esquina

Na taverna com o pit bull

O grande nome do romance policial escandinavo por pouco não virou futebolista

Paulo Nogueira
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

Como bom norueguês, Jo Nesbø gosta de jogar bola. Os súditos do rei Harald V, como todos sabem, são aficionados por futebol. Há 1 800 clubes na Noruega, número mais que razoável para um país de 4,9 milhões de habitantes. Não obstante, tratam a bola como se fosse quadrada – um reflexo talvez do O cortado que trazem no alfabeto e que Nesbø carrega no sobrenome. Previsivelmente, não é por sua habilidade com a redonda que esse homem alto e magro é conhecido na Noruega e no resto do mundo.

Nesbø é a coqueluche do atual romance policial. Traduzido para quarenta línguas, Millenium já vendeu mais de 10 milhões de exemplares – só no Reino Unido, as livrarias desovaram este ano, até agosto, um livro seu a cada 27 segundos cravados. Sua popularidade suscitou no taciturno – e nada modesto – James Ellroy o seguinte resmungo: “Sou o melhor escritor policial vivo. Jo Nesbø é um cara que está mordendo o meu calcanhar como um pit bull hidrófobo, pronto para tomar meu manto quando eu morrer.”

O norueguês é a joia da coroa de um curioso fenômeno literário que tem vendido às baciadas: o romance policial escandinavo. Seus expoentes formam uma plêiade de nomes com tremas improváveis e atravancados de consoantes: Camilla Läckberg, Mons Kallentoft, Klas Östergren, Lars Kepler. Sem esquecer o padroeiro da confraria, o best-seller póstumo Stieg Larsson, cuja trilogia já vendeu mais de 60 milhões de exemplares.

Mas evite perguntar a Jo Nesbø se foi influenciado por Larsson. Ao ouvir tamanho acinte à mesa de uma taverna pouco recomendável no centro de Oslo, o norueguês franziu o nariz de pugilista e emborcou um copioso gole de cerveja, que lhe pintou uma lagarta de espuma no bigode. Só então dardejou com a voz rouca respingando desdém: “É engraçado ser anunciado como o sucessor natural de um escritor cujos livros vieram depois dos meus.”

Diante da gafe, melhor sair pela tangente. Futebol não costuma falhar nessas ocasiões: então é verdade que ele foi jogador, como Camus e Nabokov? O brilho nos olhos do escritor atestou o sucesso da estratégia. “O futebol foi uma grande paixão”, disse ele, dissipando a tensão no ar. Nesbø estreou com 17 anos no Molde FK, time da primeira divisão norueguesa, fato fartamente sabido em Arapiraca. “Meu sonho era jogar na Inglaterra, pelo Tottenham. Desatei a cabular as aulas. Se você falar com os meus professores do ginásio, nenhum vai se lembrar de mim”, contou.

Aos 51 anos, Nesbø tem a cabeça raspada, talvez para despistar as entradas proeminentes. Está muito à vontade naquele bar que lembra o pub Underwater, reduto frequentado pelo protagonista de seus romances – o detetive Harry Hole (pronuncia-se Rulé). Seu investigador é um louro alto, tabagista e alcoólatra que integra os quadros da polícia de Oslo, apesar do temperamento explosivo e dos métodos abilolados.

 

Nesbø largou os estádios quando rompeu os ligamentos do joelho. Não chegou a ser uma perda irreparável para o esporte bretão. Por outro lado, ele pôde explorar diferentes vocações. Quando um sujeito o abordou num café e perguntou se era verdade que ele tocava guitarra, não pensou duas vezes. “Eu só sabia três acordes, mas não o desmenti, porque a ideia de ter uma banda me agradava”, contou, antes de traçar o segundo chope. “Nunca conquistamos o mundo, mas chegamos a gravar um disco, que vendeu 25 cópias”, informou.

O début modesto não o demoveu de prosseguir na música. Como ninguém tivesse atentado para suas limitações técnicas, Nesbø ainda formou outra banda, a Di Derre, que logrou mais êxito, lançou discos e até ganhou um prêmio. A banda segue na ativa, ainda que intermitente e um tanto diletante. Nesbø é letrista, vocalista e guitarrista.

Cioso do seu talento musical, decidiu estudar administração, para não depender da banda para viver. Conseguiu emprego na principal empresa de corretagem de ações da Noruega e foi engolido pelo sistema financeiro. “Depois de um ano, eu estava tão estressado que odiava todo mundo no trabalho, a começar por mim mesmo. Joguei a toalha.”

A literatura deve à frustração de Nesbø com a Bolsa de Valores o surgimento de Harry Hole. Ele decidiu se mandar para o mais longe possível – no caso, a Austrália. Levou consigo um laptop, pois uma editora tinha sugerido que escrevesse um livro sobre as peripécias da banda na estrada. “Foi então que caiu a ficha: eu podia aproveitar e encetar um romance”, contou. “E só há duas coisas sobre as quais vale a pena escrever: amor e assassinatos.” Para a fortuna dos fãs da ficção de mistério, Nesbø ficou com a segunda opção.

O voo até Sydney durou treze horas, o bastante para Nesbø conceber o personagem e a trama da aventura inicial. “Quando cheguei ao hotel, comecei a passar a história para o computador. Era de madrugada, eu estava fora do fuso horário e escrevi sobre um cara chamado Harry, que tinha aterrissado no mesmo aeroporto de Sydney, se hospedara no mesmo hotel e estava com jet lag”, contou o escritor, em quem a cerveja já dissipara qualquer resquício de rancor. “Ao voltar da Austrália, desatei a escrever de novo assim que pousei a mala na sala”, prosseguiu. “Escrevi compulsivamente, ficava irritado com as interrupções para comer e dormir. Foram as melhores semanas da minha vida.”

 

A série Harry Hole já tem nove volumes. Nesbø situou a ação de alguns dos primeiros na própria rua em que morava. Depois mudou-se, e com tal pontaria que viu da sua janela um dos atentados que mataram oito pessoas em Oslo em julho passado. Foi um episódio atípico na capital do país com maior índice de desenvolvimento humano do planeta (não há de ser fortuito que o Nobel da Paz seja entregue lá).

Na ocasião, Nesbø escreveu sobre o caso para o New York Times: “Durante muitos anos, parecia que nada mudava. Uma pessoa podia deixar a Noruega por três meses para percorrer o mundo, passando por golpes de Estado, assassinatos políticos, crises de fome coletiva, massacres e tsunamis. Ao regressar a casa, a única coisa que tinha mudado nos jornais eram as palavras cruzadas. Agora isso acabou.”

Apesar do vaticínio de Nesbø, a rotina pacata das capitais nórdicas continua passando longe dos assassinatos em série relatados nos seus livros e nos de seus colegas. Nem Harry Hole explica por que a Escandinávia se tornou um celeiro de romances policiais.

Jo Nesbø vinha recusando sistematicamente propostas para adaptar as aventuras de seu detetive para o cinema. Dizia querer primeiro encerrar a série, que ainda terá mais dois títulos. Mas acabou cedendo à pressão de uma produtora e vendeu os direitos do romance Snømannen. Não se sabe ainda qual será o diretor ou o elenco, mas o escritor já pensou num ator para o papel principal. “Nick Nolte seria perfeito”, revelou. Com seu jeito de um Anthony Hopkins mais jovem, esguio e beberrão, o próprio Nesbø é que daria um bom Hole.

Paulo Nogueira

Paulo Nogueira, jornalista e escritor brasileiro radicado em Lisboa, é crítico literário do semanário Expresso. Autor de O Amor É um Lugar Comum, da Oficina do Livro.

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