tribuna livre da luta de classes

Não foi você

Uma interpretação do bolsonarismo

Bruno Carvalho
Como Trump, Bolsonaro se alimenta de brigas com a imprensa e de ataques ao politicamente correto. Mas, ao mesmo tempo, se beneficia da cobertura politicamente correta da mídia tradicional, que o chama de “polêmico” e “conservador”. Seria mais exato descrevê-lo como mal-informado e demagogo
Como Trump, Bolsonaro se alimenta de brigas com a imprensa e de ataques ao politicamente correto. Mas, ao mesmo tempo, se beneficia da cobertura politicamente correta da mídia tradicional, que o chama de “polêmico” e “conservador”. Seria mais exato descrevê-lo como mal-informado e demagogo FOTO_JOSÉ ALDENIR_AGORA IMAGENS

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Em 1998, o general Augusto Pinochet foi preso em Londres, acusado, entre outros crimes, de torturar e assassinar oponentes políticos durante a ditadura que comandou no Chile. Já no seu segundo mandato como deputado federal, Jair Messias Bolsonaro parecia não acreditar na inocência do ex-ditador, pois, para ele “Pinochet devia ter matado mais gente”. Desde então, acumulam-se evidências de atrocidades cometidas pelo regime de Pinochet. Ainda assim, em 2015, Bolsonaro continuava defendendo que “Pinochet fez o que devia ser feito”. Essas declarações condizem com outras do político do PSL a respeito do Brasil: “No período da ditadura, deviam ter fuzilado uns 30 mil corruptos, a começar pelo presidente Fernando Henrique” (sobre a corrupção do regime Pinochet, ele se cala); “O erro da ditadura foi torturar e não matar” (a ditadura torturou e matou). E a respeito de si mesmo: “Sou capitão do Exército, minha missão é matar” (não é o que diz a Constituição).

Numa sociedade saudável, alguém que defende tão abertamente o assassinato em massa não participaria de nenhuma discussão séria sobre os rumos do país. Entretanto, Bolsonaro lidera pesquisas de intenção de votos, quando Lula não está no páreo. Além do ex-presidente, ele parece ser até agora o único candidato capaz de entusiasmar uma fatia considerável do eleitorado. Sabemos que há um viés autoritário na sociedade brasileira e que vivemos hoje uma forte polarização política, mas duvido da hipótese de que tantas pessoas desejem o extermínio de oponentes políticos. Também suponho que poucas delas tolerem a tortura de grávidas, como ocorreu nas ditaduras latino-americanas. Como entender, então, o apoio maciço à candidatura de Bolsonaro da parte de pessoas que se consideram cristãs, civilizadas, cidadãs de bem?

Há uma série de interpretações plausíveis. E, afinal, não faltam precedentes. Aqueles que tiveram papel ativo, como protagonistas ou como coadjuvantes, nos maiores horrores da humanidade em geral julgavam-se pessoas decentes e honradas. Defenderei aqui uma hipótese a meu ver menos óbvia. Num ensaio publicado nesta revista, João Moreira Salles analisa a frase “Não fui eu”, pichada em diversos locais do Rio de Janeiro (piauí_139, abril). A certa altura do texto, cita o antropólogo Luiz Eduardo Soares, que observa como na cultura política brasileira é comum as pessoas botarem a culpa na terceira pessoa do plural: eles não querem nem saber, eles estão estragando o país etc. Acredito que resida aí parte da potência do bolsonarismo.

O slogan de Bolsonaro poderia ser: “Não foi você.” Como se dissesse: “Se eles não estivessem emporcalhando nosso curral, o país seria o céu.” Esse discurso permite que o eleitor, mesmo ao fugir da raia, se sinta valente e digno. Num mundo complicado e confuso, Bolsonaro e outros movimentos emergentes de ultradireita proporcionam a possibilidade de uma fantasia de justiça e heroísmo. Omitir-se no jogo político vira sinal de pureza. O bolsonarismo oferece a expiação da culpa e a transferência de responsabilidade, feitos dignos de um mito. Por isso, não devemos subestimar o apelo desse fenômeno, nem o seu potencial destrutivo. E podemos tirar lições da eleição de Donald Trump à Presidência, pois há entre a trajetória do americano e a candidatura de Bolsonaro dinâmicas comparáveis.

