esquina

Movidos a vapor

Eles são gente como a gente, mas pendem para o século XIX

Bruno Moreschi
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

O grupo de dezoito pessoas achava muito pertinente que o primeiro encontro oficial de steampunks brasileiros tivesse se realizado no Memorial do Imigrante, em São Paulo. De fato, estava-se à vontade naquele prédio antigo, entre milhares de documentos sobre a imigração para o Brasil no século XIX. O problema era o calor daquele sábado. Vestidos com dois ternos, perneiras, chapéus e gravatas apertadas, os homens suavam. As mulheres, com até três saias e os devidos espartilhos, pareciam a ponto de desmaiar como moças de antigamente. Todavia, apesar do bafo, a conclusão era uma só: o sarau estava supimpa, daqui, ó.

O primeiro foi em 2008. De lá para cá, houve outras quinze reuniões no Memorial. Nem todo mundo gosta: “Não temos nada contra eles”, diz o segurança José Guimarães, “mas que eles são estranhos, são. O dia de entrada gratuita mudou de sábado para domingo, mas não adiantou. Eles passaram a vir no domingo.”

O termo steampunk surgiu na década de 1980, quando os escritores americanos Bruce Sterling e William Gibson lançaram livros de ficção científica ambientados no século XIX. Durante uma entrevista, quando lhe perguntaram se havia criado um novo subgênero literário, Sterling concordou e, de brincadeira, juntou as palavras steam (“vapor”) e punk (referência, no caso, ao cyberpunk, uma vertente nostálgica da ficção científica) – era assim que definia sua escrita.

A coisa pegou rápido nos Estados Unidos e na Europa. Já no Brasil, a estética steampunk só chegou em 2007, quando o carioca Bruno Accioly, de 39 anos, criou o steampunk.com.br, o primeiro site em português sobre o tema. Bruno é categórico: “Steampunk é, acima de tudo, literatura.” Os integrantes do grupo costumam citar de memória textos de H. G. Wells, Júlio Verne, Edgar Allan Poe, Bram Stoker e Mary Shelley. “A Mary”–  assim mesmo, íntimo – “renovou o terror e a ficção científica. Ela criou um monstro com a ajuda da energia elétrica! Não é maravilhoso?” Para Bruno, Frankenstein é tudo.

Antes que o questionem, tolamente, sobre o motivo de os steampunks usarem celulares, computadores e outras maravilhas dos séculos XX e XXI, Bruno explica: “Não achamos que vivemos no século XIX. Somos pessoas de hoje fascinadas por um tempo que já passou.” Alguns steampunks resolvem de maneira criativa a suposta contradição. Por exemplo: customizam o teclado do computador para ter a impressão de que usam uma velha máquina de escrever.

Comparecer aos encontros vestido a caráter é prática sempre bem-vinda, mas não obrigatória. No entanto, se a pessoa decide se fantasiar, precisa usar a criatividade. Bruno explica: “Ninguém aparece de Darth Vader, um produto já inventado. Cada um é estimulado a criar seu próprio personagem, com suas características particulares.”

Jéssica Soares, de 24 anos, é um bom exemplo. Ela é Lady Jesse, mulher corajosa que luta contra a opressão masculina no século XIX. Seu figurino se compõe de uma saia preta longa, coturno, camisa branca e espartilho bem apertado. Para não enjoar da personagem, Jéssica às vezes aparece como Alice, a do País das Maravilhas.

Em contato telefônico, Lady Jesse explicou o lado bom de ser uma steampunk mulher: “O senhor há de concordar comigo”, diz ela, a um repórter de 28 anos, “pelo menos publicamente, os senhores do século XIX eram muito mais educados com as senhoras e as senhoritas.” A Jéssica do século XXI toma a palavra: “É tão mais legal um homem beijar a minha mão, dar passagem e me convidar para um chá das cinco…” No dia a dia, Jéssica e seu povo não adotam a moda do século retrasado, mas normalmente, quando vão às reuniões, saem de casa já caracterizados e, de preferência, usam transporte público, para chamar mais atenção. Não raro, os rapazes ouvem um comentário simpático: “Que lindo! Meu pai/avô/antepassado se vestia assim!”

 

Em São Caetano do Sul, no ABC paulista, mora um dos mais ativos steampunks do Brasil. Hoje com 24 anos, Cândido Ruiz era um moleque de 8 anos quando leu O Homem de Areia, um conto de 1815 do alemão E. T. A. Hoffmann. É a história de um rapaz, Nathanael, que encontra o suposto assassino do pai. Nascia ali uma paixão pelo século XIX. Quando se deparou com o site criado por Bruno, Cândido viu que outras pessoas também flertavam com o passado. Não teve dúvida: mandou um e-mail para Bruno e, dali a pouco, estavam bolando um plano de expansão do steampunk no Brasil.

A ideia era criar um conselho amplamente democrático, do qual qualquer um poderia participar sem maiores enrolações formais. Em pouco tempo, o movimento já contava com membros por todo o Brasil. Veio então uma segunda ideia: criar lojas regionais. Não, não se tratava de barraquinhas para vender relógios de bolso ou polainas. Como na maçonaria, lojas seriam os locais de encontro.

Atualmente existem lojas em doze estados, todas com site próprio. Cada uma tem sua especialidade. São Paulo, a mais ativa, revela talentos literários e conta com membros que produzem vestuário do século XIX à perfeição. Rio de Janeiro cuida mais de conteúdo para a internet. Minas anda parada, mas é famosa pela produção de ilustrações segundo os cânones da estética steampunk. Rio Grande do Sul é bamba na confecção de joias com cara de priscas eras.

Cândido Ruiz adora quando lhe perguntam se, no Brasil, não é meio fraquinho o catálogo de grandes vultos históricos ao gosto steampunk: “Engano! Os brasileiros têm, sim, ídolos steampunks nacionais!” Ele recita: Santos Dumont, Barão de Mauá, José do Patrocínio, o fictício Brás Cubas… Um nome, porém, merece dele uma explicação emocionada. Vocalizando os sentimentos da maioria, afirma: “Dom Pedro II – esse era um legítimo steampunk. Foi um homem incrível, que incentivou a cultura e as inovações tecnológicas no Brasil.”

Quem precisa de Napoleão? Quem precisa de rainha Vitória? Quem precisa de vultos estranhos aos nossos costumes, à nossa história, à nossa índole? Já insinuava Pero Vaz de Caminha: nesta terra, em se plantando, dá. Eles estão entre nós, e crescendo. Já passam de 200 os steampunks nacionais.

Bruno Moreschi

Bruno Moreschi, jornalista e artista plástico, é coautor de 501 Grandes Artistas, da Sextante.

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