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À moda das radionovelas

O que explica a ascensão dos audiolivros?

Carol Bensimon
Nos EUA, já há romances cujas versões sonoras têm a narração de estrelas hollywoodianas
Nos EUA, já há romances cujas versões sonoras têm a narração de estrelas hollywoodianas IMAGEM: TONI DEMURO

Dezesseis anos atrás, quando Cid Moreira gravou a Bíblia em CD, com sua voz de trovão, os audiolivros já eram uma presença incontornável em outros países, sobretudo nos Estados Unidos. Na década de 80, por exemplo, os americanos podiam dirigir para o trabalho acompanhando, em fita cassete, os clássicos da literatura ou o último romance de Stephen King. Ao ritmo das revoluções tecnológicas, o formato se desenvolveu e agora, em 2017, há razões para acreditar que se encontra em franca expansão comercial.

O assunto tomou conta de vários debates na mais recente edição da prestigiosa Feira do Livro de Frankfurt, ocorrida em outubro. O entusiasmo do mercado editorial com o fenômeno se apoia em números significativos. De 2015 a 2016, o segmento dos audiolivros viu aumentar seu volume de vendas em 18,2% nos Estados Unidos, o que gerou um faturamento de 2,1 bilhões de dólares no ano passado. Os países europeus têm registrado a mesma tendência. No Reino Unido, o filão cresceu 170% em cinco anos. A maior plataforma de audiolivros escandinava, Storytel, soma hoje cerca de 500 mil assinantes. Em 2014, na Alemanha, 20 mil pessoas lotaram um estádio para assistir às estrelas de Die Drei???, a audiossérie juvenil mais popular do país, numa perfomance ao vivo. Havia um telão gigantesco, uma sonoplastia eloquente e três homens de gravata-borboleta lendo uma história no palco. Por aqui, ainda não existem informações detalhadas sobre o setor, mas empresas recém-lançadas apostam que os brasileiros também se renderão à moda. É o caso da Tocalivros e da Ubook.

Nos primórdios das gravações literárias, a ideia vigente era que a narração de um livro deveria se manter a mais neutra possível. Atualmente, modular a voz de acordo com o gênero da obra, ou segundo a personagem que está falando, virou a norma. Como escritora, comecei a ter alguma familiaridade com isso neste ano, quando a versão em inglês de um dos meus contos, Cavalos na Fumaça, foi adaptada para o formato. Gary Furlong, um irlandês radicado no Texas, narrou a trama. Em seu site, além de listar os equipamentos do estúdio que mantém em casa, ele se propagandeia como alguém capaz de reproduzir muitos sotaques e falar alguns idiomas. De fato, trata-se de um atributo essencial do narrador contemporâneo. Para quem rejeita a inovação, preferindo o mínimo de interferência na obra, certos exemplos podem soar bem radicais: num único livro da série Harry Potter, o narrador Jim Dale articulou 138 vozes diferentes. Roy Dotrice, ator de Game of Thrones morto no mês passado, gravou 224 vozes na versão em áudio dos romances que inspiraram a série televisiva.

Nesse mercado em ascensão, profissionais desconhecidos do público precisam concorrer com poderosas celebridades. Por um preço médio de 20 dólares, é possível ouvir Nicole Kidman emprestando a voz para Ao Farol, de Virginia Woolf, Kate Winslet lendo Thérèse Raquin, de Émile Zola, ou Jeremy Irons narrando Lolita, de Vladimir Nabokov. Isso sem contar as obras de não ficção. Por que alguém escutaria o novo livro de Hillary Clinton, What Happened, pelo intermédio de outra voz, se a própria ex-candidata democrata à Presidência americana pode nos contar, durante dezesseis horas e cinquenta minutos, o que aconteceu na última eleição?

 

A maior prova do status que os audiolivros adquiriram é o fato de que a Amazon entrou no negócio. Em 2008, por 300 milhões de dólares, a gigante do e-commerce comprou a Audible, empresa fundada em 1995 nos Estados Unidos, que comercializa – e agora também produz – toda sorte de entretenimento sonoro. A Audible, aliás, deve chegar em breve ao mercado brasileiro.

Em outubro deste ano, quando o e-reader Kindle Oasis foi lançado, boa parte da imprensa destacou o fato de o equipamento ser à prova d’água. Finalmente se tornou possível ler um romance na banheira. Por mais que a ideia tenha me atraído – embora me falte a banheira –, outro aspecto acabou ganhando minha atenção: o recurso batizado de Whispersync. Através dele, o leitor é capaz de sincronizar a versão eletrônica e a versão sonora de um mesmo livro. Em outras palavras: você pode estar lendo um romance em casa, e então sair para uma caminhada vespertina, e continuar ouvindo a obra do ponto em que a leitura se interrompeu.

Tudo isso leva à inevitável pergunta: o que explica o fascínio que os audiolivros ainda despertam? Em primeiro lugar, a tecnologia. A Bíblia de Cid Moreira ocupava nove cds em 2001. Hoje, com um smartphone, dá para baixar um romance de mil páginas em segundos ou escutá-lo em streaming.

A vida contemporânea multitarefa parece ser outra razão para a popularidade do formato. Dispomos de uma capacidade cada vez menor de nos focar numa única coisa por um longo período. Nesse sentido, fazer ginástica ouvindo uma narrativa de Dostoiévski tem tudo a ver com o Zeitgeist. Também soa bastante sedutor transformar aquele tempo morto no engarrafamento em uma oportunidade de “ler” sobre marketing, neurociência ou política internacional.

Não seria grande exercício de futurologia afirmar que, nos próximos anos, devemos ver os audiolivros se dissociarem consideravelmente da literatura, incorporando cada vez mais elementos de outras mídias. Muitas adaptações de obras literárias já estão tomando a liberdade de substituir o narrador único por elencos ruidosos e performáticos. Lincoln in The Bardo, romance do americano George Saunders que acaba de ganhar o Man Booker Prize, contou, em sua versão áudio, com 166 narradores. Entre os figurões, se destacam os hollywoodianos Ben Stiller, Juliane Moore e Susan Sarandon.

Outra tendência provável é que teremos uma profusão de narrativas escritas especialmente para serem escutadas, com trilha sonora e demais pirotecnias. Serão “filmes para os ouvidos”, pegando emprestadas as palavras do ator Alfred Molina, que narrou o drama The Starling Project. Em 2016, a obra ganhou o Audie Award, espécie de Oscar da indústria, na categoria Melhor Audiolivro Original. Como bem sabemos, a história é cíclica, e o avanço do conservadorismo mais tacanho parece tão possível agora quanto a volta das radionovelas.

Carol Bensimon

Carol Bensimon é escritora. Publicou O Clube dos Jardineiros de Fumaça pela Companhia das Letras.

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