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    CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2022

esquina

Na ponta do dedo

O descobridor de uma espécie extinta visita o Brasil

Bernardo Esteves | Edição 195, Dezembro 2022

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Johannes Krause abriu um sorriso ao se deparar com o pedaço de um dedo humano que o aguardava em sua mesa de trabalho numa manhã de 2009. Tratava-se de um fragmento de osso de 70 mil anos encontrado na Caverna Denisova, nos Montes Altai, Ásia Central, e enviado ao geneticista alemão dentro de um envelope acolchoado. “Nem todos ficariam felizes se encontrassem pedaços de corpos decepados vindos da Rússia antes mesmo do café da manhã”, brincou Krause no livro A Jornada dos Nossos Genes, escrito em parceria com o jornalista Thomas Trappe e lançado no Brasil neste ano pela Sextante. O cientista ainda não sabia, mas aquela falange abriria um capítulo até então desconhecido do passado.

Krause é um especialista em arqueogenética, que consiste no estudo do genoma de linhagens humanas antigas. Analisando o DNA extraído daquela falange, ele descobriu que seu portador – uma menina que teria entre 5 e 7 anos – não pertencia a qualquer espécie conhecida. “O DNA mostrou que não se tratava de um neandertal e nem de um humano moderno. Era algo novo”, contou Krause à piauí durante uma visita ao Brasil, em novembro. O alemão e seus colegas propuseram que o osso seria de uma espécie arcaica de humanos, batizada de denisovanos. A espécie foi descrita com base no seu genoma, e não a partir da sua anatomia, como acontece normalmente. “Foi incrível descobrir uma nova espécie humana no laboratório, e não numa caverna”, afirmou o geneticista.

Antes disso, Krause tinha feito parte da equipe que assombrou o mundo quando anunciou o sequenciamento do genoma dos neandertais extraído de ossos encontrados na Croácia. O coordenador desse projeto foi o sueco Svante Pääbo, seu orientador de doutorado. Por suas inovações na pesquisa genética de espécies humanas extintas, Pääbo ganhou sozinho o Nobel de Fisiologia ou Medicina deste ano. Diretor do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, em Leipzig – onde Krause trabalha desde 2020 –, o sueco custou a acreditar que havia mesmo ganhado o prêmio. Seus colegas o convenceram com um trote. “Sempre que um aluno defende sua tese, nós o jogamos no lago perto do instituto”, conta Krause. “Agora temos uma nova tradição: sempre que alguém ganhar o Nobel, também vai para o lago.”

 

Krause tem 42 anos e é natural de Leinefelde, um vilarejo que na época fazia parte da Alemanha Oriental. No mesmo local, quase dois séculos antes, nasceu Johann Carl Fuhlrott, o naturalista que demonstrou que um crânio encontrado em 1856 no Vale de Neander do Rio Düssel pertencia a humanos desconhecidos até então, os neandertais. Em seu livro, Krause conta que Fuhlrott era um de seus ídolos na adolescência.

Denisovanos, neandertais e Homo sapiens têm ancestrais comuns. A linhagem se dividiu depois que saiu da África: grupos que foram para a Europa e para o Oriente Médio deram origem aos neandertais, e aqueles que ocuparam a Ásia geraram os denisovanos. Indivíduos das duas espécies conviveram e se reproduziram com os humanos modernos. O DNA de boa parte da população do planeta tem de 2% a 2,5% de genes dos neandertais; já o DNA denisovano está presente em cerca de 5% do genoma de povos nativos da Austrália, de Papua-Nova Guiné e das Filipinas. “Um jeito de ver as coisas é dizer que essas espécies foram extintas”, explica Krause. “Outro jeito é dizer que elas são parte de nós agora.” Uma análise comparada dos genomas das três espécies mostrou que, nas proteínas produzidas pelos Homo sapiens, há menos de cem aminoácidos que não aparecem no caso dos neandertais ou dos denisovanos. “Temos a informação de quais genes são diferentes. O próximo passo é entender o que eles fazem, e isso está só começando.”

Em um segundo livro, também escrito em coautoria com seu amigo e padrinho de casamento Thomas Trappe, Krause tenta explicar o sucesso evolutivo da humanidade – e seus limites. “Nossa história é de expansão, mas agora não há mais para onde ir, porque já ocupamos o planeta inteiro e os recursos são limitados”, diz. O título do livro, que ainda não foi lançado em português, é Hybris – palavra de origem grega que designa a arrogância que conduz os heróis das tragédias ao desastre. Para Krause, nossa sobrevivência depende de renunciarmos ao expansionismo que nos trouxe até aqui. “Podemos parar de ser nós mesmos?”, questiona-se o alemão.

 

Na passagem pelo Brasil, Krause conheceu o Laboratório de Arqueogenética da Universidade de São Paulo, o primeiro da América Latina com tecnologia de ponta para a extração de DNA de fósseis, ainda em fase de instalação. À frente do projeto, está o arqueólogo André Strauss, da USP, que fez doutorado na Universidade Tübingen, quando Krause lecionava lá.

Strauss teve a ideia de extrair DNA dos crânios que havia escavado com a equipe do bioantropólogo Walter Neves na região de Lagoa Santa, em Minas Gerais. Krause reagiu com ceticismo. “Na época, achei bem improvável que ele conseguisse tirar DNA de um material de 10 mil anos do Brasil”, diz o alemão. Isso porque os ambientes tropicais não favorecem a preservação do material genético, por causa das altas temperaturas, da umidade e da acidez do solo. “Pense em como você guarda a comida em sua casa”, propôs o geneticista. “Você vai deixá-la na geladeira, e não em cima da mesa.”

Strauss insistiu na ideia e acabou convencendo Krause a fazer uma tentativa. O brasileiro levou amostras coletadas em Lagoa Santa para o laboratório do professor alemão, onde o DNA foi extraído com sucesso. A empreitada improvável deu certo graças a uma inovação recente na arqueogenética: os cientistas passaram a tirar DNA do chamado osso petroso, a parte interna do osso temporal, que é muito densa e propícia à preservação do material genético. “Isso mudou tudo”, diz Krause.

A colaboração com os brasileiros desdobrou-se na montagem do Laboratório de Arqueogenética da USP, cuja inauguração deveria ter ocorrido neste ano, mas foi adiada para 2023. “Para nós, era muito importante que o projeto tivesse transferência de conhecimento e envolvesse geneticistas brasileiros”, diz Strauss, que lidera na USP um grupo de pesquisa financiado pela Sociedade Max Planck para o Avanço da Ciência e também é um dos coordenadores do novo laboratório, este bancado na maior parte pela Fapesp.

Quem vai conduzir a extração de DNA é o geneticista Tiago Ferraz, que foi treinado na Alemanha com a equipe de Krause durante seu doutorado. Numa palestra em São Paulo, Ferraz anunciou que pretende extrair DNA de indivíduos exumados na Amazônia. Krause notou que ainda há dúvidas sobre a densidade e a diversidade do povoamento da região no passado profundo. “A genética pode ajudar a resolver alguns desses enigmas”, diz.