tempos da peste

Meu pirão primeiro

O empenho dos líderes evangélicos para cobrar o dízimo em plena quarentena

Thais Bilenky
Silas Malafaia, que já fez merchandising da sanitização, prega em sua igreja para as redes sociais: se Trump declarou que 15 de março era Dia Nacional da Oração, Bolsonaro então declarou que 5 de abril seria Dia Nacional do Jejum
Silas Malafaia, que já fez merchandising da sanitização, prega em sua igreja para as redes sociais: se Trump declarou que 15 de março era Dia Nacional da Oração, Bolsonaro então declarou que 5 de abril seria Dia Nacional do Jejum CREDITO: LEO CORREA_AP PHOTO_GLOW IMAGES

“Povo abençoado do Brasil, quando venho criticando essa quarentena de meia tigela feita por governadores e prefeitos é porque grande parte da população e o povo pobre estão à mercê do coronavírus.” Quem fala é o pastor Silas Malafaia, de 61 anos, num vídeo publicado na sua página no Twitter, onde tem 1,4 milhão de seguidores. Defensor aguerrido do presidente Jair Bolsonaro e opositor feroz do isolamento social, ele anuncia no vídeo sua solução para a Covid-19: “[No Brasil] não é feita uma coisa que foi realizada lá na China, com grande eficácia, chamada sanitização. Não é dedetização. É um produto que, onde chegar, o coronavírus, outros vírus, bactérias e fungos morrem.”

Malafaia continua: a sanitização pode ser feita em ônibus, metrôs, trens, ruas e avenidas por uma empresa que “trouxe essa tecnologia da China e que tem o certificado da Anvisa”, referindo-se à Agência Nacional de Vigilância Sanitária. E assegura que a técnica já foi testada na sua igreja, a Assembleia de Deus Vitória em Cristo, no Rio de Janeiro.

Enquanto enumera as vantagens do serviço, surge no vídeo a imagem de homens borrifando produtos com máquinas de cor branca da marca Stihl. “Não sou dono de empresa nenhuma, quero deixar aqui bem claro”, alerta o pastor. “Você vai ligar para esse telefone [surge um número na tela] e vai agendar. […] Pode ser pago em seis vezes, tá certo?”

No vídeo publicado 23 vezes no Twitter, entre 6 e 8 de abril, Malafaia ainda profetiza, para animar os espectadores: “Declaro que está chegando um tempo de prosperidade que nunca tivemos na nossa nação.” Ele, entretanto, não deixa claro quando começará essa idade de ouro, que contraria a opinião de uma maioria dos especialistas, inclusive do governo Bolsonaro. Segundo eles, uma enorme retração da economia deve ocorrer em todos os países.



A piauí ligou para o número de telefone indicado pelo pastor. A recepcionista atende: “SAS Sanitização – Serviços de Soluções Ambientais e Sanitárias.” Indagada sobre há quanto tempo a empresa existe, ela responde: “Só um momento.” Quarenta e cinco segundos depois, retorna: “Senhora, obrigada por aguardar. Cinco anos.” A moça explica que, “na verdade”, o serviço de sanitização “é contra qualquer tipo de bactéria, fungos, e agora incluíram o coronavírus”. Outros vírus já estão no pacote também – ela se lembra de informar em seguida. Quais? “Só um momento.” Um minuto mais tarde, retoma a ligação: “Senhora, além do corona, ácaros e fungos. Agora, as bactérias específicas, eu não sei. O técnico que vai na sua casa pode explicar para a senhora.”

A Anvisa, porém, informou que “até o momento não existem saneantes [desinfetantes] aprovados especificamente para o novo coronavírus, pois ainda não é possível testar os produtos em laboratório com a amostra do mesmo”. A agência lembrou que “é possível deduzir, porém, que os desinfetantes de uso geral, além do álcool na concentração 70% e do hipoclorito de sódio (água sanitária), sejam eficientes por ‘matarem’ microrganismos semelhantes ou até mais complexos”.

Há riscos para a saúde em se expor a fórmulas mirabolantes de limpeza, alertou a Anvisa. “Importante que seja verificado do que se trata essa sanitização, qual a forma da realização do serviço e que produtos utiliza. As soluções de produtos aplicadas de qualquer forma podem intoxicar as pessoas.”

