esquina

Mocassins solitários

Um funcionário corre em homenagem a Kirchner

Kelly Cristina
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

Ao olhar para os pés da multidão ao redor, Héctor Nochetti sentiu-se intimidado. Eles vestiam tênis de todas as cores e materiais, acolchoados e com amortecedores, a última palavra em tecnologia de calçados esportivos. O funcionário público argentino soltou um suspiro resignado ao contemplar mais uma vez seus próprios pés, acomodados em sapatos marrons bem polidos e adornados por tirinhas de couro amarradas num nó. Soltou mais outro suspiro resignado. Sentiu-se deslocado como se estivesse de terno na praia. Ele era o único corredor que calçara mocassins para disputar a Maratón de la Alegría Néstor Kirchner.

Para homenagear o finado presidente, raciocinou-se, nada mais apropriado que correr com seus sapatos prediletos. A organização do evento incentivou a deferência: aos atletas propensos a disputar a prova de mocassins, foi oferecido o estímulo de um percurso mais curto, de apenas 3 quilômetros, disponível também para os corredores de tênis mais preguiçosos. Os demais participantes teriam de correr 8 quilômetros.

A filipeta da corrida, organizada pelo Club de Corredores, de Buenos Aires, e patrocinada por vários ministérios, era ilustrada com um das pernas de alguns maratonistas em ação. Em destaque, no canto direito, um atleta com um garboso par de mocassins pretos de fivela prateada e meias soquete cinzentas.

A obsessão de Néstor Kirchner pelos ditos sapatos era motivo de constrangimento nacional na Argentina. O político peronista provocou arrepios de muitos ao tomar posse da Presidência com mocassins nos pés. Quando, ainda candidato à Presidência, usou-os num encontro com Lula em 2003, foi acusado por um articulista do La Nación de pôr em risco a “tão comentada elegância argentina de inspiração europeia”. Dizem que foi para a cripta familiar calçado com um par de seus sapatos favoritos.



Desde que bateu os mocassins devido a um ataque cardíaco, em outubro de 2010, Kirchner virou objeto de uma idolatria nacional de fazer inveja a Perón. Seu nome já foi dado a praticamente todo logradouro ou obra pública que se possa batizar. De previsíveis túneis, escolas e hospitais a um centro de produção e de genética leiteira, uma delegacia e até um bairro inteiro foram nomeados em sua homenagem. Neste ano, o returno do campeonato argentino foi chamado de Torneo Clausura Néstor Kirchner. O último mimo foi um mausoléu de 11 metros de altura em Río Gallegos, sua cidade natal. E, agora, a Maratona da Alegria.

Foi com o espírito de cumprimento do dever cívico que 3 mil cidadãos portenhos se apresentaram nos Bosques de Palermo, às 9 horas de um feriado de outubro, para correr em memória de Kirchner sob uma chuva fina. “Néstor vive”, dizia a faixa de um militante animado de 70 anos. Calçava tênis. A corrida foi prestigiada por estrelas do kirchnerismo como o vice-ministro da Economia Roberto Feletti e o vereador Juan Cabandié. Mas nem eles homenagearam as idiossincrasias do ex-presidente: preferiram calçados de corrida.

De opositores como o socialista Hermes Binner, que disputaria a Presidência com Cristina Kirchner dali a alguns dias, nem sinal. A própria viúva do homenageado não apareceu, por prudência, talvez. Da última vez que seu nome foi associado a sapatos na imprensa, em setembro, foi acusada pelo tabloide New York Post de gastar 110 mil dólares na compra de vinte pares, numa viagem à França.

 

Nochetti varreu o chão com os olhos. Estava preocupado. “Acredito que outras pessoas ainda vão chegar”, disse, detrás do bigode branco. Parecia um aniversariante à espera dos convidados numa festa micada. “Devem ter confundido o horário”, insistiu, sem muita convicção. Mas ninguém chegou. Nochetti ignorou a adversidade e seguiu adiante de cabeça erguida, como fez o homenageado no passado. “É meu presente para Kirchner e seu governo”, disse o funcionário público. “Ele não se importava com o vestuário quando tinha de tomar uma decisão.”

Com a camiseta oficial pendurada no ombro esquerdo – não havia jeito de combiná-la com a calça social e os sapatos –, Nochetti largou pelo canto direito da pista, posicionado atrás de todos os outros maratonistas. Num lampejo de originalidade e obstinação, resolveu caminhar em vez de correr – justa e vagarosa reverência à falta de protocolo de Kirchner. Ia tão devagar que conseguiu bater papo com sua esposa durante o trajeto, como se fizesse uma caminhada matinal num feriado qualquer.

Vinte minutos depois, quando os primeiros atletas já cruzavam a linha de chegada, ele estava na metade do percurso. Antes de Nochetti, chegaram políticos suados, um senhor com a faixa de apoio a Kirchner, mães que correram empurrando carrinhos de bebês, uma jovem adolescente de patins e um previsível vira-lata que se meteu no meio da pista. A maioria dos fotógrafos, que viera clicar a corrida, havia debandado para o palco, onde já anunciavam os vencedores e se esperava o show do performático ministro da Economia, Amado Boudou, com a banda La Mancha de Rolando. Ele foi candidato a vice-presidente na chapa de Cristina Kirchner, que ganhou as eleições com quase quarenta pontos percentuais de diferença sobre o segundo colocado, Hermes Binner. Boudou apareceu só no final da corrida. Calçava tênis.

Quando Nochetti finalmente completou os 3 quilômetros, não tinha sequer uma gota de suor na testa. “Olha ali, ele está de mocassim”, disse uma moça para a amiga ao lado, que fez cara de espanto e achou graça. Mas foram poucos os que repararam em seus sapatos. A imprensa não registrou sua homenagem a Kirchner. Nochetti completou o percurso em 39 minutos e 15 segundos. Com o semblante de missão cumprida, despareceu entre os outros competidores.

Kelly Cristina

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