diário

Memórias da Ilha Grande no tempo do cárcere

Os barcos não atracavam, descia-se nos ombros dos presos

Carlos Sussekind
Carlos Sussekind de Mendonça
Carlos Sussekind de Mendonça FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Nas 30 mil páginas do diário que o promotor CARLOS SUSSEKIND DE MENDONÇA chegava a escrever três vezes por dia, não há uma palavra sobre o conteúdo do inquérito que o levou à Ilha Grande, quando o presídio era administrado pelo médico Hermínio Ouropretano Sardinha. Mais um sinal do rigor que ele punha nessas anotações, guardadas em 84 cadernos que a família vai, aos poucos, digitalizando. Pelo que conta e o que cala nestas 65 horas de viagem com o Conselho Penitenciário ele dá, 56 anos depois, a medida de uma época. Sardinha, por sinal, virou nome de casa de cultura na praia do Abrahão em 1997.

 

7 de junho de 1950

Meu nervosismo não melhora com o tempo. Levo para a mesinha de cabeceira o meu “Ângelus” luminoso. De meia em meia hora, fico atento na marcha dos ponteiros. Tinha marcado o despertador para as cinco horas. Já às quatro horas, porém, estou de pé. Manhã sombria. E fria. Na meia-luz do gabinete, vejo um bilhete do Caíco: “Papai! Não enjoe. Não naufrague. Não demore! Votos do filho muito agradecido pelos ‘extraordinários’ encontrados à noite”. É que deixei 30 miseráveis contos [de réis] para os três dias possíveis de ausência.

Tomo banho. Visto-me. Barbeio-me. Tomo, apenas, uma xícara pequena de chá puro. E saio, levando a capa de borracha e a malinha de mão. Às cinco horas, passa um ônibus Estrada de Ferro. Tomo-o. Logo num dos primeiros bancos, o Mário Acioly. Sentamo-nos juntos. Alegre. Barbeado. Novo. Um prodígio de conservação, física e moral.

Na Central, às seis horas. Tomamos café com pão. Eu tomo, ainda, dois comprimidos contra o enjôo. E compro um frasco pequenino de “Elixir Paregórico”. Depois, vamos aos jornais. Às seis horas, chega o Lemos Brito. De ar cansado. Vermelho. É visível o sacrifício que faz com essas matinadas. Mas, domina-se e pilheria, como se nada fosse. É o Lemos Brito que compra as passagens para o trem, quase vazio, da Central. Onze e oitocentos por pessoa, da Estação Pedro II até Mangaratiba.

A locomotiva elétrica corre de verdade. Um prazer, a viagem. Lindo, o despertar dos subúrbios. Colegiais, militares e trabalhadores em todas as estações. Um arzinho gelado entra pelas janelas. Vou lendo o relatório de 1944, do Ouropretano Sardinha, diretor de uma das colônias da Ilha, a Cândido Mendes: a outra é a Penitenciária Agrícola de Dois Rios, que tem à frente um coronel da Polícia Militar.

 

10H

Chegamos a Mangaratiba. A viagem será feita em lancha. Mas lancha moderníssima, que custou 1.400 contos. Chama-se Ministro Adroaldo. Cinzentinha. Nova. Uma beleza! Eu me sento, com o Mário Acioly, no banco dos fundos. O Lemos Brito põe uma boina caricata e vai para a frente.

São nossos companheiros de viagem vários funcionários do Ministério da Justiça. São os encarregados do inquérito administrativo a que responde o diretor da Colônia Candido Mendes, o Sardinha. Conversamos pouco. O Mário Acioly prefere dormir. Eu acho melhor andar, de um lado para o outro. O Lemos Brito já adota outro expediente: dirige a lancha, muito compenetrado, olhos fixos no horizonte, bússola e sextante à frente, mãos firmes no leme.

Durante hora e meia, tudo vai às mil maravilhas. Trepidação pequena. Jogo perfeitamente suportável. De repente, porém, vejo “cações” ao longe. E noto o mar já diferente. Há ondas, não muito fortes, mas bastantes para inquietar. A lancha entra a fazer ziguezagues. As sacudidelas se fazem mais sensíveis. “É o canal” – informa um marinheiro. Aí, estive quase por “devolver” os cafés e o sanduíche. Mas dominei-me.

