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    ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2010

esquina

Não dá jogo

A impossível missão de acompanhar a Seleção por escrito

Clara Becker | Edição 46, Julho 2010

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José Orenstein tem 24 anos e faz parte de um grupo de brasileiros cujos direitos humanos sofrem maus tratos de quatro em quatro anos. Zé, como é chamado, não foi liberado do trabalho durante os jogos do Brasil na Copa do Mundo.

Há pouco tempo no Estado de S. Paulo, tudo ia muito bem até que decidiram transferi-lo para a seção online de esportes do jornal. Novato e sem poder de barganha, aceitou com estoicismo a missão de transmitir ao vivo o minuto-a-minuto das partidas, ou seja: a ele caberia descrever cada lance do jogo para o internauta sem-tevê. A tarefa requer a habilidade de resumir em palavras uma jogada sem perder a próxima, tudo sob a pressão do ao vivo. É preciso ver, escutar, escrever e revisar em questão de segundos.

Zé não desfrutou de um longo aprendizado. De jeito nenhum. Soube o que lhe caberia fazer numa conversa informal. No mesmo dia – um domingo de junho, a menos de dez dias da estreia do Brasil –, puseram-no para testar o que pescara num Botafogo x Corinthians. No afã de explicar tudinho – até mesmo cobrança de lateral –, acabou se atrapalhando um pouco, mas logo pegou o jeito e acabou se desincumbindo bem da tarefa.

No dia 11 de junho, graças ao Zé, quem quis pôde acompanhar o minuto-a-minuto de França x Uruguai pelo site do Estadão. Zé não faz muita ideia de quem é a sua audiência. “Sei que o meu pai me acompanha”, disse. Já era alguma coisa, embora suspeitasse que nem mesmo o pai seria solidário dali a quatro dias, quando o selecionado brasileiro entrasse em campo. “Que enfermidade pode afligir a alma de alguém que decide acompanhar jogo do Brasil em Copa pelo minuto-a-minuto?” – era a pergunta que ele se fazia.

No dia 15 de junho, Zé chegou cedo à redação. Estava tranquilo. A partida começaria às 15h30, e às 14h ele passou a acompanhar o pré-jogo em três pequenas televisões sintonizadas em canais diferentes. Às 14h42, com alguma solenidade, colocou no ar o primeiro comentário: “Aproxima-se a hora da estreia do Brasil na Copa do Mundo da África do Sul. A torcida já ocupa a maior parte dos lugares do Ellis Park e faz soar as vuvuzelas. Faz muito frio em Johannesburgo.” Ficou satisfeito. A coisa tinha certo punch e preparava bem o terreno.

Ao seu redor, a redação decorada de bandeirinhas ia se tomando de ufanismo. Repórteres sopravam cornetas e vuvuzelas. Como um mestre oriental, Zé estava alheio à balbúrdia – ele e o minuto-a-minuto eram uma coisa só. Às 15h21, escreveu: “O técnico Dunga chega em campo.” Não gostou da frase, achou-a sem lustre. Coçou a barba, apagou e, constatando que a reflexão dera tempo para que Dunga seguisse caminho, reescreveu: “O técnico Dunga já está no banco de reservas do Ellis Park.”

“15:30:00 COMEÇA O JOGO! – Rola a Jabulani nos pés do time coreano.” Um silêncio pesado se instalou na redação. Pelos próximos 90 minutos, se Bin Laden aparecesse de sunga em Copacabana ou Serra declarasse adesão à candidatura de Dilma Rousseff, a notícia não seria dada em primeira mão pelo Estado de S. Paulo. Aqui e ali, começaram a surgir os primeiros protestos de “Fora, Kaká!” Zé, mais ponderado, limita-se a escrever: “15:52:21 Kaká faz o que não costuma fazer e erra feio ao tentar inverter o jogo, mandando a bola pela lateral”; e também: “15:55:24 Kaká novamente erra passe em jogada construída pela direita.” Zé mantém a paixão sob rédea curta até às 16h06, quando sucumbe à tentação de uma crítica mais contundente: “Kaká está visivelmente sem ritmo de jogo e errando passes simples.”

Revoltada, a redação aplaude os contra-ataques norte-coreanos.

“16:16:45 FIM DO PRIMEIRO TEMPO – O árbitro ergue o braço e os times vão para o vestiário do Ellis Park”. Zé se estica e solta um suspiro fundo. É imediatamente caçoado por um dos seus chefes: “Isso é que dá pôr botafoguense pra cobrir jogo do Brasil.” O rapaz desdenha – já está acostumado a esse tipo de piada sem graça?– e decide fazer uma apreciação geral dos primeiros 45 minutos: “O Brasil mostra muita dificuldade de furar a retranca armada por Kim Jong-hun, técnico da Coreia do Norte. Kaká está mal em campo e não consegue dar criatividade ao time de Dunga. Robinho tenta criar espaços com dribles sem sucesso.” Não é um texto para os anais da crônica esportiva nacional, mas é preciso levar em conta que Zé está descrevendo uma das exibições mais desbotadas da Seleção em anos.

 

O segundo tempo começa e a esperança de alguma alegria se acende logo aos dez minutos. “Goooooolllllllll – o Brasil abre o placar com belo chute de Maicon, quase sem ângulo, pela direita. Ele recebeu passe em profundidade de Elano e mandou entre o goleiro e a trave. 1 a 0 para o Brasil.” A grafia de “gol” foi objeto de muita reflexão pelos cabeças do jornal. Para início de conversa, é proibido o uso de exclamações, pois elas não fazem o feitio da casa, são por demais sensacionalistas. A palavra deve ser escrita em caixa-alta com apenas três Os e três Ls. “Me emocionei”, disse Zé, justificando-se pela proliferação de letras.

Contido nas onomatopeias, que julga fáceis, aos 17:05:34 ele não resiste a um “UUHHH”. É o atacante Nilmar, que “na sua primeira participação recebe a bola de frente pra área e já arrisca o chute”. Zé também busca imprimir certa originalidade a suas frases. Em nenhum outro minuto-a-minuto jogadores “adentram” o campo ou torcedores agitam “flâmulas”, palavra que usa para evitar a repetição de “bandeira” – um exemplo notável do que a velha estilística batizou de “sinonímia opulenta”.

Formado em relações internacionais, Zé tem preocupações humanitárias e teme que o goleiro Ri Myong-guk possa ser levado a algum campo de trabalhos forçados como punição pelo segundo gol brasileiro, agora grafado com um número bem mais avaro de Os e Ls. Quando tudo levava a uma vitória sólida e medíocre, Ji Yun-nam marca o gol norte-coreano. Como se estivessem instalados em Pyongyang, a redação explode de felicidade. Se estivessem no comando do teclado, batata: espichariam até o limite a quantidade de Os e Ls e terminariam o serviço pingando dúzias de exclamações no gol adversário.

Zé, não. Profissional, registra protocolarmente o tento e, minutos depois, imbuído de compostura britânica, encerra o expediente com um simples “FIM DE JOGO – Acaba a partida no Ellis Park com vitória brasileira na estreia da Copa de 2010.”