 

Cheguei ao Rio, minha cidade natal, um dia após o assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes, em março deste ano. Estive com colegas e colaboradores da vereadora. Tinha-se a sensação de que quem desafiasse a corrupção policial e o poder das milícias poderia se transformar no próximo alvo. Na mesma semana, em um almoço com outras pessoas, ouvi a seguinte frase: “Você sabia que a Marielle foi casada com o Marcinho VP?” Tentando entender a origem dessa notícia falsa, percebi que, no círculo pessoal de quem a tinha formulado, toda a discussão política estava dominada por bolsonaristas. Gente que há quinze anos não dava bola para política agora defendia a candidatura de Bolsonaro com paixão no WhatsApp e no Facebook. Como muitos, eu já vinha acompanhando esse fenômeno. Resolvi me dedicar à leitura sistemática de postagens dos seus apoiadores e a ouvi-los.

Nas conversas à esquerda os chamados bolsominions, bolsoburros, bolsonazis (e variantes) são associados, sobretudo, à misoginia, ao racismo e à homofobia. Constatei, porém, que, para muitos eleitores do deputado essas questões parecem ser praticamente irrelevantes. Para eles, o que o universo esquemático de Bolsonaro oferece é clareza. Se o problema do Brasil são os bandidos e a corrupção, a solução é eleger o mito e acabar com a bandidagem. Quem discorda disso só pode ser defensor de bandido. Entretanto, não é preciso comprar o pacote completo para se sentir atraído pelo discurso do candidato. Sua campanha se aproveita de distorções criadas pelo foco de luz lançado nos últimos anos sobre a corrupção no país – segundo pesquisa do Instituto Ipsos, por exemplo, 75% dos brasileiros acham que o déficit do INSS se deve à corrupção e ao desvio de verbas. O bolsonarismo, avesso à complexidade e à reflexão, oferece ao eleitor o conforto das certezas inabaláveis e a convicção de que a responsabilidade é sempre dos outros. O país está em crise? “Não foi você.” A dieta de notícias falsas, memes antiesquerda (difundidos pelo Movimento Brasil Livre e afins) e clichês pró-Bolsonaro dificultam qualquer visão realista e equilibrada dos problemas brasileiros, mas pode fazer muito bem à autoestima.

Tentemos entender por que pessoas que a princípio não desejariam o extermínio de outras podem apoiar um sujeito que acha que Pinochet devia, sim, ter matado mais gente. Sejamos generosos, na medida do possível: quando Bolsonaro celebra Pinochet, para muitos dos seus simpatizantes ele não está fazendo apologia do crime. Podemos supor ainda que boa parte dos brasileiros desconheça a extensão dos crimes cometidos pelo ditador chileno, ou mesmo dos crimes da ditadura no Brasil. Minha impressão, porém, é que a maioria dos seguidores de Bolsonaro busca relativizar as posturas mais extremistas do deputado. Quem não sabe decifrar o “real significado” das falas do mito é acusado de “mimimi”, “frescura”, “falta de humor”. A relativização, no entanto, é sempre seletiva, desproporcional e autocongratulatória. Bolsonaro celebra ditaduras criminosas? Para o bolsonarista casual, suas declarações não devem ser levadas ao pé da letra. Para os mais comprometidos com a “causa”, culpados de fato são os que não entendem que ameaças vindas da esquerda justificam tomar qualquer medida.

Esse dispositivo se repete ad nauseam. Um comentário é de mau gosto, ofende, desumaniza minorias? Culpados são os que não souberam entender a piada. Quem pertence a grupos marginalizados ou defende direitos humanos tem que saber levar as palavras de Bolsonaro na esportiva. Segundo essa lógica, críticas a Bolsonaro se convertem em ataques ao direito de fazer piadas. E quem não gosta de piada? Quando o alvo é Bolsonaro, contudo, a brincadeira perde a graça. Na rádio Jovem Pan, pedem para Marina Silva comparar políticos com animais. Bolsonaro seria uma hiena. Num vídeo-resposta, o deputado faz drama: “Se eu tivesse chamado Marina Silva de hiena… o mundo caía na minha cabeça.” A autovitimização é sentimento recorrente no repertório bolsonarista: “Não existe no meu entender parlamentar mais esculachado do que eu”, disse o deputado. “Mostram eu dando uma cotovelada em alguém, o carrinho que eu tomei por trás ninguém mostra.” Eles fazem mimimi, nós somos vítimas.

