esquina

Movido a vapor vivo

Um hobby em extinção

Jr. Bellé
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2015

O técnico em eletromecânica Arnaldo Bottan possui desde o ano 2000 um Corsa azul modelo Millenium, mas nunca chegou a guardar o carro na garagem de seu sobrado, em Americanópolis, Zona Sul de São Paulo. Não é por falta de espaço: ali caberiam com folga dois veículos dos grandes. Mas o paulista de 69 anos preferiu aproveitar o espaço para construir uma oficina adaptada ao seu hobby: o live steam ou vapor vivo, um tipo de ferromodelismo que se dedica a fabricar miniaturas de locomotivas, motores, bombas e outras máquinas a vapor que fizeram a Revolução Industrial.

Bottan é um homem esbelto de nariz proeminente que nasceu em Lençóis Paulista e fez carreira como instrutor de mecânica no Senai até se aposentar no começo do século. Nas últimas quatro décadas, varou incontáveis madrugadas em meio a maçaricos, lixadeiras, fresadoras, tornos mecânicos e fornos de fundição. Também atravessou feriados inteiros praticamente sem ver Lourdes, sua mulher e maior entusiasta, enquanto construía as réplicas.

Algumas de suas principais criações estão dispostas sobre um conjunto de mesas na oficina metodicamente organizada. Há uma miniusina termelétrica a carvão e também uma pequena perfuradora de petróleo que parece pronta para agulhar o chão. O que mais chama a atenção são as réplicas das locomotivas que encurtaram as fronteiras do interior de São Paulo a partir do século XIX. Logo na entrada, sobre um cavalete, vê-se a carcaça de uma Mountain Class 4-8-2; mais adiante a réplica pintada em grená da pomposa Mikado Class 2-8-2, modelo Baldwin, que percorreu os trilhos da Estrada de Ferro Sorocabana, inaugurada em 1875.

As locomotivas são fruto de um trabalho paciente de precisão milimétrica. Cada peça – do chassi aos freios mecânicos, passando pela caldeira e os cilindros – foi projetada e forjada artesanalmente para compor uma réplica plenamente funcional. Construída em escala de 1 para 11,25, a Mikado fabricada por Bottan pesa 100 quilos, tem 1 metro de comprimento e é capaz de levar uma carga equivalente a sete adultos à velocidade de 10 quilômetros por hora.

 

“O prazer do vapor vivo não é só construtivo, mas também ‘rodativo’, pois o legal é botar o trem pra funcionar e, dessa maneira, chegar mais próximo do real”, explicou o ferromodelista numa manhã de abril, enquanto preparava a Mikado para cuspir fumaça. A locomotiva estava parada havia quase um ano e era preciso colocá-la para rodar, para que suas engrenagens não emperrassem. Como não há uma miniatura de ferrovia na oficina, a maria-fumaça foi montada sobre uma plataforma suspensa, de forma que girasse as rodas sem sair do lugar.

Bottan precisou de vários baldes d’água para completar o reservatório da Mikado. Depois de bombeado o líquido até a caldeira, abriu a diminuta porta da fornalha e encheu seu interior com pedaços de madeira. Acendeu-a, e pouco a pouco alimentou o fogo com carvão mineral. “Esse negócio está aqui na Terra desde antes dos dinossauros, dá uma fumaça de cheiro ótimo”, elogiou. Aos poucos, o ponteiro do pequeno manômetro que mede a pressão do vapor foi subindo. Quando atingiu a marca de 80 libras, Bottan soltou o freio e acelerou. A locomotiva ganhou velocidade imaginária, como se voasse 1 metro acima do chão.

“Ninguém fica indiferente diante de um trem”, afirmou Bottan, enquanto assistia à marcha imóvel da locomotiva com um sorriso no rosto. O transporte ferroviário, teorizou o ferromodelista, foi de suma importância para a civilização. “Você já se perguntou como se viajava antes do trem a vapor?” Ele próprio tratou de responder: “Não se viajava, com exceção do exército e de algumas poucas pessoas que se deslocavam a pé ou a cavalo.” Mas houve uma contrapartida bastante custosa para o encurtamento das distâncias. “O vapor transformou o mundo nessa porcaria que é hoje”, avaliou. “Quem inventou a combustão, os motores, a emissão em massa de CO2? Foi a máquina a vapor! Se James Watt tivesse deixado o mundo quieto, com seus bois e cavalos, não teria nada disso.”

 

Arnaldo Bottan deve a paixão pelos trens ao avô, que trabalhava como mecânico num engenho de açúcar e costumava levá-lo para conhecer as composições que paravam em Lençóis Paulista, onde passava um ramal da Sorocabana. Só descobriu a existência do vapor vivo anos mais tarde, quando, folheando uma revista especializada numa livraria, viu a foto de um menino comandando um trenzinho – grande para os padrões das réplicas em miniatura a que estava acostumado – que carregava outras crianças nos vagões. “Preciso comprar umas ferramentas”, pensou consigo mesmo. Montou sua primeira oficina na garagem da mãe.

Bottan cooptou o irmão, dez anos mais novo, e os dois passaram a trabalhar juntos nas miniaturas. A obra-prima da dupla talvez seja uma J1 Northern Class 4-8-4, modelo Baldwin 1947, que correu por décadas pela ferrovia Western Maryland, nos Estados Unidos. Com exceção do manômetro e do injetor, os irmãos forjaram cada peça da locomotiva. Foram doze anos e cerca de 4 mil horas de trabalho até terminá-la, em 1988.

A morte do irmão, em 2011, tirou de Bottan a disposição para se lançar em novas empreitadas de fôlego. Desde então, tem se limitado a construir máquinas menos complexas, como carros e usinas a vapor. O ferromodelista manifestou preocupação ao falar do futuro do hobby. Ele próprio não tem para quem passar o bastão – as filhas e os sobrinhos, que não chegaram a conviver com as marias-fumaça de verdade, não se contagiaram com a paixão dele e do irmão pelas réplicas. “O que vai motivar alguém que não viu nem viveu nada disso a continuar com o vapor vivo?”, indagou, melancólico. “Você consegue imaginar um jovem limando ferro no fundo do quintal hoje em dia? Não existe saudosismo de um passado que não se viveu.”

Jr. Bellé

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