esquina

Modelo para Modi

A colecionadora que não precisa ir a museu para ver Monet e Picasso

Carla Almeida
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2013

Elizabete Leite abriu a porta de seu apartamento em Copacabana e apontou um quadro no chão do hall. Era o retrato de um homem em trajes de época, pintado em tons sóbrios e traços precisos. “Esse aqui é um Da Vinci”, disse ela, sem afetação. Voltou-se então para uma tela atrás da porta, que exibia girassóis pintados em tons vibrantes de amarelo, com camadas grossas de tinta que davam volume à pintura. Disse que era de Van Gogh e explicou como identificar a autoria: “É fácil saber pelos tracinhos. Aqui a assinatura: Vincent.”

Ainda no chão do vestíbulo, jazia o retrato de um preto velho da lavra de Portinari e uma tela com uma figura humana disforme de cabeça e corpo sobrepostos – um Picasso, da fase do cubismo analítico. No apartamento há dezenas de outros quadros assinados por figurões da história da arte, de diferentes épocas, estilos e países. Todos pintados de olhos fechados, a maioria no século XXI.

Elizabete, economista carioca aposentada há cinco anos pelo BNDES, é uma espécie de mecenas da pintura mediúnica, modalidade em que médiuns recebem o espírito de artistas mortos e realizam obras segundo seu estilo. Começou sua coleção há mais de vinte anos e perdeu a conta de quantos quadros já adquiriu – muitos foram dados de presente. Ela estima que o acervo atual esteja em torno de sessenta telas, guardadas em três apartamentos em Copacabana. Mais da metade está naquele em que vive, na rua Souza Lima.

A disposição dos quadros não parece obedecer a afinidades temáticas, estilísticas ou cronológicas. Num quarto, o colorido alegre de Miró divide as paredes com as curvas de Tarsila do Amaral e um retrato de Chico Xavier feito por ninguém menos que Rembrandt. Na varanda, uma paloma de Picasso voa entre as cordas do varal. No corredor, um portentoso tríptico se destaca: é o Palácio de Versalhes assinado por Monet. “Quando ele estava pintando, comentei: ‘Que beleza, um quadro grande’”, contou Elizabete. “No que ele disse: ‘Minha querida, nem na França tem um tão bonito.’”

A algumas quadras dali, num apartamento que ela empresta para uma sobrinha, a economista prosseguiu o tour da pinacoteca. Mostrou com orgulho obras de Renoir, Toulouse-Lautrec e Matisse, até que deu pela falta de um quadro: “Não sei onde a Joana enfiou meu Kandinsky.” Na sala de estar, um Pollock colorido e diminuto fica de frente para dois retratos de narizes irregulares e olhos desencontrados. “Essa aqui é Tarsila do Amaral, e esse, Oswald de Andrade”, explicou. “Os dois eram namorados na Semana de 22, por isso os coloquei juntos.” A colecionadora cogita oferecer as telas à família da autora do Abaporu. “Mas não sei se eles iam querer um Picasso pintado mediunicamente.”

Elizabete diz que não tem um quadro preferido, mas não esconde o apreço especial por um retrato feminino pendurado em sua sala. Trata-se de uma mulher de cabeça alongada, nariz e boca cinzelados e olhos reduzidos a dois buracos azuis. “Esta sou eu”, disse, com um sorriso no rosto. “Estava vendo Modigliani em ação e de repente me dei conta de que ele estava pintando minha blusa. Fiquei emocionada. Quem diria que um dia Modi iria me pintar?”

 

Elizabete costuma comprar os quadros em centros espíritas, onde são realizadas sessões de pintura mediúnica. Paga de 350 a 600 reais por tela. O ritual começa com uma preparação do médium para receber o espírito do pintor. Movimentos ligeiros nas mãos e batidas sonoras na mesa indicam que ele está se instalando. O corpo do médium vai dando espaço à criação do espírito, sempre de olhos fechados e com tinta nos dedos – nada de pincel na psicopictografia, como também é chamada a técnica. Todo o procedimento não dura mais que poucos minutos.

Foi numa dessas sessões que Elizabete conheceu o médium Lívio Barbosa, a mão por trás da maioria dos quadros de sua coleção. Na ocasião, ele recebia Leonardo da Vinci, que pintou, atendendo a pedidos, o Caboclo Sete Flechas, entidade da umbanda. Quando percebeu o mal-estar causado em alguns presentes, Da Vinci sentiu-se no dever de discorrer sobre tolerância religiosa. Ao evocar o caso, a economista destacou a educação e a sabedoria do renascentista. “Ele deu um esporro nobre, com classe”, contou. “Só acabou de falar quando a gente já estava lambendo o chão.”

Lívio já recebeu cerca de cinquenta espíritos de pintores, escultores e escritores. “Eles querem provar que ainda vivem e mantêm sua individualidade”, disse ele, explicando por que os artistas ressurgem retomando os estilos que os tornaram famosos. “É um consolo, um amparo.” Com as mais de 5 mil telas que o médium calcula já ter feito, poderia ter ficado milionário. Mas ele disse que não ganha pelo trabalho. “A renda é revertida para a assistência.”

A economista não tem a menor dúvida quanto à autoria dos quadros. Apontou um vaso de flores de Monet e contou que tinha sido pintado de cabeça para baixo. “A médium pode ter treinado? Pode, mas já pintou assim milhões de quadros, em estilos diferentes, com a assinatura que os pintores usavam quando vivos.” Além disso, alegou, médiuns em todo o país fazem o mesmo trabalho, com resultados muito semelhantes. “Para ser fraude, eles teriam que ter combinado muito bem combinado, concorda?”

A verdade é que Elizabete não liga para o que pensam das obras e está felicíssima com seu acervo. Acha os quadros lindos, sente-se protegida por sua energia positiva e privilegiada por não precisar ir a museus para contemplar obras dos maiores nomes da história da arte.

Da última vez que foi a uma exposição de Monet, no Museu Nacional de Belas Artes, no Rio, decepcionou-se. “Era uma fila enorme para entrar. Quando vi os quadros, pensei: ‘Meu Deus, são horríveis comparados aos meus.’” Para ela, o caráter mediúnico das suas telas, que poderia desqualificá-las aos olhos de muitos, as valoriza ainda mais. “Vivo qualquer um pinta. Quero ver pintar morto!”

Carla Almeida

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