 

A tática é comum na direita americana, que a emprega com grande eficácia. Com o avanço dos direitos civis no pós-Segunda Guerra, o Estado, à medida que passou a contemplar minorias, também se transformou em vilão (os paralelos com um liberalismo de conveniência que desponta no Brasil são óbvios). Os segregacionistas, porém, perceberam que fazer campanha aberta contra os direitos civis já não era a melhor estratégia, conforme documentam historiadores como Kevin Kruse, autor de White Flight (ainda sem tradução no Brasil). Em vez de dizer que não quer conviver com negros no seu condomínio ou na faculdade, o sujeito adota um discurso positivo, supostamente focado na liberdade individual: que direito tem o Estado de me forçar a conviver com quem não quero? Assim, o opressor se converte em vítima.

Desde o governo Nixon, a criminalização das drogas e o aprisionamento em massa visaram negros na prática, mas não necessariamente na retórica. Ao insistir no discurso punitivo, os candidatos acenavam com suas declarações para os segregacionistas, que então ouviam o apito – assim é a política do dog whistle (o apito ultrassônico que cães são capazes de ouvir, mas não os seres humanos), aperfeiçoada pelo Partido Republicano. As declarações, porém, eram suficientemente veladas para aliviar a barra de quem acha desagradável o racismo às claras.

Trump rompeu com essa “discrição”. Ele percebeu que a política do dog whistle já não dava conta da insatisfação de grupos, sobretudo o formado por homens brancos, que sentem que estão perdendo certas garantias e privilégios. Durante a campanha, os comentários preconceituosos de Trump recebiam ampla cobertura da imprensa e geravam indignação no establishment liberal e em círculos de esquerda. Nos seus comícios era muito mais frequente a adulação dos fãs. Sua condição de vida piorou? É culpa dos mexicanos. Seu filho não entrou na faculdade dos sonhos? É culpa das cotas. No discurso de Trump, os críticos ouviam afirmações de racismo, misoginia e xenofobia. Mas seus eleitores ouviam: “Não foi você.” Para esses eleitores, a atenção da imprensa às declarações “controversas” de Trump era uma implicância com o candidato que os atingia pessoalmente. Para quem acha a acusação de racismo mais grave que o racismo em si, essa atenção cheirava a perseguição e defender Trump passava a ser uma maneira de defender o amor-próprio.

O bolsonarismo arma uma cilada parecida. Como o trumpismo, alimenta-se de brigas com a imprensa e ataques ao politicamente correto. Comentários “controversos” geram acusações de discriminação, que por sua vez reforçam a impressão de que Bolsonaro é perseguido pela mídia: “Eles se fazem de vítima, nós somos perseguidos.” E, se ele incomoda tanto, é porque é diferente dos outros políticos: “Todos os políticos são iguais, menos o meu. O meu é autêntico, não tem papas na língua, fala o que pensa…” A estratégia ajuda a compensar o fato de que a família Bolsonaro vive à custa da política partidária. Mas, ao contrário de Trump, o deputado é um político de carreira e em tese deverá ter mais dificuldades em se vender como outsider.

A construção do seu perfil depende do jogo do politicamente correto. Por um lado, Bolsonaro surfa a onda da reação contra quem patrulha piadas. Por outro, sua campanha se beneficia da cobertura politicamente correta. O uso da neutralidade, do eufemismo e do decoro na linguagem da imprensa tradicional ajuda a mascarar o extremismo do candidato. Adjetivos recorrentes como “polêmico”, “controverso” e até “conservador” dão a impressão de que as posições de Bolsonaro são sérias, arrojadas, até corajosas.

Controvérsia exige disputa, um domínio mínimo dos fatos e reconhecimento da posição contrária. Controvérsia é defender o heliocentrismo no século xvi. Ao contrário de Galileu, Bolsonaro não costuma se preocupar com evidências empíricas. A rigor, talvez fosse mais exato descrevê-lo como mal-informado e demagogo. Ou dizer que Pinochet é seu bandido de estimação. Mas cairíamos então na armadilha de confirmar a narrativa da perseguição. Como jornalistas precisam evitar a impressão de parcialidade, optam pelo politicamente correto “polêmico”, o que beneficia o deputado.

 

No Brasil, muita gente tenta entender a polarização política e a radicalização online (cujo alcance boa parte da grande imprensa norte-americana subestimou). A democracia é feita de conflitos, e desde sempre é terreno fértil para boatos e notícias falsas, mas as redes sociais introduziram dinâmicas imprevisíveis. Pela lógica das redes, podemos supor que algumas pessoas antes desligadas da política hoje se sintam compelidas a tomar partido. Ao mesmo tempo, ainda não sabemos até que ponto as mídias tradicionais e as máquinas partidárias perderão espaço para as redes sociais na corrida presidencial no Brasil.