Ao ser informado de que a Anvisa negou ter dado certificado para qualquer empresa de sanitização que ofereça serviços contra o novo coronavírus, Malafaia começou a rir. “Então estou igual a marido enganado. O cara fala que é evangélico, a gente acaba acreditando. Não pedi documento nenhum, para ser honesto”, respondeu. Minutos depois, telefonou dizendo que o dono da empresa garantiu ter o certificado da Anvisa e encaminhou alguns documentos sobre o serviço. Nenhum dos papéis tinha sido emitido pela agência.

O pastor disse que sanitizou os 2 800 m2 da igreja em que atua sem pagar os 62 mil reais que seriam cobrados pelo serviço. Em troca, fez os anúncios nas redes sociais.

 

No Brasil, a fim de frear o avanço do novo coronavírus, todas as unidades da federação adotaram algum tipo de restrição à circulação das pessoas. Estados como São Paulo e Rio de Janeiro, mais atingidos pela pandemia, impuseram a quarentena à população e o fechamento de todos os estabelecimentos e serviços não essenciais. Como os decretos não incluíram os templos religiosos entre os locais que podiam continuar funcionando, as igrejas tiveram que fechar as portas. Lideranças evangélicas imediatamente levantaram a voz contra a determinação. Malafaia foi o mais ruidoso deles: disse que não cumpriria a ordem e manteria seus cultos. Acabou, porém, cedendo às determinações oficiais. O Ministério Público entrou na época com diversas ações, inclusive contra Malafaia, e em São Paulo chegou a obter uma decisão judicial que obrigava os templos a suspender totalmente as atividades. Mas a decisão foi derrubada pela Justiça.

Por fim, expoentes das igrejas se movimentaram mais uma vez e apelaram ao presidente da República, que então decretou a atividade religiosa como serviço essencial. Passou, assim, a vigorar um meio termo, ao menos nas igrejas de maior visibilidade: os cultos com grande número de pessoas foram suspensos, mas continuaram a ocorrer atendimentos pastorais individualizados e reuniões com pouca gente.

Com a iniciativa, Bolsonaro conseguiu os dividendos políticos que pretendia: manter o apoio de líderes evangélicos ao seu governo.Segundo o Instituto Datafolha, os evangélicos representam hoje 31% da população brasileira – daí sua importância eleitoral. São quase 70 milhões de pessoas, distribuídas equilibradamente pelas diferentes regiões do país.

Os afagos das lideranças religiosas ao presidente seguiram-se ao decreto que considerou a atividade de igrejas um serviço essencial. No Domingo de Páscoa, 12 de abril, Bolsonaro participou de uma transmissão ao vivo pela internet com pastores evangélicos, um bispo e um padre católicos e um rabino – e foi coberto de elogios. Até aquele dia, o novo coronavírus já havia matado 114 mil pessoas no mundo e 1 223 no Brasil.

Desde o início da pandemia, Bolsonaro, coerente com sua constante preocupação eleitoral, demonstra temer menos o vírus que os efeitos dele sobre o PIB, que podem pulverizar sua popularidade e acabar com suas pretensões para 2022. O discurso do presidente de que a preocupação com a saúde pública não pode implicar a interrupção da atividade econômica, é bastante popular entre os pastores evangélicos. E eles passaram a repetir o argumento nas pregações que têm feito na internet – nas quais não violam o distanciamento social –, insistindo que há muito alarmismo em relação ao novo coronavírus.

Os pastores também estão preocupados com a manutenção de suas igrejas. Alegam que, sem o dízimo, que consiste num repasse mensal de 10% dos proventos dos fiéis, e sem as “ofertas”, como são chamadas as doações espontâneas extras, eles terão dificuldades para fechar as contas dos templos. Nos vídeos, os pastores estão incentivando as pessoas a manter suas contribuições em dia com a igreja. Mas a situação também está difícil para os fiéis, pois muitos deles perderam sua fonte de renda. Quase a metade dos evangélicos (48%) tem renda familiar de até dois salários mínimos; 38%, de dois a cinco; 7%, de cinco a dez; e 2% recebem mais que dez salários mínimos, segundo o Datafolha.

 

Igrejas evangélicas de bairros populares e favelas mudaram pouco o seu cotidiano. Na comunidade de Acari, no Rio de Janeiro, onde vivem cerca de 22 mil pessoas (nos cálculos do IBGE, de 2010), os cultos realizados ao menos três vezes por semana foram mantidos em grande parte das cerca de duzentas igrejas evangélicas instaladas no local. A necessidade de preservar a arrecadação explica por que elas continuam a realizá-los, contrariando as recomendações sanitárias. Os mais carentes têm dificuldades para enviar suas contribuições por internet, uma vez que dispõem de pouco ou nenhum acesso à rede eletrônica ou ao sistema bancário.

