tempos da peste

Minha casa, meu cenário

A intimidade doméstica ganha espaço inédito na tevê e na internet

Giselle Beiguelman
Um cenário descartável: “No auge da minha inquietação, lembrei-me de <i>Sexo, Mentiras e Videotape</i>, filme dos anos 1980, e só agora me dou conta de que era tristemente premonitório”
Um cenário descartável: “No auge da minha inquietação, lembrei-me de Sexo, Mentiras e Videotape, filme dos anos 1980, e só agora me dou conta de que era tristemente premonitório” CREDITO: GALINA_123RF

A pandemia da Covid-19 é também uma pandemia das imagens. Ao nos afastarmos uns dos outros, o vírus não só nos transformou em imagens que se comunicam por meio das telas como fez boa parte da programação da tevê – o formato de vídeo mais comum no cotidiano – virar algo um tanto distinto do que conhecíamos. Com o isolamento social, a televisão nos lançou no interior das casas de uma extensa galeria de pessoas, cujo universo doméstico nos era até então inacessível: médicos, políticos, economistas, jornalistas, psicólogos, atores e uma miríade de profissionais especializados, convocados pelos programas para comentar e explicar as dinâmicas do vírus e as suas consequências políticas, econômicas, sociais e culturais. É possível fazer uma pequena etnografia da imagem da intimidade no Brasil de hoje observando o que se passa nas telas, nas bordas da “coronavida”.

Médicos, por exemplo, optam muitas vezes por transmitir suas imagens em ambientes neutros, de paredes brancas e armários embutidos que parecem altíssimos, enquadrados pessimamente pela câmera, o que faz do espaço um trapézio medonho. Intelectuais e acadêmicos das ciências humanas gravam, em geral, na frente de seus livros, muito embora alguns cariocas que têm o privilégio de viver em frente à praia prefiram se posicionar na sala de estar, próximos às janelas. As minhas imagens favoritas, contudo, são as dos cientistas, que falam entre livros e fichários empilhados no escritório, como se estivessem em plena pesquisa, vasculhando referências e confrontando estudos e journals.

Políticos têm padrões mais variados, mas posicionam-se, com frequência, diante da câmera como se estivessem em trânsito, prontos para escapar. Suas imagens em vídeo sugerem que estão sempre colados ao imediatismo dos fatos e, ao mesmo tempo, prontos para virar as costas e deixar tudo para trás. Entre eles, há inclusive os que preferem se manifestar em pé e num corredor – um ponto de passagem da casa, afinal. Ou os que falam num lugar com o qual não têm vínculos, como um quarto de hotel ou um flat, espaços de transitoriedade por excelência. Foi o caso, outro dia, de um político num debate televisivo, em cujo quarto via-se um megamonitor de tevê e a cama totalmente desarrumada.

Economistas sentam-se em cadeiras altas, como se presidissem o mundo. Nos seus “lugares de entrevista” também são comuns os livros, com grande número de edições encadernadas com capa dura, de cores variadas e letrinhas douradas na lombada. Não são raras em suas casas as estantes de tipo armário, com portas envidraçadas – é difícil não associar essa redoma com a ideia de preservação do patrimônio. É exceção, mas pode ocorrer que o economista quase não tenha livros na estante, como numa transmissão do ministro da Economia, Paulo Guedes. No Twitter, uma pessoa chegou a sugerir que se fizesse uma campanha de doação de livros para o ministro, que costuma gravar suas entrevistas na frente de um conjunto de prateleiras praticamente vazias, com alguns poucos enfeites.



 

A tendência das pessoas a aparecer diante de um cenário com estante de livros é tão forte que gerou um dos melhores memes da temporada: “Vendo fundos de tela com padrão de biblioteca para usar em lives.” O que serviu de gancho para um espanhol esperto montar um negócio fictício, oferecendo na Amazon estantes cenográficas para adornar videoconferências.

As bibliotecas são parte essencial do que descobrimos nesse “corpo a corpo” com a imagem do interior das casas das celebridades e súbitas celebridades televisivas. Toda biblioteca pessoal é uma espécie de “enciclopédia mágica” sobre seu proprietário, como aprendemos com Walter Benjamin. Ao contemplar sua biblioteca, o escritor Alberto Manguel descreveu o particular prazer de saber que está rodeado do “inventário” da sua vida. Conscientemente ou não, o personagem que posa na frente de seus livros escolhe entregar ao espectador uma chave de acesso à leitura que ele faz do mundo.

Observando, por exemplo, a biblioteca de Merval Pereira, percebi que o jornalista tem grande interesse por história política, em particular pelo ex-presidente João Goulart e o estadista britânico Winston Churchill, mas que é também leitor de Paul Auster e tem uma queda por arquitetura. Infelizmente, quando comecei a me inteirar das preferências de leitura de Merval Pereira, ele resolveu entrar em ritmo nômade, mudando constantemente de ambiente e enquadramento nas gravações em sua casa. Perdi a chance que teve o editor de livros do New York Times Book Review, Gal Beckerman, que conseguiu identificar as obras que compõem o set de várias celebridades, a partir das transmissões feitas de suas casas, via Zoom, Skype, Google Meet ou similar. Para quem se interessar, o artigo foi publicado no dia 30 de abril (What do Famous People’s Bookshelves Reveal? – O que as estantes das pessoas famosas revelam?).