Vale lembrar que o fato de Trump ser tão caricato e ter altas taxas de rejeição fez com que muitos minimizassem suas chances. Em um cenário como o brasileiro, em que um grande número de pessoas pode não comparecer às urnas ou anular o voto, o teto de Bolsonaro talvez não seja tão baixo quanto parece. Aliás, Alckmin, Ciro e alguns petistas já declararam preferi-lo como adversário em um segundo turno. Sabemos contra quem Hillary Clinton preferiu concorrer.

Embora Bolsonaro, diferentemente de Trump, não disponha de um partido forte, o bolsonarismo parece feito sob medida para triunfar nas redes. Contra candidatos identificados com a velha política partidária, a aposta na rejeição às instituições pode vingar. Mussolini, em sua autobiografia publicada em 1928, escreveu que o fascismo sempre “deve assumir a característica de ser antipartido”. Em momentos de descrença na política institucional, poder fazer política fingindo rejeitá-la é uma vantagem considerável.

A tática de recorrer a clichês e frases prontas antecede o mundo dos memes. Hannah Arendt identificou nos clichês a função de “nos proteger da realidade” e uma peça-chave na engrenagem de regimes totalitários. A novidade é que a esfera digital pode suplantar os modos de propaganda mais verticais e caros (panfletagem, tempo de tevê, comícios etc.). Mesmo sem muitos recursos, uma campanha com potencial viral é capaz de surpreender.

Uma série de comentaristas, desde o jornalista Reinaldo Azevedo até um sem-número de pessoas alinhadas à esquerda, já soaram o alarme da ameaça que Bolsonaro representa à democracia. Há menos reflexões sobre o alcance do apelo que ele exerce. Muitos candidatos às eleições deste ano, como João Doria e Paulo Skaf, parecem ter medo de criticar o capitão da reserva. Quem é conivente com a demonização da esquerda ou tolera Bolsonaro por considerar a sua candidatura o menor dos males ajuda a chocar o ovo da serpente.

As falsas equivalências, à esquerda e à direita, ajudam a minar a democracia. Há polarização, mas ela não é necessariamente simétrica. Virou lugar-comum usar o futebol como metáfora da polarização política. Mas no futebol, diferentemente do que ocorre no Congresso ou no STF, as regras são claras, temos denominadores comuns e alguma concordância em torno de fatos concretos (nem o flamenguista mais roxo negaria o show dado por Edmundo no 4 a 1 de 1997; sim, sou vascaíno). A combinação entre analfabetismo político e convicção absoluta na superioridade moral de um dos lados não encontra paralelo no futebol. Mesmo quando os ódios se acirram, no futebol admitimos que o adversário tenha legitimidade e tenha o direito de existir. Na política, as consequências sempre extrapolam os limites do jogo. E nunca existem só dois lados.

Na guerra dos memes, leva vantagem quem não tem compromisso com os fatos e o diálogo. Bolsonaro sugere que estupraria quem merece? Culpada é Maria do Rosário, que fez provocações. Tem quem mereça estupro? Mas ele só fez uma piada, e muito pior é a esquerda, que adora pedofilia e incesto.

Para que a defesa do injustificável se justifique, a representação do outro lado vai ficando mais e mais grotesca e irreal, até desqualificá-lo. Tudo isso não é monopólio da direita, evidentemente. Bolsonaro, entretanto, é hoje quem conta com a torcida mais ativa nas arquibancadas virtuais. Ao contrário do futebol, nesse caso a vitória é simplesmente uma questão de perspectiva. E dessa peleja quase todos saímos perdendo, menos quem já estava ganhando. Ponto para os fanáticos.

É impossível imaginar que a proliferação de trolls nas redes seja suficiente para eleger um Bolsonaro, mas, a esse respeito, devem servir de alerta a eleição de Trump e o plebiscito que levou ao Brexit. Nos Estados Unidos, há um desconhecimento generalizado sobre o papel decisivo do Estado na formação da classe média branca, favorecida por investimentos que com frequência excluíam as minorias. Ao mesmo tempo, celebram-se no país as conquistas dos direitos civis. Essa combinação gera entre grupos brancos estagnados ou em decadência a percepção de que governo e mídia estão mais interessados em ajudar minorias e imigrantes. Com a ajuda de trolls e bots, Trump explorou com maestria esse ressentimento contra a diversidade e a globalização, transformando-o em orgulho identitário branco: I’m white and I’m proud [Eu sou branco com muito orgulho].