Walber Generoso, de 45 anos, conta que na Igreja Restaurar Vidas, onde ele atua como pastor auxiliar, as portas ficaram fechadas durante quinze dias, entre final de março e início de abril. Depois, as atividades foram retomadas parcialmente, com cultos presenciais só aos domingos e pela manhã, e não mais à noite. “Entendemos que o vírus, como não circula ou circula menos com o calor, nesse horário fica melhor e mais seguro”, disse. Não há qualquer evidência científica de que o vírus prefira o frio.

Outras igrejas não cuidaram de fazer adaptações, segundo o pastor. “Algumas com matrizes fora de Acari foram obrigadas a abrir, porque fechadas não geram renda”, afirmou. “É uma situação muito complicada. Vemos igrejas induzindo pessoas, dizendo que não é nada, mas quero saber se vão arcar com a responsabilidade mais tarde, se vier a acontecer mortes em suas comunidades.” Generoso disse que a situação se complicou ainda mais em Acari com o fim do toque de recolher decretado no início da pandemia pelo comando do tráfico de drogas local. As pessoas se sentiram mais seguras para ir aos cultos à noite.

Em meados de março, a mulher de Generoso apresentou sintomas de Covid-19. Depois, ele próprio começou a sentir falta de ar, febre e dores no corpo. Nenhum dos dois foi ao hospital, uma vez que a orientação geral tem sido para que as pessoas permaneçam em casa se os sintomas não forem graves. O pastor e a mulher, que nunca tiveram confirmação do diagnóstico, se recuperaram. Mas a mãe de Generoso, de 76 anos, caiu doente, foi hospitalizada e, uma semana depois, morreu.

“Na segunda-feira, 6 de abril, encontrei uma senhora conhecida nossa indo à igreja Assembleia de Deus Ministério Todos os Santos. No domingo seguinte, quando eu estava indo para o enterro da minha mãe, a filha dessa senhora me falou que ela estava internada na UTI. Quer dizer, ela já estava infectada e frequentava a igreja mesmo assim, porque não sabia”, disse Generoso. Segundo o pastor, em Colégio, bairro vizinho, morreram sete pessoas de uma mesma igreja.

O vice-presidente da Assembleia de Deus Todos os Santos, pastor Samuel Jorge, disse que a orientação dada às 72 filiais é para cancelar as atividades. Nos templos menores, que não conseguem fazer transmissões online, a determinação é encurtar os cultos para uma hora e limitar o ingresso a no máximo cinco fiéis por vez. “Mas é mais difícil controlar as atividades dentro de favelas”, afirmou Jorge. “Isso aí é notório. O governo controla na rua. Lá em cima é outra história.” O pastor negou que haja algum caso de pessoa infectada que tenha frequentado os seus templos.

Generoso contou que, em algumas igrejas, os pastores estão dizendo aos fiéis que, caso não deem o dízimo, Deus vai amaldiçoá-los. “A falta de conhecimento faz com que se induza os liderados ao erro. Outros fazem de caso pensado, levando a pessoa quase ao desespero”, criticou. “Tem pastores muito gananciosos, que só pensam mesmo no dinheiro. Não se preocupam com vidas. É porque muitas igrejas se tornaram empresas, e o empresário precisa de quê? De renda.”

Ele disse que, em sua igreja, a contribuição é voluntária e que, antes do início da quarentena, o pastor principal marcou uma reunião com os fiéis para explicar a situação. A igreja arrecadou mais do que o de costume.

 

Se a quebradeira ameaça as pequenas igrejas, o mesmo não se pode dizer das grandes denominações. Especializada no mundo evangélico, a professora de sociologia Christina Vital da Cunha, da Universidade Federal Fluminense, explica que nas igrejas maiores, apesar das estruturas mais onerosas, os ganhos obtidos pelas redes de tevê, editoras e outras empresas associadas conseguem bancar a manutenção dos pastores e das sedes.

Além disso, há as arrecadações online, que já eram praticadas mesmo antes da pandemia. “O culto presencial é importante para a arrecadação das igrejas maiores, mas bem mais importante para as menores”, afirmou Cunha. “Mas, se são as pequenas as mais fragilizadas, por que vemos os grandes líderes nesse apoio tão engajado com Bolsonaro? Mais uma vez são questões políticas e econômicas travestidas de religiosas e, às vezes, somadas a elas. A maior parte desses líderes religiosos é constituída de empresários de diferentes segmentos. A pandemia não provoca um baque para suas igrejas, mas para as finanças de suas outras empresas.”