Dentro em pouco, a Ilha Grande apareceu, com suas praias de areia escura e seu casario branco. Outras ilhas menores perto. Prancha com várias pessoas, automóveis. Crianças uniformizadas. Saltamos faltando dez para o meio-dia. Sol forte, a pino. Nenhum enjôo. Mas, bastante cansaço. Vamos a pé até a casa do diretor da colônia, o dr. Ouropretano Sardinha. Já o conhecia do Conselho Penitenciário. Baixinho. Nervoso. Avelhantado. Médico. Menos de 50 anos aparentes.

Seremos seus hóspedes, em casa. Por quantos dias, não sabemos. O programa é visitar as duas colônias. Nos dois lados da Ilha. Tudo depende do tempo de que necessitarmos. A senhora do Sardinha é uma pessoa encantadora. Foi bonita, possivelmente. Deve ter entre 35 e 40 anos. Morena. De olhos negros e grandes. Boca bonita, mas de dentes maus. Riso simpático e bom. O almoço que nos serve é magnífico. Maionese. Galinha assada. Bifes. Doces feitos em casa. E vinhos finos. A sesta é feita na varanda, em chaises longues. A vista mais parece Paquetá ou Icaraí.

A conversa gira em torno da proeza náutica do Lemos Brito, a quem o Mário Acioly substitui o tratamento de “professor” pelo de “comodoro”. Notase, todavia, que tanto o Sardinha como a mulher estão preocupados com o inquérito. E isso é altamente constrangedor para todos.

 

15H

Vamos para a colônia. Em três automóveis. Nós na frente com o Sardinha. A comissão de Inquérito, depois. Por último o vice-diretor, o secretário e o médico. A impressão da visita é como todas as outras. Tudo a postos. Tudo em ordem. De encomenda.

Nota-se, todavia, mais tristeza do que no comum dos presídios. Todos os presos trabalham na lavoura. Isso lhes dá um aspecto sadio. Todos são corados. Mas há, no olhar de todos, uma expressão de mágoa ou de revolta. Visitamos os dormitórios. As camas não são más. A roupa, todavia, está longe de ser limpa. Os presos não usam mais uniformes zebrados. Mas continuam com uniformes lisos, de uma cor só, escura.

Campeia a homossexualidade. Uma das camas tinha travesseiros de fronhas coloridas. E cortinados de filó! Mais ainda: ao lado, na mesa, frascos de brilhantina e de perfume. E uma lâmpada vermelha… O apelido do preso era “Bolo Fofo”. Às quatro horas — depois de percorrermos vários dormitórios — pátios de recreio — oficinas de padaria e cozinha — nenhum trabalho industrial — só lavoura — fomos assistir à concentração dos presos, chegados em turmas do campo. Ansiosos todos por ouvir a palavra do Lemos Brito, que está nos seus bons dias. Expõe, com muita clareza, o que foi o decreto do Indulto do Ano Santo, o que tem sido o trabalho do Conselho, a luta contra o juiz das Execuções, a demora na remessa dos processos e das folhas de antecedentes, etc. Por fim, exorta-os à paciência e à confiança. Há palmas, muitas palmas.

Fala, depois, o intérprete dos presos. Pelego autêntico. De avental branco. Lê um agradecimento servil ao diretor, aos guardas, ao Conselho, a todos. Como era natural, surge, a seguir, o orador avulso, livre, inesperado. Barra a figura do “pelego”, fazendo uma porção de queixas. O mal-estar é geral. Há um sussurro surdo entre os presos. Mas tudo fica por isso mesmo.

Desmanchada a “forma”, sofremos, todos, os assaltos individuais. Há os que se limitam a pedir providências quanto aos processos. Há os que se aventuram a formular queixas concretas. Há, finalmente, os que pedem dinheiro para cigarros e doces. Ficamos até seis horas tomando notas, prometendo, ouvindo…

 

19H

Recolhemos à casa do diretor. Todos sentimos, em silêncio, um começo de saudade. O Sardinha pergunta se queremos mandar telegramas. Aceitamos mandar um só, coletivo. Depois, ouvimos rádio. Afinal, vamos jantar. O mesmo acolhimento encantador à mesa. Comida simples, mas gostosa. Sem vinhos. Com cerveja e guaraná. Com doces, com café, excelentemente feito.