É essa, aliás, a razão de ser do perfil “Bookcase Credibility”, no Twitter (@BCredibility). Lançado em abril deste ano, contava com mais de 75 mil seguidores no começo de maio, e traz como linha biográfica a sugestiva frase que resume a obsessão com as bibliotecas como fundo de tela: “O que você diz não é tão importante quanto as estantes atrás de você.”

À medida que os dias passavam, minha convivência com jornalistas e personalidades muito consultadas, via tele-encontro, foi transformando-os em pessoas comuns e, de certo modo, próximas. Bisbilhotar suas casas tornou-se rotina, e não apenas para mim – não são poucos os comentários na internet sobre a sala de um e o quarto de outro. No Instagram, dia desses, alguém perguntou se a jornalista Cristiana Lôbo (que aparece quase sempre na mesma posição, no seu belo e espaçoso escritório em Brasília) estava gravando em casa ou na Livraria Cultura de algum shopping.

Jornalistas dividem-se entre o escritório e a sala de estar, que muitas vezes formam um complexo único. E, pelo que se vê nos telejornais, há indiscutivelmente um clima “para não dizer que não falei das flores” no telejornalismo brasileiro. Nunca vi tantos vasos de orquídeas! Na mudança das bancadas futuristas e assépticas da tevê para o recolhimento da casa, sem o apoio de diretores de arte e figurinistas, eles passaram a transmitir de lugares em que se confundem o espaço íntimo e o cenário especialmente escolhido e arrumado para aparecer no programa. Descobrimos que alguns dos comentaristas da GloboNews usam pijaminhas de plush aos sábados, que a samambaia na parede ainda é moda em vários lares e que no quesito artes visuais a seleção de quadros deixa muito a desejar.

Isso não quer dizer que a informalidade domine. Há quem mantenha a fleuma do estúdio, como na Rede Record, na qual um comentarista político fala de sua casa, em pé, de terno e gravata. Mas imbatível, nesse quesito da conversão da casa em QG do trabalho, é o estilo CNN Brasil, que insere atrás de um âncora em quarentena um grande monitor de tevê com o logotipo da emissora.

Todos os ideais de um segmento da classe média, o dos profissionais liberais, aparecem nesses cenários domésticos, organizados em torno de peças que remetem a certo status educacional e cultural. Por isso não são fortuitos nem a estantes de livros como “objetos de cena” (mesmo que sejam apenas livros de coleção, como no caso de uma jornalista), nem o posicionamento da webcam, de modo a “compor” a imagem da pessoa com os quadros e outros objetos de arte da decoração.

É o arremate da utopia modernista, como define o crítico e professor Mauricio Lissovsky: o ideal do conforto para todos se traduz na defesa (e na crença) de que “no futuro, todos terão direito a uma poltrona”. O novo coronavírus atualizou a sentença para: “No futuro, eu terei direito à minha poltrona, meus livros e meus quadros.”

 

Como os moradores de comunidades e periferias quase não são chamados para comentar a grave situação em que se encontram, a imagem da rotina do isolamento se confunde na televisão com os ideais de uma classe social. Os poucos registros que contradizem essa retórica visual aparecem no jornalismo independente. Exemplos são o programa Tem Alguém em Casa?, do jornalista Bruno Torturra, e a série História do Dia, do Movimento Sem-Teto do Centro (MSTC), ambos transmitidos no Instagram, via ferramenta IGTV e disponibilizados no YouTube. No primeiro, o foco de várias entrevistas é a situação das favelas e dos desabrigados. No segundo, a preocupação é com o impacto da pandemia nos moradores de ocupações. As pessoas falam na cozinha, no quarto, entre beliches, no meio da roupa pendurada sobre os móveis, carregando crianças no colo. Não há paredes que isolem um cômodo do outro, o que põe em questão algumas das prerrogativas dos cuidados para conter a propagação da Covid-19.

Nos dois programas, o que vemos é, por exemplo, a realidade do desemprego, das dificuldades de acesso ao auxílio emergencial, do abandono, da violência das ações policiais, enfim, tudo que escapa do quadro mais ou menos bem montado da tranquilidade dos lares padrão dos apresentadores das grandes emissoras.

A incapacidade (ou falta de determinação?) dos noticiários de tevê para dar visibilidade às pessoas das periferias é desconcertante. Talvez isso ocorra porque implicaria, afinal, uma tomada de posição a respeito das políticas públicas de fato emergenciais. Na bolha do #fiqueemcasa em que os meios de comunicação operam, tal recorte definitivamente não cabe. O tipo de intimidade que as emissoras trazem à tona corresponde, sobretudo, às demandas de um núcleo mais otimista e mais confortável da população, que chega a identificar nesse cenário de calamidade até mesmo sinais positivos para uma desaceleração geral. Será este de fato o momento ideal para derivas filosofantes sobre o modo de vida do “capitalismo tardio e os fins do sono” (título do livro do ensaísta norte-americano Jonathan Crary) e da “sociedade do cansaço” (como se chama a obra do pensador sul-coreano Byung-Chul Han)?