Malafaia, por exemplo, é dono de pelo menos quatro empresas, que, juntas, detêm capital social de quase 4,5 milhões de reais, de acordo com registros de CNPJ da Receita Federal. A mais valiosa delas, a Central Gospel, que vende livros (Bíblias, sobretudo), CDs e DVDs, acumula uma dívida de 16 milhões de reais, motivo pelo qual a empresa entrou em recuperação judicial no ano passado. “Sem dúvida, do ponto de vista financeiro, a vida de um empresário na pandemia é mais difícil que a de um pastor”, comentou Malafaia. Ele disse que na sua igreja a arrecadação caiu de 30% a 40%, mas os dízimos e ofertas continuam a acontecer (ele não quis informar valores). O salário dos funcionários foi mantido em dia, segundo o pastor, porque ele adiou o pagamento dos aluguéis. Na editora Central Gospel, porém, só foi possível quitar a folha de pagamentos de abril no dia 22, e o resto das despesas foi colocado em segundo plano.

A adesão de certos pastores a Bolsonaro também pode ser explicada por motivos fiscais. A Igreja Internacional da Graça de Deus possui a maior dívida com a Receita Federal entre todas as entidades religiosas do Brasil, um total de 127 milhões de reais, como revelou no ano passado a Agência Pública, uma entidade de jornalistas independentes que obteve o dado ao recorrer à Lei de Acesso à Informação. As entidades religiosas em geral devem 460 milhões de reais ao fisco, a maior parte decorrente de pendências previdenciárias. Do total, cerca de 80% é dívida de organizações evangélicas.

A Agência Pública ainda informou que, apesar das dívidas, essas instituições aumentaram em 40% sua arrecadação nos últimos dez anos, atingindo uma soma de 674 milhões de reais em 2018, sendo suas principais fontes de receita as doações de pessoas físicas e transferências governamentais por serviços, tais como a assistência social.

 

O capixaba Romildo Ribeiro Soares, de 72 anos, mais conhecido como R. R. Soares, fundador da Igreja Internacional da Graça de Deus, passou quatro horas diante da câmera, no dia 26 de março, dizendo aos seus seguidores que a cura da Covid-19 está na força da fé e que, para tanto, é preciso contribuir com a “obra de Deus”.

Pastores e bispos evangélicos têm uma certa aversão à ciência, mas R. R. Soares não dispensou a máscara hospitalar ao gravar o programa, que se chamou S.O.S. da Fé e foi exibido no canal de tevê aberta de sua propriedade, a Rede Internacional de Televisão (RIT), e nas redes sociais da igreja.

O programa repetiu as posições de Bolsonaro quanto à Covid-19 e à quarentena. Hidroxicloroquina, substância ainda em fase de testes para o tratamento do novo coronavírus? “Mostra-se a maior esperança em encontrar um remédio para combater a pandemia”, disse o locutor de um quadro jornalístico inserido no programa. Igrejas abertas durante a quarentena? “Até que enfim tomaram a decisão sensata”, comemorou R. R. Soares. Isolamento social? “Que volte logo à normalidade. Não podemos ficar sem suprimentos para as pessoas e trabalho para os trabalhadores”, defendeu o religioso. “É só espaçar [a distância entre as pessoas] mais um pouquinho.” O pastor está habituado à linguagem da televisão desde a década de 1970, quando apresentava programas da Igreja Universal do Reino de Deus, que fundou com seu cunhado, Edir Macedo, antes de romper com ele.

Após comparar a pandemia ao leão domado pelo rei Davi, R. R. Soares incentivou o espectador: “Nós temos que reagir, pessoal. Pegar o nosso cajado, a palavra de Deus, e partir para cima do inimigo. Você que está em casa com febre alta, daqui a pouquinho vou orar para você. Não importa se é o corona ou se foi a carona do diabo que você pegou, Deus vai libertar você.” E acrescentou: “Telefone para seus amigos e fale: ‘Ligue na RIT.’”

Além da Rede Internacional de Televisão, os negócios de R. R. Soares incluem o canal por assinatura Nossa TV, uma editora, uma rádio, uma gravadora e uma produtora de filmes, entre outras empresas. Num levantamento feito em 2013, a revista norte-americana Forbes situou R. R. Soares como o quarto líder evangélico mais rico do país, com patrimônio de 250 milhões de reais. Malafaia ficou em terceiro lugar, com 300 milhões de reais, atrás de Valdemiro Santiago, líder da Igreja Mundial do Poder de Deus, dono de 400 milhões de reais. A primeira posição ficou com o chefe da Igreja Universal do Reino de Deus, bispo Edir Macedo, cujo patrimônio, na época, foi estimado em 2 bilhões de reais. Os líderes religiosos contestaram o levantamento da Forbes.