 

Diferentemente do que ocorre nos Estados Unidos e na Europa, no Brasil clivagens raciais e xenofóbicas têm sido até agora bem menos exploradas na política eleitoral, por razões óbvias: além de recebermos poucos imigrantes, atualmente mais pessoas no país se declaram pardas ou negras do que brancas. Mesmo assim, os espaços em que vivem os ricos no Brasil continuam quase que exclusivamente brancos. Nos Estados Unidos, a prosperidade econômica produz cada vez mais diversidade demográfica, mas os bairros pobres e da classe média estagnada permanecem ultrassegregados.

O revanchismo é o elemento-chave nos movimentos populistas de direita, mundo afora. No Brasil, há quem sustente que o ódio ao lulopetismo não é provocado pelos erros cometidos pelos governos do pt, mas pela ameaça que certos avanços do período representam para o “andar de cima”, como o aumento da mobilidade socioeconômica, a expansão do acesso à educação superior etc. Falou-se muito da “nova classe média”, mas qual é a dimensão das classes média e média alta que ficaram estacionadas, decaíram ou simplesmente acham que merecem coisa melhor? O bolsonarismo é, em parte, a reação de quem pensa que perdeu garantias e status nos últimos anos e, como o trumpismo, uma promessa de conversão do rancor e do ressentimento em orgulho e afirmação. Tem muito pobre andando de avião? Ficou caro ter empregada? As coisas estão mais difíceis? Sua situação pessoal piorou? Não foi você.

A esquerda lulopetista frequentemente reduz à caricatura quem se encaixa nesse grupo. Ao contrário do espantalho comunista dos trolls, esse grupo é significativo e ajuda a dar fôlego ao que Celso Rocha de Barros chama de “política de indignação”. Trata-se, porém, de uma parcela relativamente pequena dos eleitores brasileiros. Ao sobrevalorizá-la, corremos o risco de ignorar o apelo de Bolsonaro que de fato alcança diversas fatias do eleitorado, inclusive da “nova classe média”. A sensação de insegurança que afeta os brasileiros e impulsiona o bolsonarismo é compartilhada por praticamente todas as pessoas. Não há dissonância cognitiva ou fantasias de direita no diagnóstico geral: o aumento da violência é real. Mata-se mais no Brasil de Temer do que no Chile de Pinochet. As fantasias, nesse caso, estão nas soluções apontadas pelo deputado. Mas quais são as alternativas da esquerda, do centro ou da direita não fascistoide? Nesse cenário, Bolsonaro é o candidato que passa a impressão de verdadeiramente se importar com a impunidade, a corrupção generalizada e a violência.

Em entrevista ao jornal O Globo, ele declarou: “Tem que liberar a posse de armas para todo mundo, como ocorre nos Estados Unidos. Eu daria porte de armas para caminhoneiros e vigilantes, por exemplo. Já existe um bangue-bangue no Brasil, mas apenas um lado pode atirar.” Não se trata de controvérsia, mas de bravata. Claro que o pré-candidato distorce os fatos ao dizer que a posse de armas é liberada para todo mundo nos Estados Unidos ou que “apenas um dos lados pode atirar”. Quanto menos detalhes a respeito, melhor. Sabemos que a polícia brasileira é uma das que mais atira e mata no mundo. Sabemos que as armas dos traficantes não brotam do chão e que o tráfico de drogas, as milícias e a corrupção (inclusive policial e militar) são problemas interligados. Sabemos que experiências de outros países sugerem que a descriminalização das drogas produz melhores resultados do que o armamentismo e o confronto bélico. São discussões complexas e difíceis. O discurso firme e simplista de Bolsonaro conforta. Eles têm ideologia, nós temos bom senso.

Na prática, a visão bolsonarista para a segurança redobra a aposta em políticas fracassadas e se resume a mais do mesmo: guerra constante (as indústrias armamentista e carcerária agradecem). Sugerir que o porte de armas solucionará o problema da segurança pública é explorar o desespero alheio. Para os seguidores de Bolsonaro, o deputado Messias promete salvação sem sacrifício. Não parece ser um mau negócio, mas para cair no papo é preciso achar natural que forças policiais e militares subam o morro e matem impunemente, sobretudo negros e pobres. As mortes, inclusive de policiais em serviço, muitos deles também negros e pobres, são o efeito colateral de uma guerra supostamente justa e necessária. Para eles, intervenção e sacrifício; para nós, law and order.