De volta à sala, o Sardinha propõe irmos ver, no cinema local, os documentários da colônia. O Mário Acioly se desculpa, alegando dormir cedo. Vamos, eu e o Lemos Brito. Na salinha acanhada de projeção, somos apresentados a duas visitas. Anunciam-nos jornalistas do O Globo. Felizmente não são. A mulher é redatora da Revista do Globo. Gaúcha. Edith Hervé. O homem… a acompanha. Não diz o que é, nem quem é. Cara boa. Simpática. Conversa ótima. Mas esquisitos, ambos. Os documentários são paupérrimos.

 

22H

Voltamos, pela praia. Já há luar. Mas ainda chove. Uns pingos grossos de alguma nuvem retardatária. A redatora da Revista do Globo me pergunta se eu sou parente do Viana Moog. Digo-lhe que não. E acrescento: “O Viana Moog é uma beleza de homem!” E ela calmamente: “E o senhor também é!” Depois pergunta-me qual o parentesco que tenho com “o escritor Sussekind de Mendonça, o da ABDE.” Quando digo que sou o próprio, espanta-se. E é uma dificuldade para deixá-la em frente à casa em que está hospedada, com o “acompanhante”. Francamente, me acontece cada uma…

 

8 de junho

Não durmo logo, nem durmo bem. Em todo caso, descanso o corpo.

Vou com o Sardinha ver a horta da Colônia. No caminho, ele me conta que, de madrugada, quando todos dormíamos, um preso morrera. Estava lá, estirado sobre uma mesa tosca, os braços cruzados sobre o peito, aguardando o caixão que os companheiros lhe faziam. Morte súbita. De coração. Isso impedira qualquer comunicação. Aliás, de sua ficha, na Colônia, nada consta quanto à possível família que pudesse ter. Somente os pais, já mortos há muito tempo.

Linda, exuberante, a mata da Ilha. Enormes extensões de terra por explorar. Vegetação incrível. Panoramas soberbos. E, em toda a parte, corrente, farta, pura, geladinha, uma água de tentar. Nunca vi água mais pura. Diz o Sardinha que, pelo exame, os técnicos do Ministério haviam chegado à mesma conclusão. As estradas estão bem conservadas. Ligam, tanto para o pedestre como para os veículos, as duas Colônias. Cortam a ilha imensa pelo meio, numa extensão de seis léguas.

Do alto de uma delas, se vê a Colônia Cândido Mendes, baixinha, com seu casario perdido entre o mar e a mata. Não é uma ilha — é um continente. A horta era uma beleza. Enquanto o Sardinha esteve afastado da direção, o funcionário subalterno que o substituiu — mulato analfabeto, casado com uma preta — dizimou-a. Nos vinte e poucos dias que já tinha depois do seu regresso, a plantação renascia. E que riqueza! Que feracidade! Que altura tinham as espigas de milho! De que tamanho os tubérculos! Que batatas! Que aipins!

Voltei maravilhado e faminto. A caminhada me deixara as pernas trôpegas. E o estômago exigente. Já com o Lemos Brito e o Acioly, tivemos um “desjejum” primoroso, com biscoitos, geléia, bolo e o pão fresco, feito na própria Colônia pelos presos.

 

10H

Iniciamos, em jeep, a marcha para a Colônia de Dois Rios. Só então tivemos a verdadeira percepção da enormidade da ilha. Tocando, em velocidade, levamos hora e meia para varar a distância. E os panoramas se sucediam numa riqueza incrível!

O outro lado da ilha é muito mais adiantado. O próprio mar é diferente. É agitado. É revolto. É Copacabana. Na Colônia Penal Cândido Mendes, parece uma lagoa. Tanto lhe quebra a ira das vagas a enseada que a protege, a enseada do Abrahão. Em Dois Rios não há porto de desembarque. As embarcações não chegam até a praia. Desembarcase nos ombros dos sentenciados.