No S.O.S. da Fé, R. R. Soares, depois de pedir para o público ficar “um pouquinho frio com essas notícias que a imprensa está dando” e minimizar o perigo de sair à rua, dedicou quatro minutos à explicação sobre como fazer transferências bancárias online e por que fazê-las. “Com as igrejas praticamente fechadas, abertas só para atendimento individual, estamos sem aqueles cultos maravilhosos, e as despesas são as mesmas. Aí o que você faz? Você entra em contato conosco e toma essa decisão: eu vou fazer isso em nome de Jesus.”

Pacientemente, leu número por número, dígito por dígito, das agências e contas correntes de quatro bancos diferentes. Também explicou com minúcias como fazer o depósito via internet. Ele já tinha mudado de assunto, quando se lembrou: “Ah, sobre a contribuição: você também pode mandar alguém depositar na lotérica.” Naquele mesmo dia, Bolsonaro havia incluído as casas lotéricas como serviço essencial.

 

R.R. Soares lançou todos os cinco filhos na vida política, mas se mantém formalmente fora dela, dedicando-se sobretudo à vida religiosa. O pastor Marco Feliciano, por seu lado, tem um pé em cada canoa. É deputado federal por São Paulo (no momento sem partido) e pastor-presidente da Assembleia de Deus Ministério Catedral do Avivamento. Aliado antigo de Bolsonaro, tornou-se uma das pontes do Palácio do Planalto com o segmento evangélico. Quando Donald Trump declarou que 15 de março, domingo, seria o Dia Nacional da Oração nos Estados Unidos, Feliciano quis imitar a ideia e aplicá-la no Brasil. “Vi a matéria na Fox. Levei ao conhecimento do presidente Bolsonaro e fiz o pedido”, contou, referindo-se à Fox News, emissora norte-americana de tevê a cabo. Outros pastores endossaram a proposta, e assim surgiu o Dia Nacional do Jejum convocado por Bolsonaro para 5 de abril.

“Liguei para os líderes das maiores denominações, perguntando se iriam aderir. Aos que confirmaram pedi um vídeo anunciando a participação de sua denominação.” As declarações de três dezenas de evangélicos foram reunidas em um vídeo de quatro minutos e meio que Feliciano distribuiu por suas redes sociais. “Nesse vídeo estão representados no mínimo 80% dos evangélicos brasileiros por meio de seus líderes. Foi histórico.”

No domingo do jejum, Feliciano subiu ao altar da Catedral do Avivamento, em Orlândia, sua cidade natal, no interior paulista, iluminado por luzes estroboscópicas rosa e lilás. O deputado pastor, de 47 anos, atarracado, dentes perfeitamente brancos e alinhados, vestia uma camiseta preta colada ao corpo e calça jeans. (Seu tratamento dentário custou 160 mil reais à Câmara dos Deputados. Feliciano justificou o gasto dizendo que a intervenção odontológica era necessária para aplacar seu bruxismo.) Sobre o piso de pedra branca do altar havia apenas o púlpito e uma menorá gigante – o candelabro sagrado do judaísmo adotado pelos neopentecostais. No telão atrás do altar, imagens de Jesus Cristo alternavam com letras das canções religiosas entoadas no culto.

“Você que é pastor e está tendo tempo para me ouvir, está fazendo falta, né, pastor?, aquelas ovelhinhas que o senhor mandou embora”, disse Feliciano. “Alguns pastores estão passando dificuldades em casa porque não ensinaram as suas ovelhas a cuidar do próximo. Agora não têm comida em casa, porque já são três semanas sem culto, três semanas sem oferta, três semanas sem dízimo. Eu recebo no meu celular pedidos de ajuda de pastores do país inteiro e eu tenho puxado a orelha deles, dizendo ‘O homem colhe o que o homem planta’.”

Feliciano incentivou o crente a “amar seu Deus acima da sua igreja” e disse que a quarentena trará consequências negativas para o segmento. “Já se estima que 30% a 40% das pessoas não vão voltar para a igreja, porque vão dizer que não precisam dela, que podem cultuar a Deus em casa.” Questionado pela piauí sobre a previsão, respondeu: “São apenas suposições.”