Está em ação o dog whistle. No Brasil, trata-se muito menos de afirmar o orgulho branco. Mas o bolsonarismo também depende de uma hierarquia na qual contam pouco, quando não são tidas como descartáveis, as vidas de negros, pobres e favelados. Em um evento recente promovido pelo BTG Pactual, Bolsonaro foi aplaudido após apresentar a seguinte proposta: helicópteros jogariam panfletos sobre a Rocinha, avisando que os bandidos têm seis horas para se entregarem. Encerrado o prazo, a polícia metralharia a favela. Muitos dos presentes na palestra talvez dissessem que não são racistas e se ofenderiam caso fossem acusados de sê-lo. O Brasil não foi capaz de superar os legados da escravidão? Nossa sociedade é escandalosamente desigual, a desigualdade tem uma dimensão racial, a polícia mata e prende negros e pobres desproporcionalmente? O bolsonarismo conforta: “Não foi você.”

(Parênteses: quando a campanha engrenar, pode ser complicado para o bolsonarismo conciliar a ala troglodita com a dos liberais e conservadores que como alternativa aceitam a candidatura de Bolsonaro, uma vez que chancelado por Paulo Guedes, seu conselheiro econômico. Mas já é um péssimo sinal que existam pessoas que se autoproclamam liberais e democratas dispostas a apostar em alguém que defende a esterilização forçada. É comum elites financeiras se julgarem capazes de controlar candidatos extremistas ou demagogos de direita. Normalmente, elas se enganam. O caminho da barbárie é frequentemente pavimentado por figuras como Paulo Guedes.)

 

A categoria analítica do racismo redundante pode ser útil. A ideia é basicamente a seguinte: numa sociedade na qual as desigualdades raciais são estruturais, o racismo é redundante. Ou seja, se acordássemos amanhã num país sem racistas, continuaríamos a viver num país racista. O sistema tributário regressivo, por exemplo, ajuda a perpetuar desigualdades raciais ao cobrar mais do assalariado e menos da riqueza intergeracional do andar de cima. Parafraseando a ativista negra Angela Davis: em contextos nos quais o racismo está entranhado nas instituições, não existe a possibilidade de não ser racista. Ou você é antirracista e luta ativamente para reduzir as desigualdades raciais no âmbito das instituições, ou então você é racista. Isso exige assumirmos responsabilidade coletiva por realidades resultantes de contextos que nos antecedem e pelos quais não somos necessariamente culpados. Não é tarefa para fracos.

Como o trumpismo, o bolsonarismo adota uma série de dispositivos que a direita costuma atribuir à esquerda, nem sempre sem razão: a relativização acrítica, o autovitimismo, o jogo com o politicamente correto e a hipervalorização da perspectiva subjetiva. O direito inviolável à opinião oferece uma saída para quem quer negar os fatos ou não sabe do que está falando. O seu argumento desmorona quando confrontado com evidências? Culpa de quem não tem respeito pela opinião alheia. Ao mesmo tempo, para alguns bolsonaristas as pautas identitárias são consideradas como ofensas às conquistas individuais. Você é minoria, mas batalhou, venceu os desafios? Nesse caso, eles dizem: “Foi você.” Bolsonaro perde menos quando confrontamos suas opiniões e posições genéricas do que quando interrogamos suas políticas e soluções específicas.

Quando ele defende o porte de armas para vigilantes, algum incauto imagina que irá se deparar com um Chuck Norris qualquer. Isso deve ser um insulto aos policiais íntegros e militares legalistas. Achar que não temos bangue-bangue suficiente significa mostrar desprezo pelas vidas dos que mais sofrem com o conflito armado no país, inclusive os que zelam pelas leis em nossas ruas.

Na mesma entrevista a O Globo, Bolsonaro diz que o assassinato de Marielle Franco “para a democracia não significa nada”, “é mais uma morte no Rio de Janeiro”. Ele completa: “Temos que aguardar a investigação.” Quando o jornalista Santiago Andrade morreu, após ser atingido por um rojão durante manifestações no Rio de Janeiro, em fevereiro de 2014, o deputado não demonstrou a mesma cautela: “Eram bancados pelo PSOL esse pessoal que matou o jornalista lá, o Santiago.” A metáfora dos dois pesos e duas medidas já não dá conta. As relativizações justificam qualquer violência do lado do bem e toda conclusão sobre “o outro lado” (atiraram contra o acampamento pró-Lula? Eles provocaram).

