esquina

Mundo animal

A vaca foi pro brejo e voltou pop

Clarissa Barreto
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

Misturado a meio milhar de integrantes da nata – é bem a palavra – cultural porto-alegrense, o estudante de design Lucas Dalla Costa, de 21 anos, vivia as primeiras delícias da vida de artista consagrado. E muito urbano, sem maior contato com bovinos a não ser nas visitas ao açougue, jamais poderia imaginar que em breve seria vítima de um abigeato, mal que movimenta 300 milhões de reais por ano só no Rio Grande do Sul, além de levar boa parte dos brasileiros ao dicionário. Abigeato é roubo de gado.

Criador de uma das 81 vacas da primeira Cow Parade gaúcha, Lucas havia chegado ao vernissage com dois amigos. Alegres com o andar da vida e com o open bar, o trio lançava olhares de orgulho em direção ao espécime de fibra de vidro concebido por Lucas, aparentemente sob influência do artista plástico Romero Britto e do estilista Emilio Pucci. A hipercolorida Cowó(p)tica seria instalada durante a madrugada numa esquina da capital. Como a noite era ainda jovem, os três se despediram dos circunstantes e da vaca e rumaram para a boemia. Não tinham como desconfiar que talvez estivessem vendo Cowó(p)tica pela última vez.

A Cow Parade surgiu no final da década de 90, em Chicago, e funciona assim: artistas – de famosos na praça a famosos entre os parentes mais chegados – entram num concurso e, se selecionados, ganham o privilégio de espalhar bovinos pela cidade da vez. A ideia já foi levada a cinquenta cidades mundo afora. E há quem a considere a maior exposição de arte ao ar livre do mundo.

Os três amigos não pensavam em nada disso. Divertiam-se apenas na noite etílica, como soi aos artistas laureados & entourage. Não era nada, não era nada, Lucas fora uns dos setenta escolhidos, dentre 766 candidatos, a decorador de vaca. Até recebera mil reais para dar alma a uma das 81 carcaças despachadas de São Paulo pela fábrica de ruminantes. (Onze delas, destinadas a carregar o logotipo dos patrocinadores, não tiveram o gostinho de sentir o bafo de um artista no cangote.) Em questão de horas, portanto, a primeira obra com sua assinatura cairia no mundo, para maior embelezamento de Porto Alegre. Era bom demais. Ao amanhecer, Lucas, é natural, ficou com vontade de lamber a cria e se mandou para a esquina expositiva.

Qual não foi a sua cara de tacho ao dar com o asfalto nu, árido como o deserto. Obra nenhuma ornava o local correspondente às coordenadas fornecidas pelos organizadores. De vacas psicodélicas, então, nem uma pegadinha. A hora, a falta de sono e as libações o levaram a supor que se enganara quanto ao endereço.

Indiferente às angústias comezinhas do dia a dia, como é próprio dos artistas, Lucas deixou assim e resolveu dar uma passadinha no hospital para visitar o avô, o qual encontrou muito bem disposto. Melhor ainda, contudo, estavam sua mãe (a dele, Lucas) e sua avó. As duas mal se continham de tanto orgulho materno e avoengo: “Vamos ver a vaca do Lucas! Vamos ver a vaca do Lucas!” Foram.

 

No caminho, Lucas se certificou do paradeiro da vaca com a gerente do projeto, Daniela Santarosa. De fato, ela fora depositada na esquina diametralmente oposta. Isto é, assim lhe disse Daniela, porque, mais uma vez, o que ele encontrou foi um grande vazio. Lucas começou a se inquietar. Telefonou de novo a Daniela, que de novo lhe garantiu ter presenciado a instalação da vaca exatamente naquele local. Devia ser confusão da transportadora, calma, ela ia checar, a coisa logo se resolveria. Tudo bem, ele não ia entrar em desespero, mas a vaca parecia ter ido para o brejo. Difícil não se sentir personagem de piada pronta.

Passaram-se umas trinta horas e nada. Sem notícias de Cowó(p)tica, a organização propôs a Lucas que fizesse uma nova vaca, para o que lhe dariam outros mil reais. O jovem se conformou. Verdade que nem tudo era abismo e dor, pois o sumiço já lhe rendia certa notoriedade. Uma amiga com tino comercial criara o twitter @AVacaSumida e, uma hora depois, a conta registrava para lá de 400 seguidores. Jornais, rádios e TVs pediam entrevistas com o artista.

 

Foi minutos antes de uma charla para um dos programas de maior audiência da televisão gaúcha que se fez a luz. Enquanto a repórter Shirlei Paravisi ultimava os preparativos para entrevistar o rapaz no próprio locus delicti, Lucas, à toa, distraía-se com aquela movimentação ali, do outro lado da rua. A porta de um prédio se abriu e lá de dentro, bingo, saíram dois homens carregando um grande objeto. “Olha a vaca! Olha a vaca!”, gritou o cinegrafista. Desconcertados, repórter e celebridade se entreolharam, sem saber direito a quem se dirigia o epíteto.

Nesse ínterim, olímpicos, os carregadores depositavam a escultura no chão e já iam embora dali, mas foram abordados a tempo pela repórter. Um deles saiu na carreira. O outro tentou acompanhar, mas algum copo a mais acabou atrapalhando, se via. Sem saída, o indivíduo achou melhor esclarecer o que ele e o colega faziam com uma vaca embaixo do braço.

Foram duas versões. Na primeira eles desempenhavam o papel de anjos da guarda. Ao tomarem conhecimento de que a obra seria levada ilegalmente para uma casa de jogos com o intuito de distrair a freguesia, haviam decidido, para o bem da cidade, surrupiá-la antes dos meliantes. Passado o perigo, vinham restituir o tesouro aos cidadãos. Não colou. Na segunda, mais espiritual, ambos haviam sido tocados pelo sublime da arte e, não compreendendo por que objeto tão belo fora largado ao relento, decidiram abrigá-lo no apartamento em que moravam. Colou menos ainda. De passagem por ali, um morador das redondezas os reconheceu como notórios punguistas. O ato não passava de húbris, simples assim. Seus dois praticantes, sem ter o que fazer com o butim, vinham agora devolvê-lo à cena do crime.

No fim, foi bom para todo mundo. A Cow Parade de Porto Alegre, em cartaz até 20 de novembro, ganhou uma ótima projeção na imprensa. A vaca surrupiada melhorou de CEP, trocando a singela esquina no centro de Porto Alegre pela avenida Padre Chagas, um dos melhores endereços para quem quer ver e ser visto em POA.

Tendo sido capaz de, com sua arte, despertar a concupiscência do elemento criminal, Lucas Dalla Costa, agora ilustre, tem esperança de que sua vaca alcance um bom valor no leilão que a organização do evento promoverá em dezembro, com renda revertida para entidades beneficentes. E nem mesmo os abigeatários têm do que se queixar. Continuam pés de chinelo, mas agora seu prontuário ostenta 15 minutos de estágio como ladrões de arte, a aristocracia do ramo. Em filme de Hitchcock, seriam interpretados por Cary Grant.

Clarissa Barreto

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