Aos 55 minutos de transmissão, Feliciano informou que precisava encerrar o “culto-relâmpago, porque as mídias sociais só nos toleram por uma hora”. E acrescentou: “Se você sentir no coração, e falar: ‘Poxa, como é que está a situação da igreja? Tem alguma coisa que eu posso fazer para ajudar?’ É só ligar.” Feixes de cor verde iluminaram o altar, a bandeira do Brasil flamulou no telão, e o deputado pastor clamou: “Que Deus abençoe o governo, visite o presidente Bolsonaro, dê estruturas e sabedoria para que ele possa governar o nosso país. Em nome de Jesus!”

 

A posição firme do governador paulista, João Doria (PSDB), a favor do isolamento social, não foi bem recebida pelos pastores de variadas correntes. Um político que é evangélico e do mesmo partido de Doria disse à piauí que o clima piorou depois que o governador reiterou, no início de abril, a recomendação para não haver reuniões, mesmo de poucas pessoas. Boa parte dos pastores quer respeitar a quarentena, disse ele, que pediu para não ser identificado para evitar desgastes no meio político. Os pastores, porém, não querem trancar as portas das igrejas a cadeado. Eles sustentam que, com álcool em gel, máscaras e restrição na entrada, é possível receber fiéis sem causar aglomerações.

Até o início da pandemia, muitos líderes evangélicos simpatizavam com Doria, embora tivessem dado apoio mais estridente a Bolsonaro nas eleições de 2018. Com as divergências públicas entre o presidente e o governador em referente ao combate ao coronavírus, esses evangélicos se agarraram ao presidente, que lhes oferece o discurso e as condições que pleiteiam. Quando Doria respondeu de modo simpático uma mensagem elogiosa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no Twitter, o caldo entornou. Pastores dispararam memes mostrando o tucano com o rosto do petista depois de tirar uma máscara. A equipe do governador detectou a turbulência, mas a minimizou. Disse que é provocada por uma minoria barulhenta e que não é hora de fazer concessão política a “grupos fanáticos”. Os líderes evangélicos, em sua maioria, apoiaram o governo Lula e instruíram seus fiéis a votarem no PT. Hoje, é o contrário.

 

Em seu site, a Igreja Universal do Reino de Deus, do bispo Edir Macedo, noticiou a decisão de João Doria de prorrogar a quarentena em São Paulo, em abril. E reclamou: “Isso significa dizer que, durante a Semana Santa e a Páscoa – duas das mais importantes datas celebrativas do cristianismo –, as igrejas continuarão sem autorização para realizar qualquer atividade religiosa.” Em letras maiores, o texto dizia: “Você é livre para ir ao templo […] O altar não está em quarentena.”

Macedo, dono de um império empresarial que inclui, além da Universal, o Grupo Record, é um dos líderes evangélicos que minimizam a gravidade da pandemia. Chegou a divulgar um vídeo no qual dizia que a Covid-19 era uma “tática de Satanás” que não merecia preocupação – depois, apagou as imagens. “O mundo inteiro está ajoelhado diante do coronavírus. Esse vírus é tão poderoso, mas tão poderoso, que você pega água e sabão, lava as mãos e – hehe – pronto, o vírus que mata tanta gente morre”, disse, rindo, num culto online, também em abril. Para o bispo, “pior que o vírus, são as informações, o terror que a imprensa marrom criou e faz as pessoas ficarem apavoradas”. Dias antes, Macedo já havia acusado a imprensa de provocar alarmismo. “É tudo negócio. As pessoas são joguetes na mão da mídia. Quando você dá audiência, a televisão vende [anúncio], faz negócio com aquilo.” Ele não mencionou a sua própria emissora, a Record.

O vínculo de Bolsonaro e Macedo vai além das relações públicas amistosas. O Republicanos, ex-PRB, partido que nasceu de uma costela da Universal, é hoje a casa de dois filhos do presidente, o senador Flavio Bolsonaro e o vereador Carlos Bolsonaro. A Record é uma das emissoras às quais o presidente dá prioridade ao conceder entrevistas. Em troca, recebe uma cobertura jornalística em geral conveniente.

