esquina

Não é au-au

É ai-ai

Caroline Andreis
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2007

 

BDSM (Bondage and Discipline, Sadism and Masochism) é a sigla que reúne os praticantes do sadomasoquismo. É uma turma eclética. Congrega desde os inocentes apreciadores de tapinhas ligeiros até aqueles que gostam de um chicote, de uma algema e, se possível, faz favor, do privilégio de serem tratados como bestas de carga ou cachorros vadios.

Luli não precisa se fingir de cachorro. Ele é um cachorro, o quinto espécime de uma linhagem criada por Ignez Kowacs, de 75 anos, moradora de Cachoeira do Sul, na região central do Rio Grande do Sul. Já houve outros quatro Lulis, todos da raça Dachshund. Luli V é macho, pequeno e de pelagem negra. Não é o mais companheiro nem o mais inteligente dos quatro Lulis que o precederam. Mas, sem sombra de dúvida, é o mais peculiar de todos.

Compridão e de pernas curtas, o Dachshund é o popular salsicha. A raça foi desenvolvida na Europa para caçar animais que se escondem em buracos, como os texugos e as marmotas. Seus representantes freqüentaram várias casas reais do velho continente. A rainha Vitória era doida por eles. São um dos símbolos da Alemanha. De acordo com a CBKC (Confederação Brasileira de Cinofilia – o K é de kennel), a raça é “amigável por natureza, nem nervosa, nem agressiva, de temperamento equilibrado”. O pessoal da CBKC diz isso porque nunca ouviu falar de Luli.

A primeira vez que dona Ignez reparou foi quando dona Neli, a empregada, varria a casa. Luli se lançava entre a vassoura e o chão, com o intuito – é o que se concluiu depois de alguma ponderação – de receber umas boas vassouradas. Comportamento estranho, mas não o suficiente para um diagnóstico definitivo, que não tardaria a vir. Luli mordeu o tapete e foi repreendido com um punhado de tapas bem dados. Batata: passou a seguir a dona com o tapete firme na boca, na certeza voluptuosa de mais e melhores palmadas.

À surpresa, seguiu-se a resignação. Deu vontade de fazer carinho em Luli? Nada de cosquinha na barriga ou cafuné atrás da orelha. O jeito é dar uns tapinhas no pidão. O bichinho se esparrama, deliciado. Claro, ninguém bate forte, nem mesmo os netos de dona Ignez, jovens na flor da adolescência e do vigor físico. “São tapas de bom garoto”, assegura ela, administrados para que Lulizinho se sinta querido.

O neto João Kowacs Castro, de 18 anos, percebeu em Luli a possibilidade de vôos mais altos. Segundo-anista do curso de cinema da PUC gaúcha, dono de alguns rolos de super-8 e de uma robusta empolgação – a ponto de juntar uma equipe disposta a dar o sangue de graça -, ele realizará um documentário sobre o cão. A idéia é simples: filmar Luli V em seus vários deleites de Sacher-Masoch (o escritor austríaco que não dormia em paz sem antes tomar uns bons tabefes de alguma senhora), contracenando, quando necessário, com algum figurante humano que dê conta da porção Marquês de Sade. Enquanto correm as imagens, o espectador ouvirá um áudio com as impressões da família.

O projeto já fez o cineasta passar um mau momento. Prestes a ser disparada, a produção quase deu para trás: o herói estava doente, avisou a avó. Kowacs reagiu como qualquer diretor que recebesse um telefonema de última hora da agente de Nicole Kidman, comunicando que a atriz tinha mudado de idéia: desesperou-se. Felizmente, nada de grave se confirmou. Isto é, não tão grave. Luli não estava prostrado, como todos logo imaginaram. Apenas se deitara na frente do aquecedor e dali não arredara pé. Dona Ignez só compreendeu a artimanha quando sentiu o cheiro de queimado pela casa. Luli não estava nem aí, ao contrário. Acabava de descobrir uma nova e excitante forma de prazer. Estava positivamente radiante. Por uns dias andaria manco, caminhando devagar e meio de lado, mas esses, por assim dizer, são os ossos do hedonismo. Pelo sim ou pelo não, dona Ignez preferiu desligar o aquecedor, mesmo no alto inverno. Não está preparada para providenciar o seu Luli VI.

Caroline Andreis

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