é um ferrenho colecionador, com obras de Rodin, Monet, Dali e Warhol em seu acervo pessoal). No estande da Gmurzynska, os quadros do ator dividiam espaço com pinturas de Yves Klein e do colombiano Botero, um de seus ídolos.

Stallone batizou sua exposição de The Electric Burst of Creativity (A Explosão Elétrica da Criatividade).  Em seu primeiro vernissage, Sly – apelido carinhoso pelo qual o ator é conhecido nos Estados Unidos – foi quase tão lacônico quanto seu personagem John Rambo: respondeu à meia dúzia de perguntas dos repórteres e desapareceu. Como qualquer artista que se preze, deve se sentir incomodado ao dar explicações sobre  sua obra. “Não diria exatamente que tenho talento. Eu não estou pintando apenas por pintar. Quero ser verdadeiro”, tentou explicar. Humilde, contou que as telas, até então, haviam servido exclusivamente como “presentes para parentes”.

Antes mesmo de a feira abrir para o público, dois quadros assinados pelas mesmas mãos que castigaram adversários em Rocky já haviam sido arrematados. Um dos compradores foi o bilionário de Las Vegas Steve Wynn, que levou para a sua coleção – uma das mais valiosas do mundo, com obras de Cézanne, Picasso, Rembrandt e Van Gogh – as telas Toxic Superman e Trapped Ideals, adquiridas por um total de 90 mil dólares. Nada mal para um estreante no mercado – embora um Yves Klein na parede ao lado estivesse saindo pela bagatela de 12 milhões de dólares.

 

A exposição tornou-se um assunto de primeira importância para a imprensa. O Daily Mail de Londres a encarou com seriedade, definindo as telas como “expressionistas” e “muito coloridas”. Isabel Lafont, crítica de artes do El País, qualificou o talento de Stallone nas belas-artes como “não desdenhável”.  Em tempo real, o Twitter de artes da revista Time Out sintetizou o que ocorria em Miami Beach: “Vendas, sol e pinturas de Sly Stallone.” Mais debochado, o tabloide New York Post e o site da rede NBC de Miami brincaram: “Rocky acerta a tela” e “Stallone vence por nocaute na Art Basel”.

Trapped Ideals é um autorretrato melancólico e caricatural, com uma estética pop. Na tela, o pintor realça os olhos caídos e a boca torta – fruto de uma paralisia facial ocorrida no parto. Já Toxic Superman mistura um caótico borrão de cores com a figura deformada de um homem forte, que parece usar o uniforme do Super-Homem. O pintor explicou que a obra, concluída em 1991, expressa “os altos e baixos de Hollywood”. “A sociedade faz com que seja difícil para um homem tornar-se um homem”, disse, enigmaticamente. Em seguida, Stallone, que se especializou em interpretar brucutus como Rocky, Rambo, Falcão e Cobra, sentenciou: “O macho americano está em extinção.”

A pintura parece ter levado Sly, filho de um cabeleireiro e uma dançarina italianos, a desfrutar dos círculos mais aristocráticos. Na feira de artes, ele permaneceu o tempo todo colado à princesa Michael de Kent, integrante da família real britânica e consultora da Galerie Gmurzynska. Convicta do talento de seu mais novo protegido, a princesa declarou que um quadro de Stallone não é para quem quer, mas para quem pode. Curiosamente, poucas horas antes da abertura da feira, agentes federais haviam irrompido pelos salões para confiscar alguns quadros que a Galerie Gmurzynska pretendia expor. As obras foram apreendidas para quitar uma dívida de 767 mil dólares com a galeria nova-iorquina Edelman Arts. Nenhum Stallone foi levado.

Pedro Schprejer

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