Genro de Edir Macedo, o bispo Renato Cardoso apresentou uma interpretação da pandemia que fez barulho entre fiéis da Universal, no final de março. Dias depois de o ex-primeiro-ministro britânico Gordon Brown defender uma espécie de “governo global” para lidar com o novo coronavírus, declaração que não repercutiu no Brasil, Cardoso subiu ao altar do Templo de Salomão, em São Paulo. Sem público, transmitiu pelo seu canal no YouTube, com mais de 1 milhão de inscritos, sua leitura da proposta de Brown. “Veja aí: Apocalipse 13, versículo 7. Diz que o Anticristo receberia poder, foi lhe dado poder sobre todas as famílias e línguas e nações. É isso que vai acontecer no governo do Anticristo”, disse, comparando a profecia bíblica com a sugestão do britânico.

Durante cinquenta minutos, Cardoso apontou acontecimentos relacionados à pandemia que, segundo ele, evidenciam que o fim do mundo está próximo. Quem não estiver abraçado ao Senhor Jesus, afirmou, ficará para ver as luzes se apagarem em meio ao caos na Terra. Sempre citando versículos da Bíblia, condenou o “globalismo”, disse que estão suprimindo o direito individual em nome do coletivo, perseguindo as igrejas e impondo às pessoas “o autoritarismo e o absolutismo do Estado”. “O Anticristo usará o poder do Estado para controlar as pessoas. O Estado estará aliado à ciência e tomará o lugar de Deus.”

Ao falar sobre o decreto de Doria impondo o isolamento social, comentou que “a atitude de alguns governantes de nosso país já mostra a antipatia ou o desejo que a igreja fosse relegada a um canto obscuro e totalmente esquecível da sociedade”. E atacou a mídia, dizendo que o Anticristo utiliza dela como sua “boca para proferir blasfêmias”. “Eu não fico, não ficarei surpreso, se o que eu estou falando vai ser tirado de contexto ou vai ser usado contra mim, contra a Universal, contra os evangélicos de forma geral, amanhã. Adivinha onde? Nas mídias, nas redes sociais?”

O bispo avisou que seu objetivo não era disseminar o pânico, mas prevenir os fiéis. Caminhou até o canto do palco e bateu a mão na parede. “Jesus está batendo à porta do seu coração. […] Se você resiste a essa oportunidade de salvação que o Senhor Jesus te dá agora, então você vai ter todas as razões para temer o que está por vir.” O vídeo teve mais de 350 mil visualizações até o dia 20 de abril.

“Você sabe, Cristiane, que estão dizendo que só pode ter sido uma mulher que inventou o coronavírus?”, disse Cardoso rindo, em outra transmissão direta do púlpito do Templo de Salomão, via YouTube. Cristiane Cardoso, sua mulher e filha de Edir Macedo, estava ao lado dele. “Só pode ter sido uma mulher”, insistiu. “Porque conseguiram cancelar o futebol, fechar os bares e manter os maridos em casa.” Ele riu de novo, ela sorriu. Na parte inferior da tela, apareceu o anúncio de um bufê de festas: “Casamento Luxo E Sofisticação. Seja Impecável, E Tenha o Melhor Dia Da Sua Vida. Realizamos Sonhos.”

 

Quando o alarme sobre a Covid-19 soou em capitais europeias, em meados de março, e o Brasil já havia registrado a primeira morte por causa da doença (em São Paulo, no dia 17 daquele mês), o apóstolo Estevam Hernandes, fundador e líder da Igreja Apostólica Renascer em Cristo, decidiu gravar o que chamou de “posicionamento sobre o coronavírus”. O vídeo foi feito na área externa da sucursal de sua igreja em Miami, numa paisagem de coqueiros. Ao lado da filha, Fernanda Hernandes, conhecida como bispa Fê, ele disse: “Oitenta por cento das pessoas contaminadas são assintomáticas. Significa que elas nem vão perceber [que contraíram o vírus].” A filha ressaltou: “Gente, 80%. Prestem atenção nos dados.” E Estevam Hernandes ponderou: “É claro que não vamos abusar, mas podemos ir normalmente à igreja, porque não há nenhuma determinação governamental proibindo. Há uma recomendação.”

À época, o Ministério da Saúde apenas orientava a população a evitar aglomerações e redobrar os cuidados com a higiene. Não há nenhuma evidência científica de que 80% dos contaminados sejam assintomáticos.

Dias depois, Estevam Hernandes, de 66 anos, e sua mulher, a bispa Sonia Hernandes, de 61 anos, voltaram a São Paulo, onde está a sede da igreja, e se confinaram em casa. Não saíram nem mesmo para ir aos cultos, que passaram a ser feitos a partir do escritório de sua residência, exclusivamente para os seguidores nas redes sociais. O casal tinha em 2013 a quinta maior fortuna entre os líderes evangélicos, segundo a revista Forbes: 130 milhões de reais.