O comentário sobre Marielle pode parecer inconsequente para quem vê assassinatos virarem rotina no Rio de Janeiro. É mais uma morte. Para a democracia, significa muito: o assassinato de uma vereadora eleita. Negra, jovem, valente. Quem matou Marielle? Quem mandou matar Marielle? Podemos suspeitar e especular, mas seria prudente aguardar as investigações. Na fala do Bolsonaro, entretanto, entra em ação o dog whistle. O recado está dado, sem passar recibo. Cínicos e ingênuos podem negar, mas não há miliciano, justiceiro-assassino em potencial ou policial corrupto que duvide de que lado o deputado está. Bolsonaro apita, as hienas dão risadas.

Marielle era filiada a um partido socialista, mas ela também representava qualidades que muitos da direita dizem celebrar. Marielle batalhou, lutou contra adversidades, aproveitou as chances que teve. Ela renovava a política numa sociedade que com frequência elege familiares de políticos de carreira. Marielle é o contrário da velha política brasileira e da família Bolsonaro. Em sua dissertação de mestrado, ela mostra a importância do reconhecimento das diferenças, mas não reduz a vida a um confronto entre dois lados: “O tráfico é cruel, é violento e massacra a vida dessas comunidades, mas o Estado não pode competir com o tráfico, disputando quem tem mais capacidade de ser violento. Não há como hierarquizar a dor, ou acreditar que apenas será doído para as mães de jovens favelados. O Estado bélico e militarizado é responsável pela dor que paira também nas dezesseis famílias dos policiais mortos desde o início das UPPs.” A dissertação é de 2014.

Marielle dá o nome dos policiais assassinados, o que os memes que a criticam por “defender bandidos” raramente fazem. Ela não clama por mais Estado, mas por um Estado melhor. Marielle tinha muito da coragem que o bolsonarismo projeta em ídolos de barro. Ela não fugia da raia. Seu slogan “eu sou porque nós somos” é a antítese do “não fui eu” ou do “não foi você”. Em vez de postular um individualismo retraído, Marielle se insere no coletivo. Ela reconhece os limites de qualquer “eu” e os potenciais que há em nos fortalecermos em comunidade.

Bolsonaro representa uma grave ameaça à democracia, mas como Trump, ele é mais sintoma do que causa. É possível que sua candidatura naufrague. O deputado talvez seja tosco e imprevisível demais para ganhar uma eleição presidencial. O bolsonarismo, entretanto, já produziu um impacto importante, distorcendo o espectro político ao legitimar posições extremistas e empurrar o centro para a direita. Em artigo na Folha de S.Paulo, Antonia Pellegrino e Manoela Miklos, apoiadas em pesquisa inédita da cientista social Esther Solano, concluem que o bolsonarismo não é um fenômeno transitório. Deslegitimar as opiniões dos simpatizantes do deputado seria o mais fácil, mas, para elas, não nos ajuda. Apesar da agressividade crescente contra feministas, Pellegrino e Miklos argumentam que o feminismo deve buscar o diálogo.

É mais fácil organizar o mundo em dois lados: um do bem (nós), outro do mal (eles). Encarar a complexidade dos nossos problemas e reconhecer que não existem soluções mágicas é mais difícil. É óbvio que isso vale também para o conforto tentador do antibolsonarismo. Temos todos uma parcela de responsabilidade. Afinal, a incapacidade das esquerdas e da política institucional de apresentar visões de futuro viáveis ajuda, em parte, a alimentar o bolsonarismo.

 

Bolsonarismo e trumpismo não são fenômenos isolados. Desde 2009, o artista eslovaco Tomáš Rafa documenta manifestações de rua, sobretudo na Europa central. Com métodos do cinema direto, ele registra atividades de grupos neofascistas, homofóbicos, xenofóbicos, assim como de grupos de apoio a refugiados e minorias, como os romani, frequentemente atacados por organizações de extrema direita. O projeto se chama New Nationalisms e alguns trabalhos estão disponíveis no site do artista.

