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Miasmas pútridos

Os eneístas reagem aos olavistas e bolsonaristas

Roberto Kaz
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2020

Há cerca de quatro anos, Fábio Manuel Tiene dos Santos assistiu pela primeira vez, de forma atenta, a um vídeo do falecido deputado federal Enéas Carneiro – o excêntrico candidato a presidente da República pelo extinto Prona, o Partido de Reedificação da Ordem Nacional. “Já era época de pré-eleição, e com aquela coisa de impeachment e Lava Jato, todo mundo, do nada, começou a ficar politizado”, disse, incluindo-se na lista de neófitos. “Eu passei a ver muita coisa no YouTube sobre Sergio Moro, Dilma, Ciro, Bolsonaro, Jean Wyllys, Maria do Rosário, Nando Moura, aquela treta geral.” O resto veio por obra do destino – ou do algoritmo: “Os vídeos do doutor Enéas começaram a aparecer na lista que o YouTube sugeria como conteúdo relacionado.” Foi amor ao primeiro view.

“O doutor Enéas falava com muita autoridade, sempre enérgico, bravo”, lembrou o rapaz de 30 anos, tatuado e de cabelo preto, que cursa o último período de história em uma universidade particular de Indaiatuba, cidade a uma hora e meia de São Paulo. “E ainda vinha de uma linhagem de grandes nacionalistas, como o Getúlio Vargas.” Mesmerizado, Santos ensaiou deixar a própria barba crescer – uma homenagem ao visual de profeta de Enéas Carneiro – e resolveu gravar vídeos defendendo o ideário político do ex-deputado. Acabou chamando a atenção do engenheiro civil Antonio David Ferreira Cavalcante, de 25 anos, morador de Maceió, que integrava um grupo interessado em recriar o Prona.

“O Antonio já estudava o trabalho do doutor Enéas fazia mais tempo e conhecia a Patrícia Lima”, contou, referindo-se à herdeira política do deputado, advogada eleita para a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo em 2006. Foi Lima quem apresentou Santos aos escritos do líder nacionalista: o livro O Brasil em Perigo!, publicado em 1996, e a cartilha Um Grande Projeto Nacional, lançada durante a campanha presidencial de 1994 e atualizada para o pleito de 1998. Depois da imersão na obra de Enéas, Santos e Cavalcante acabaram fundando uma página no Instagram chamada Eneísmo Cultural.

 

O cardiologista Enéas Ferreira Carneiro aventurou-se na política numa época em que a bílis, o ódio e o mau sentimento não ajudavam um candidato a conquistar a Presidência.



Concorreu pela primeira vez em 1989, quando compensou os míseros quinze segundos a que tinha direito no horário eleitoral com uma fala colérica, ultranacionalista, iniciada sempre ao som de Beethoven e concluída com o bordão “Meu nome é Enéas!”. Obteve 360 mil votos e o 12º lugar. Cinco anos depois, com o tempo de tevê multiplicado por cinco, obteve 4,7 milhões de votos e saltou para a terceira posição, à frente de peixes graúdos como Orestes Quércia e Leonel Brizola. Tentou uma vez mais a Presidência, em 1998 – quando defendeu a construção de uma bomba atômica –, mas chegou em quarto lugar, com 1,4 milhão de votos. Acabou optando pelo cargo de deputado federal, para o qual foi eleito duas vezes, por São Paulo, em 2002 e 2006.

Depois de sua morte por leucemia, em 2007, Enéas Carneiro passou a habitar certo panteão do folclore político nacional, povoado por figuras como o ex-presidente Jânio Quadros e o ex-deputado Clodovil Hernandes. Ali permaneceu por cerca de uma década, até que neonacionalistas e seguidores de Bolsonaro começassem a tirar dos porões o velho discurso ufanista de devoção à pátria. As redes sociais – palco preferido dos exageros retóricos – viram surgir, então, em memória do deputado, hashtags (#eneasmito, #eneastinharazao) e arrobas (@eneasoficial, @eneas.carneiro_opressor). Além de administrar a página @eneismocultural, com seus 2,6 mil inscritos, Santos passou a tocar um perfil no YouTube seguido por 22 mil pessoas. Seu vídeo mais popular, intitulado Enéas Fala sobre Deus (Melhor que Muitos Pastores, Padres e Filósofos), teve 1,8 milhão de visualizações.

 

Santos divide o tempo entre a faculdade de história, o magistério (ele dá aulas particulares da disciplina), o esporte (luta jiu-jítsu e muay thai) e a música (é vocalista de uma banda de rock chamada Against the Clouds). As horas que sobram são dedicadas a Friedrich Nietzsche, Arthur Schopenhauer, Clarice Lispector, Fiódor Dostoiévski, Charles Bukowski e ao grupo norte-americano de rock Linkin Park (ele administra perfis no Instagram dedicados a esse elenco variado).

Até o começo da pandemia, Santos também tocava o dia a dia da página Eneísmo Cultural, onde postava frases marcantes da lavra político-medicinal do deputado, como “Quem disse que eu sou o novo Macaco Tião venha à minha frente que eu o reduzirei a subnitrato”, e a famosa “Miasmas pútridos emanam no Congresso em Brasília, contaminando o ar da metrópole, mas o meu nome não exala odor mefítico, porque não chafurda no pântano da ignomínia”. Nos últimos meses, passou a operação diária da página ao seu parceiro de eneísmo Antonio Cavalcante. “Não tenho mais ânimo para falar para meia dúzia de pessoas que se dizem nacionalistas e no fundo ignoram o legado do doutor Enéas”, desabafou.

Apesar de nacionalista, Santos se diz refratário à extrema direita e a tudo que emana do governo Bolsonaro. “Jamais cogitei votar nele”, contou, acrescentando que tem por regra anular o voto. “É muita alienação e subserviência ao imperialismo americano, justamente o contrário da autodeterminação brasileira, com intervenção forte do Estado, pregada pelo doutor Enéas.” Ele conta, inclusive, que o termo “eneísmo”, cunhado pelo amigo Cavalcante, surgiu em resposta a pretensos movimentos como “olavismo” e “bolsonarismo”. “Mas é cultural, porque o doutor Enéas não era apenas um político. Ele trazia uma filosofia na educação, na cultura, queria que os brasileiros fossem uma só voz, independentemente da classe e da cor”, afirmou, nostálgico.

Roberto Kaz

Roberto Kaz

Repórter da piauí, é autor do Livro dos Bichos, pela Companhia das Letras

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