esquina

Não desligue

Rush Limbaugh quer falar com você

Bruno Moreschi

Há cinco meses o radialista americano e conservador linha-dura Rush Limbaugh abre a caderneta, pega o telefone e disca um DDI para entabular uma estranhíssima conversa com jornalistas mundo afora. Os telefonemas acontecem sempre às segundas, quartas e quintas. Ao ouvir o alô do outro lado da linha, Limbaugh põe em campo sua voz aveludada e profunda: “Não desligue. Sou Rush Limbaugh, um americano que teme pelo futuro dos Estados Unidos.”

Raras vezes a pessoa do outro lado da linha desliga. Não só porque dias antes foi avisada por um assessor de que o Messias poderia ligar — Limbaugh declarou sobre o Todo-Poderoso: “Deus acha que é Rush Limbaugh” —, mas sobretudo porque o homem que quer falar com você é, nada mais, nada menos, a nova liderança do Partido Republicano. Ou pelo menos é isso que a Casa Branca anda espalhando. “Ele é a voz, a força intelectual e a energia do GOP”, declarou o chefe da Casa Civil de Obama, o democrata Rahm Emanuel, referindo-se ao Grand Old Party, nome de guerra do partido de Reagan e Bush.

Esse estado de coisas causa palpitações nos conservadores mais moderados. Com seu avião particular, seus charutos babados, seu namoro com remédios tarja-preta e sua retórica tonitruante e agressiva — “Eu quero que Obama fracasse!” —, Limbaugh é um prato cheio para os democratas. Bons de estratégia, eles decidiram, à revelia das lideranças do Partido Republicano, entronizar Limbaugh como a cara da oposição — algo assim como fazer correr o boato de que o arcebispo de Olinda e Recife é o novo presidente do DEM. Só as franjas mais radicais do Partido Republicano sobem ao sétimo céu com as perorações de Limbaugh. O resto faz o sinal-da-cruz, esparrama alho e rega a casa com água benta.

 

Rush Hudson Limbaugh III é tido como o homem que ressuscitou a frequência AM do rádio, que vinha morrendo de morte lenta desde a década de 70. Ele começou a divulgar seu credo conservador em 1988, quando se sentou pela primeira vez diante de um microfone. Deu certo. Hoje seu programa vai ao ar de segunda a sexta, do meio-dia às três, e pode ser sintonizado em cerca de 650 estações espalhadas pelos Estados Unidos. A cada semana, entre 14 e 20 milhões de ouvintes se penduram em suas palavras. Líder inconteste de audiência, recebe de acordo: 30 milhões de dólares por ano. O contrato que acaba de assinar lhe garantirá outros 400 milhões até 2016. Não espanta que seja contra taxar os ricos.

Enquanto Limbaugh se diz conservador, boa parte dos americanos — aquela parte, digamos, que acredita em aquecimento global (ele não acredita), em diplomacia (ele vai de tanque) ou em saúde pública (ele é cada-um-por-si) — prefere chamá-lo de reacionário. Decidiu implantar sua embaixada internacional por estar convencido de que a imprensa liberal o demoniza. Acha que de modo geral os meios de comunicação americanos não lhe dão mais espaço. Pior: que chegam a tratá-lo de bufão. Sendo assim, que ao menos os estrangeiros saibam quem ele é.

Novembro foi o mês dos jornalistas canadenses. Limbaugh falou com doze deles. Pelas suas contas, conseguiu tocar a alma de no mínimo um. “É um trabalho sofrido convencer uma pessoa por vez, mas eu preciso fazer alguma coisa”, explica por telefone.

Para Limbaugh, sendo a América o centro do mundo, nada mais razoável do que todos se ajustarem ao fuso horário do país. Acordar um jornalista em plena madrugada não lhe parece um problema, tampouco falta de elegância. “Como sou eu que aviso sobre a ligação, subentende-se que ela será feita num horário da minha conveniência”, explica. E dá-lhe jornalista asiático acordando às cinco da manhã.

Os pobres japoneses ficaram insones em dezembro, mês em que lhes coube atender as chamadas de Limbaugh. As conversas costumam durar por volta de quinze minutos e tratam da atual política econômica americana (receituário para a desgraça), do Iraque (grande acerto) e de Obama (socialista midiático). O jornalista Mikio Haruna, de 29 anos, narrou no The Japan Times como transcorreu a conversa: aos berros. Limbaugh gritava tanto que Haruna teve de afastar o fone para proteger os tímpanos.

Em janeiro e fevereiro foi a vez da Europa. “Não me ative a um único país, pois quero que os europeus saibam que os vejo como pessoas de um mesmo povo”, explicou Limbaugh, sem especificar se disse isso a alemães e italianos ou a portugueses e suíços, para não falar de sérvios e croatas.

Na França — esse país tão difícil… — evidentemente bateu boca com um jornalista. Limbaugh insistia que os Estados Unidos estavam certíssimos ao atacar o Iraque. O francês contestava: as tais armas de destruição em massa não existiam. “Como você sabe?! Nós explodimos boa parte do país”, descabelou-se o radialista. “Quem disse que não explodimos também um arsenal inteiro e nem percebemos?”, argumentou com uma lógica que faria Descartes levantar as sobrancelhas.

 

Philip Winter, jornalista alemão, pegou ainda mais pesado do que o colega francês. Perdendo as estribeiras, deu a entender que Limbaugh era fascista, visto preferir uma boa guerra à velha diplomacia. Pronto: mais cordas vocais estiradas ao limite. Já rouco, Limbaugh sacou uma conclusão profunda: “Depois me perguntam por que invadimos o Iraque. É da natureza humana!” Explicou a epifania e em seguida queixou-se de seu desafeto germânico, que não parava de atacá-lo com epítetos maldosos: “Nem bem nos conhecemos e você já quer jogar um míssil em mim.”

Agora chegou a nossa vez. Em março e abril, Limbaugh está falando conosco. Sua lista de jornalistas brasileiros inclui Elio Gaspari, colunista da Folha de S.Paulo e do Globo, e Miriam Leitão, comentarista econômica do Globo.

Na madrugada de 4 de março ele ligou para sua primeira vítima brasileira. Justamente um repórter de piauí. “Não desligue. Eu sou Rush Limbaugh, um norte-americano que teme pelo futuro do seu país.” Como ouviu um grunhido do outro lado, se deu conta de que por aqui o galo estava no sétimo sono. Foi simpático: “Gosto do Lula, mas não posso acordá-lo. Já você não se importa, certo?” Como o interlocutor não se importava, ele soltou o verbo. Terminado o telefonema, o jornalista estava quase convencido de que os Estados Unidos são hoje um país comunista.

Bruno Moreschi

Bruno Moreschi, jornalista e artista plástico, é coautor de 501 Grandes Artistas, da Sextante.

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