O diretor é um homem inteiramente diferente do Sardinha. Este é um intelectual, conhecedor do problema penitenciário, médico, culto, lido. Ele é um coronel da Polícia Militar. Formado, ou deformado, no Amazonas. Cara de índio manso. O Lemos Brito lhe dera 80 anos. Ainda não tem 65. Acolheu-nos com muita simpatia. Mas não tem trato. Não tem polimento nenhum.

Visitamos, com ele, pavilhões e oficinas. Tudo muito mais perfeito do que na outra Colônia. Mas vazio de alma. A organização, porém, deixa muito a desejar. Não se pode saber a que critério obedecem as transferências dos sentenciados. Dir-se-ia que ao puro capricho da politicalha daqui. Basta dizer que um condenado a três anos, cuja pena terminará no dia 11 deste mês, foi para lá no dia 2! E, de seus assentamentos, nada consta a respeito do início e da terminação da pena!

A farmácia é bem sortida. Mas o farmacêutico foi removido. E não se pode substitui-lo por um simples “prático”, porque as lotações burocráticas desconhecem essa categoria no Ministério da Justiça! Há quase um mês, por conseguinte, a farmácia está virtualmente parada. Na enfermaria, entretanto, para 500 sentenciados e mais de 100 funcionários, com cerca de 300 pessoas das famílias respectivas, só havia três ocupantes – índice incrível, que bem mostra a salubridade do lugar, que ainda é o que há de melhor ali.

Horrível a impressão dos presos, amontoados no refeitório para um almoço incrível: um único prato de feijão, onde há pedaços de macarrão e alguns tacos de carne. Imundos os presidiários. Alguns, descalços. Todos de fisionomia carregadas, soturnas. Ouviram o discurso do Lemos Brito alheios como se se tratasse de um enviado de Marte. Quando ele se referia à “alimentação razoável”, uma besourada surda correu toda a sala. Pensamos que se revoltariam ali mesmo.

Quando debandaram, cobriram-nos de pedidos. Alguns de dinheiro. Na sua maioria, entretanto, apenas de justiça, de misericórdia. Mais de 200 já estão com suas penas cumpridas. Só não são postos em liberdade pelos tropeços da burocracia. Isso é um crime! Uma vergonha, que não pode continuar assim.

 

14H

Voltamos à Colônia Cândido Mendes. O ambiente acolhedor dos Sardinhas ainda nos proporcionou um café delicioso com bolos. Às 3 horas, já estamos na lancha Ministro Adroaldo. O mar estava calmo. A direção do Lemos Brito já não oferecia perigo. A viagem correu, portanto, calma, imperturbável.

Vim, todo o tempo, conversando com a escritora Edith Hervé. É comunista “no duro”. Filha de professor da Faculdade de Medicina, isso não a impediu de amasiar-se com o homem em cuja companhia estava. Esteve presente no Congresso da Bahia. Sobre ele escreveu para a Revista do Globo. A crônica nada revela de seu talento. É puramente noticiosa, informativa. Entretanto, foi à Colônia para estudar o meio, observar os tipos, pois pretende escrever um romance sobre a “Revolução Vermelha”, de 1935. Antes de chegarmos, pede-me o endereço e o telefone. E faz-me prometer um encontro. Marco a Livraria Freitas Bastos, como podia marcar outro qualquer local, pois não pretendo ir. Não quero mais complicações na minha vida.

 

22H

Da Central, telefono para casa. Atendeme a empregada. Gilda está fora, com Irene. Os filhos, também. Chego ao Leme às 10 horas. Encontro a porta ainda aberta. Improviso um jantar com ovos e presunto, que vou comprar. Festa de todos, ao voltar. Ana Maria me garante que sentiram saudades. Eu acredito porque as senti também. Vamos dormir depois das 11 horas.

Carlos Sussekind

Carlos Sussekind foi escritor, jornalista, jurista e criminologista, tendo encerrado a carreira como procurador-geral do Estado da Guanabara

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