 

Volto ao cenário da casa arrumada, pronta para aparecer na tevê. Paradoxalmente, a transmissão em si, com precária qualidade visual e sonora, não corresponde em nada a esse intuito de arrumação. As oscilações frequentes da rede acabaram me trazendo um upgrade incrível na capacidade de entender as falas mal transmitidas nos vídeos. Hoje, sou capaz de compreender frases completas a partir de alguns poucos vocábulos tossidos no gargalo das conexões e imaginar movimentos que teriam ocorrido no auge de um congelamento súbito da tela.

Esse descompasso se deve à sobrecarga das redes. Como o consumo de internet disparou, algumas operadoras manifestaram, ainda no início do confinamento, temores de que a demanda, muito maior do que a infraestrutura disponível, levasse à falência do sistema. Com isso, vários serviços, como a Netflix, reduziram a resolução das transmissões, a fim de evitar a sobrecarga nos seus servidores.

Sinto-me como num flashback, de volta ao tempo em que trabalhava no UOL, nos anos 1990. Naquela época, discutíamos experiências futuras de navegação tridimensional, panoramas interativos e uma variada parafernália que poderia garantir a “telepresença” de qualquer um em exposições remotas, com uma meia dúzia de cliques, sem sair do lugar. Não menos sedutora, naquele momento, era aventar a possibilidade de bate-papos em vídeo, que por um tempo fizeram a festa dos sites de pornografia, mas acabaram não decolando. A febre das visitas virtuais a museus e a compulsão pelos videochats (travestidos agora de reuniões online no Zoom e afins) são alguns dos sintomas desse revival da web 1.0 em plena Covid-19. A principal diferença em relação à atualidade é que nos anos 1990 nada funcionava (e agora funciona, apesar da má qualidade das transmissões). Por esse motivo, venerávamos as benesses do “universo paralelo”, sem saber como tudo isso era chatíssimo – como descobrimos agora.

Resgatei “universo paralelo” das catacumbas da internet. Mas, na onda de retrocessos políticos e comportamentais que estamos vivendo mundo afora (e adentro), aguardo o momento em que voltaremos a usar palavras como “internautas”, “telemático” e “ciberespaço”. Aguardo, muito mais, um pause no tsunami de vídeos dos “quarenteners” animados. Estou como a @nazareamarga: tenho medo de ir até a cozinha e me deparar com alguém fazendo uma live.

As lives são indiscutivelmente um dos fenômenos da quarentena. Estratégia usada para preencher a lacuna deixada pela suspensão dos shows, peças de teatro e filmes nas salas de cinema, a live tornou-se também o “palco” preferencial de debates, no esforço que fazem instituições culturais, galerias e universidades para ficar em contato com o público. Não menos relevante é seu uso para a exibição de performances artísticas e culinárias de “instagramers” variados. Todos querem aparecer “naturalmente” em casa, com filhos, maridos, mulheres, pets, ou então sozinhos, ao lado de suas plantas, buscando transmitir certo despojamento, o que não deixa de provocar forte estranheza por causa da fórmula heterodoxa que combina confidência e exibicionismo.

Em paralelo, crescem exponencialmente os adeptos do Zoom, o software que se tornou mania. De plataforma independente para videoconferências, criada por uma pequena empresa de San José, o Zoom transformou-se na rede social da pandemia, registrando um aumento vertiginoso de usuários, que saltaram de 10 milhões, em dezembro de 2019, para 200 milhões, em abril de 2020. Utilizado para bate-papos, aulas e reuniões, evidencia que o novo coronavírus mudou a forma como nos conectamos uns com os outros, via internet, colocando definitivamente a webcam no meio da sala. Da atriz Meryl Streep a membros do governo brasileiro, estamos todos mergulhados em uma experiência global via streaming audiovisual que domina o espectro midiático de ponta a ponta. Mas que outro espectro restou a quem está confinado em casa?

No auge da minha inquietação, lembrei-me de um filme dos anos 1980, Sexo, Mentiras e Videotape, de Steven Soderbergh, cujas sequências acontecem inteiramente entre quatro paredes. O protagonista é um homem que sofre de impotência e, por meio de vídeo, entrevista mulheres sobre a vida sexual delas. Nas várias vezes em que assisti a esse filme, eu atentava, sobretudo, para seu caráter de “anti-road movie” e de libelo da pós-sexualidade, como analisou Nelson Brissac em um ensaio. Não havia me dado conta de que Sexo, Mentiras e Videotape foi tristemente premonitório a respeito de algo que agora estamos vivendo plenamente: a experiência de ter acesso à intimidade do outro por meio da imagem. Com a particularidade, no caso brasileiro, de evidenciar o abismo social e cultural em que nos metemos para além de todas as telas.

Giselle Beiguelman

Artista plástica e professora da FAU-USP, é autora de Memória da Amnésia: Políticas do Esquecimento

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