É frequente esses “novos nacionalistas” lançarem mão do velho procedimento de evocar um passado fantasioso. Os nacionalistas eslovacos buscam legitimação no colaboracionista fascista Jozef Tiso, celebrado como um benigno pai da pátria que, em prol de seu povo, lutava contra forças globalizantes. Esse saudosismo não está tão distante do dos conservadores brancos nos Estados Unidos que protestam contra a retirada de monumentos escravagistas, alegando fazerem parte de seu patrimônio cultural. No Brasil, esse passado fantasioso emerge quando dizem que não havia corrupção durante a ditadura militar.

Disputas pela memória histórica não são novidade, mas os imaginários regressivos, que idealizam o passado, parecem se expandir na esfera pública atualmente. A internet proporciona elementos para justificar qualquer opinião tresloucada sobre o nazismo, a escravidão ou Pinochet, esvaziando o debate responsável e pulverizando o conhecimento histórico. Ao mesmo tempo, nossos impasses contemporâneos dificultam visões progressistas e reflexões sobre o futuro, sobre o que pode ser feito para superar o passado. A crise ecológica e a precarização do trabalho batem à nossa porta. Um dos lemas mais bonitos de junho de 2013, “amanhã será maior”, parece ter caducado. Para a imaginação catastrófica, é como se o futuro, e não o passado, já estivesse dado e fosse inalterável.

A ausência de programas políticos, de projetos ou visões alternativas, abrangentes e sedutores o suficiente para alargar os horizontes do possível, faz crescer o apelo do bolsonarismo e dos “novos nacionalismos” de ultradireita. Tudo parece estar perdido, mas pode ser animador lembrar nosso péssimo retrospecto com prognósticos. Quem foi capaz de prever, por exemplo, as conquistas dos movimentos LGBT das últimas décadas? Por outro lado, nunca será verdade o lema de campanha do Tiririca – “Pior que tá, não fica” –, pois sempre dá para piorar, e com Bolsonaro assumimos riscos incalculáveis.

Trotsky escreveu em 1930 que, “Se o Partido Comunista é o partido da esperança revolucionária, o fascismo, como movimento de massas, é o partido da desesperança contrarrevolucionária”. O bolsonarismo talvez seja o movimento da esperança contrarrevolucionária ou da desesperança revolucionária. Bolsonaro representa quem quer a volta “da lei e da ordem” da ditadura, assim como quem quer ver o circo pegar fogo.

Pode parecer exagerado temer por políticas de extermínio, mas não é o que já fazemos em nome de uma guerra às drogas fadada ao fracasso? Hannah Arendt, em Origens do Totalitarismo, escreve: “O que contraria o bom senso não é o princípio niilista de que ‘tudo é permitido’ […]. O que o bom senso e as ‘pessoas normais’ se recusam a crer é que tudo seja possível.”

O bolsonarismo é para quem não aguenta o tranco, quem quer fugir da raia e prefere transferir responsabilidades. Precisamos ter coragem de encará-lo com paciência, compaixão e firmeza. Os que hoje aquiescem ao bolsonarismo ou se deixam seduzir por ele podem ser os facínoras ou as vítimas de amanhã.

*

Nota do autor: Após a publicação do texto acima na piauí_142 (julho), constatei que Bolsonaro negou ter feito, em um evento fechado (segundo a Folha de S.Paulo), a proposta de jogar panfletos sobre a Rocinha avisando os bandidos que eles seriam metralhados, caso não se entregassem em seis horas. A informação foi veiculada em O Globo, por Lauro Jardim, que o deputado depois acusou de fazer terrorismo. A versão online de O Globo com a informação está acrescida de uma nota da assessoria de imprensa do deputado, dizendo que ele “tomou tal exemplo [Rocinha] para se manifestar, no sentido de ser favorável a ações efetivas por parte do Estado, inclusive atirando em casos de confronto ou não rendição”. Como não há gravações do evento, não é possível saber com exatidão o que disse Bolsonaro. Apesar disso, mantém-se a análise que fiz sobre as relações entre legados racistas na sociedade brasileira e as políticas de segurança defendidas por ele.

Bruno Carvalho

Bruno Carvalho é ensaísta e professor em Harvard, nos Estados Unidos.

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A lição de Josefa

A grande artesã deixa um conselho para os políticos: “Não há riqueza maior do que o nosso nome”

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Representatividade de mulheres pretas e pardas, maioria da população brasileira, cresceu 38% nas eleições; participação dos homens brancos é 15 vezes maior do que a das mulheres negras

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