esquina

Mordomos do Maracanã

Como agem os vigilantes que ficam de costas para o campo

Renato Terra
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2013

Lucas Torres, um jovem corpulento de 28 anos, pele branca e cabeça raspada, estava de pé havia meia hora com as mãos para trás. Em minutos, o Fluminense daria o pontapé inicial da partida contra o São Paulo no Maracanã pelo Campeonato Brasileiro. Como uma estátua viva, Lucas mexia apenas os olhos, lépidos e inquietos como os de um camaleão. Voltado para a torcida, estava perfilado no gramado com outros quatro vigilantes atrás do banco de reservas do time da casa. De barba bem-feita, todos vestiam calça, sapatos e boné pretos e um colete verde-limão. Assim que soou o apito inicial, os cinco sentaram-se em perfeita sincronia, como se fossem golfinhos amestrados.

A 1 metro dali, uma dezena de torcedores do Fluminense se aboletou junto à mureta de concreto que separa a arquibancada do gramado. Smartphones e câmeras digitais em punho, eles gritavam palavras de incentivo para os reservas, como se chamassem um garçom num boteco barulhento.

No novo Maracanã, os espectadores das primeiras filas ficam a poucos metros do campo. No setor onde Lucas trabalha, um torcedor que esticasse o braço alcançaria o banco de reservas – desde que, claro, ele não estivesse lá para coibir, do alto de seus 2,02 metros.

A função dos vigilantes no gramado é intimidar possíveis invasores, como o que adentrou o campo na final da Copa das Confederações entre Brasil e Espanha. O torcedor pulou a mureta e as placas de publicidade e abraçou os jogadores enquanto a Seleção comemorava o título. Perseguido e imobilizado, foi retirado rapidamente, sem truculência, sob vaias da torcida.

A cena não se repetiu desde então. Caso volte a ocorrer, Lucas tem o procedimento padrão na ponta da língua. “O steward vai conter o invasor e o encaminhar ao JECrim junto com a Polícia Militar”, explicou, referindo-se ao Juizado Especial Criminal que fica dentro do estádio. “A gente entra como testemunha.”

O consórcio que administra o estádio às vezes chama os vigilantes de “controladores de público”, mas o termo que mais usam é steward, palavra em inglês que designa comissários de bordo e administradores, mas também mordomos. De fato, os profissionais gostariam que os torcedores se portassem como lordes durante os jogos. Quando um torcedor pôs os pés na cadeira à sua frente, um colega de Lucas sinalizou sem alarde, num gesto discreto com as duas mãos espalmadas para baixo, que ele deveria rever sua atitude.

“A gente sempre chega na educação”, disse Lucas. “O torcedor também é um cliente. Ele vem para assistir ao futebol e chega aqui para ser bem atendido.” Em caso de briga, os vigilantes são obrigados a agir com mais energia. Mas não são eles que se encarregam do trabalho pesado. “Atuamos para ajudar a Polícia Militar”, explicou o steward. “A função de conter tumultos é deles.”

Não houve briga para separar no jogo entre Fluminense e São Paulo, no terceiro domingo de novembro. Desde que entrou no gramado, às 15 horas, até o fim da partida, quatro horas depois, Lucas limitou-se a executar a coreografia sincronizada do senta e levanta. Aos dezessete minutos do primeiro tempo, Lucas fitou, impassível, o desânimo dos torcedores com o gol dos visitantes. Sete minutos depois, levantou-se, compenetrado, conforme mandava o figurino – era gol do Fluminense. O primeiro tempo terminou empatado.

 

Uma hora antes do início do jogo, acomodado num sofá de couro preto na recepção de um amplo escritório dentro do Maracanã, Lucas explicou que os vigilantes devem ficar de pé nos trinta minutos que antecedem o apito inicial. Depois, sentam-se em banquinhos para não atrapalhar a visão dos torcedores. Voltam a se levantar por alguns minutos em caso de gol, nos intervalos e quando o jogo termina. Passam a partida de costas para o campo e são proibidos de olhar para o jogo. “O torcedor vai agir no nosso erro”, explicou Lucas. “Pode ser o momento que ele vai pular e estragar nosso serviço.”

Os vigilantes também são proibidos de se manifestar em caso de gol. O tricolor Flavio Frajola, vice-presidente da Federação das Torcidas Organizadas do Rio de Janeiro, contou o caso de um deles que comemorou um gol tomado pelo Fluminense noutra partida. “Foi hostilizado pelos torcedores próximos até ser retirado dali”, disse. “Fizemos uma reunião com os administradores do Maracanã para que isso não acontecesse mais.”

Num dia de casa cheia, a administração do Maracanã pode escalar até 800 stewards. Naquele domingo, eles eram 600, para um público de 37 mil pessoas. Seis horas antes do jogo, estavam todos reunidos para receber instruções, uniforme e uma marmita com o almoço. Às 14h10, foram divididos em grupos – além dos stewards no gramado, há vigilantes nas arquibancadas, nas rampas de acesso e nas entradas do estádio.

O trabalho é coordenado por uma empresa de segurança privada contratada pelo consórcio. Ela tem um cadastro com mais de mil profissionais, que ganham como freelancers por jogo trabalhado. Lucas Torres é funcionário da empresa, mas atua como steward em dias de folga para complementar a renda. Naquele domingo, recebeu 90 reais. O valor não daria para bancar os 120 reais do ingresso do setor que ele estava vigiando – o Maracanã Mais, uma espécie de área VIP que oferece sanduíche e refrigerantes aos torcedores (havia também ingressos a 10 e 30 reais).

No segundo tempo do Fluminense e São Paulo, Lucas tampouco teve muito trabalho. Coçar a orelha por duas vezes foi o único movimento imprevisto feito por ele. Após o final da partida, cinco crianças se espremeram na mureta. Um menino queria chamar o zagueiro Gum, que marcou o gol da vitória do Fluminense dois minutos antes do fim. “Gum, me dá sua camisa!”, ele gritava insistentemente, enquanto o zagueiro dava entrevistas. Impaciente com a demora, o menino encarou Lucas e perguntou: “Posso invadir?” O steward sorriu pela primeira vez naquela tarde.



Renato Terra

Ex-editor do site da piauí, é colunista da Folha de S.Paulo e dirigiu Narciso em Férias e Uma Noite em 67

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