No domingo, 22 de março, faltando três minutos para a meia-noite, Estevam Hernandes fez uma transmissão de seu escritório. A pregação mal havia começado quando ele a interrompeu para reclamar do posicionamento da câmera do celular. “Desse jeito ninguém vai assistir”, disse à sua mulher, que estava fora de cena. Os dois discutiram ao vivo sobre a disposição dos aparelhos, Hernandes pediu desculpas ao público pelos problemas com a transmissão e tocou o shofar, instrumento de sopro antigo, sagrado na tradição judaica. Os internautas comentavam em tempo real. Um deles, Leandro Maia, empolgou-se: “Quando o senhor toca o sax é show!”

Hernandes passou a falar do preceito espiritual segundo o qual “Deus nos conduz em todas as coisas”. Mas interrompeu de novo a pregação. “Você virou o telefone completamente”, disse à mulher. “É que eu estou sendo pela primeira vez iluminadora, contrarregra, cenógrafa…”, explicou a bispa Sonia Hernandes, ainda sem aparecer na frente da câmera. A seguidora Mari Vitorino curtiu a espontaneidade e comentou: “Qui top. Glória Deus.”

Nove minutos depois, Sonia Hernandes entrou em cena, sentando-se ao lado do marido. Juntos, eles discorreram sobre a importância de manter o ânimo em tempos difíceis. Ela ergueu a mão esquerda, fazendo sinal de pare, e disse: “Eu faço jejum de choro. Quando estou muito querendo chorar, eu faço cinco minutos de choro por dia, então eu já economizo.” A seguidora online Elisângela Aquino escreveu imediatamente, enviando emojis de mãos em oração e aplausos: “Vocês são bênção, meu Deus. Muita sabedoria.”

Em outra transmissão, no dia 29 de março, o tom do discurso do casal ficou mais grave. “Estamos vendo a evolução lamentável do coronavírus, famílias enlutadas e muitos sofrendo”, afirmou Hernandes. Dessa vez, uma legenda com o QR Code, o CNPJ da Renascer e mensagens incentivando “ofertas” permaneceram na tela durante toda a live, de uma hora de duração. A Renascer também lançou um aplicativo para facilitar doações e o acompanhamento das atividades virtuais. “Temos centenas de prédios, todos fechados. Temos rádios, não uma, várias. Emissoras de televisão. Pagamos energia elétrica, pagamos nosso satélite”, disse Hernandes. “Agora, nós precisamos que você coloque o teu amor na obra de Deus e deixe no altar essa oferta que vai repreender o devorador, o destruidor, mas que vai clamar diante dos céus, porque, meu Pai de amor, aquele que supre a obra de Deus num momento como esse vai ser muito abençoado.”

 

Para igrejas evangélicas de menor porte, a falta de contato com os fiéis é um desafio e tanto. “Elas investem muito na relação presencial, nas redes de sociabilidade e de proteção. O diferencial delas é a importância que dão à presença muito constante na vida de seus seguidores”, afirmou a professora de sociologia Christina Vital da Cunha.

Que o diga a aposentada Ana Maria dos Santos Ferreira, de 69 anos, de Bocaiuva (MG). Ela vai à Assembleia de Deus Ministério Missão cinco vezes por semana e doa semanalmente 10% do salário mínimo que recebe do INSS. Também nunca se esquece de deixar alguma oferta. “Toda vez que vou no culto, tem minha ofertazinha, 50 centavos, 1 real, 2 reais. O dia que não tenho, eu fico triste”, contou, por telefone.

A igreja é sua única atividade social. O resto do tempo, mesmo antes da pandemia, ela passava na casa onde mora com um neto adolescente. Desde meados de março, está afastada da igreja, que fechou devido à quarentena. Para Ferreira, parece que se passou “mais de um ano”, tamanho o vazio que se abriu em sua vida. O pastor instruiu os seguidores a se conectarem pelas redes sociais, mas ela não sabe lidar com a internet. “Vou ficar sem contribuir, sem oferta. O dízimo vou entregar no dia que eu voltar, né?” Enquanto aguarda, faz suas orações e lê a Bíblia em casa. “Gosto de ouvir meus hinos, louvar a Deus. Mas logo Jesus vai entrar com providência, né? Eu creio que sim.”

Thais Bilenky

Repórter na piauí. Na Folha de S.Paulo, foi correspondente em Nova York e repórter de política em São Paulo e Brasília

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