esquina

… Não tem nem nunca teve conta no exterior

O autor do haikai e mantra lapidar em defesa de Maluf

Daniela Pinheiro
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2009

“Paulo Maluf não tem nem nunca teve conta no exterior.” São dezessete sílabas, o mesmo número das do haikai, a forma clássica da poesia japonesa. São dez palavras límpidas, cinco dissílabos entremeados por quatro monossílabos que desembocam num portentoso trissílabo final. A sonoridade da sentença se apóia nos fonemas nasais, na sucessão de êmes e ênes de “Maluf não tem nem nunca teve conta no”. No coração do adágio pulsam três negativas categóricas (não, nem, nunca), que precedem dois verbos incisivos (tem, teve), formando um conjunto de aliterações em êne e tê: “não tem nem nunca teve”.

A oração virou o mantra do malufismo defensivo, quase em fuga. Nos últimos nove anos, Adilson Laranjeira, assessor de imprensa do ex-prefeito paulistano, calcula ter pronunciado a frase umas mil vezes. Só na Folha de S. Paulo ela foi publicada em 42 oportunidades (algumas com pequenas variações). No Google, há 291 ocorrências atribuídas à assessoria de Paulo Maluf.

“A frase é imprescindível”, contou o assessor numa tarde recente, na sede do Partido Progressista em São Paulo. Modesto, ele divide a criação do haikai-mantra com advogados de Maluf. Mas todos no entourage do criador do Minhocão proclamam que o brocardo é da lavra solitária de Laranjeira.

Esparramado numa cadeira de rodinhas que precisava ter o dobro do tamanho para acomodá-lo com conforto, ele falou da sua criação: “É uma coisa muito simples. Quando você fala a verdade, não tem medo. Se a acusação tem prova, então mostre. Por que nunca ninguém mostrou? Deve ser porque não tem, certo?”



Adilson Laranjeira despacha em uma sala claustrofóbica, no Bexiga, com paredes de tinta gasta, uma janela tão pequena que lembra um basculante, e uma televisão que vive ligada. Sobre a mesa jazem jornais amarfanhados, vidros de xarope expectorante e um telefone celular antigo. Aos 69 anos, tem um tom de voz gutural e um corpanzil acima do peso que faz a camisa de botões quase estourar. A calça jeans, presa por um cinto de couro, divide seu abdome em dois hemisférios plutônicos. O cabelo louro-grisalho, penteado para trás, encima um rosto avermelhado. Os óculos de pesada armação transparente realçam os olhos claros e permanentemente arregalados. Laranjeira tem lábios finos e uma risada estrondosa. Parece um personagem bonachão de desenho animado.

Naquela semana de agosto, a Justiça reiterara o bloqueio dos bens de duas empresas controladas pela família Maluf. Tratava-se de mais uma investida do Ministério Público, que exigia a repatriação de 300 milhões de reais, fruto de supostas obras superfaturadas durante a gestão do atual deputado quando prefeito. Os procuradores garantem que o dinheiro foi depositado ilegalmente no exterior. Iniciada em 2001, a ação soma 55 mil páginas, algo próximo a 27 dicionários Houaiss empilhados. “Toda semana é uma acusação, mas papel provando as denúncias nunca apareceu nenhum”, disse Laranjeira, antes de emendar, escandindo cada sílaba, talvez pela milésima primeira vez: “Paulo Maluf não tem nem nunca teve conta no exterior.”

 

A frase funciona sozinha ou acompanhada. O importante é que se mantenha o conceito. Às vezes, o caprichoso Laranjeira a introduz com um “Isso é falso”, “Isso é mentira” ou, nos dias em que sua paciência está por um fio, por um “Isso é pura invencionice”. Se a denúncia é específica, troca “exterior” pelo nome do local, que pode ser Suíça ou Nova York. Quando outros membros do clã Maluf entram no balaio, a oração vai para o plural.

A frase-máter foi usada pela primeira vez em 2000, durante a campanha de Maluf à prefeitura. “Comparam os gastos da construção do Túnel Ayrton Senna aos do Canal da Mancha. Foram sete anos de investigação e nada”, disse. Nos anos seguintes, a locução continuou a prestar bons serviços. “Depois, teve o Frangogate. Eu continuava dizendo que não havia conta no exterior. E o Paulo foi inocentado. Teve a coisa do doleiro Birigui e também nada ficou provado. E os precatórios, cadê o processo? Cadê as contas fora?”, indagou, profissionalmente indignado.

Laranjeira atribui as constantes acusações a Maluf a uma perseguição. “Esse promotor é tucano. Eu já o chamei de rábula de porão e ele me processou umas dez vezes, mas é verdade”, comentou. Ele também vê a cobertura dos repórteres com reservas. “Jornalista não tem noção de número. Já publicaram que o Paulo teria 1,5 bilhão de dólares no exterior.” Fez uma pausa e repetiu, cadenciado: “Veja bem,
dó-la-res. Nem o Bill Gates tem isso depositado em cash. O sujeito escreve e não pára para pensar”, afirmou.

Ele fala de jornalismo com autoridade. Foi chefe de reportagem da Folha de S. Paulo. Laranjeira era um chefe à primeira vista atemorizante: enorme, sarcástico, entediado e cheio de perguntas pertinentes e destrutivas aos jovens repórteres que voltavam da rua certos que tinham uma boa matéria. Só levantava da cadeira para discutir a primeira página com o diretor de redação, Boris Casoy. Ambos muito altos, loiros, corpulentos e mancos, eles atravessavam a redação adernando, batendo os ombros um no outro sincopadamente. Com a convivência, Laranjeira se mostrava bem mais agradável. Era louco por cinema americano, conhecia Hitchcock a fundo e tinha um repertório formidável de piadas racistas (agora, nesses tempos politicamente corretos, só conta aos mais chegados), que faziam o seu amigo Paulo Francis ter síncopes de tanto rir.

Em 1994, quando estava na Folha da Tarde, veio o convite de Paulo Maluf. Consultou Octavio Frias de Oliveira, dono da Folha, sobre a proposta. “Ele me disse: ‘Vai, você é profissional!’ E eu fui”, contou. Houve colegas que, pelas costas, o criticaram por ter malufado. “Nunca ninguém olhou na minha cara e me acusou de ter mudado de lado, isso não é pessoal, é trabalho”, afirmou.

No ano passado, travou uma bem-comportada contenda com o colunista Clóvis Rossi, nas páginas do jornal em que ambos fizeram carreira. Rossi lamentava que o colega, “profissional competente”, cuja função fora “pôr sua turma para trabalhar em textos de denúncia ou críticos a Paulo Salim Maluf”, havia virado a casaca. E que agora fazia justamente o contrário, mandando “cartas negando todas as acusações e críticas a seu chefe”.

Em sua réplica, Laranjeira escreveu: “Aquilo que escrevo sobre Maluf é baseado no direito de defesa que o Manual de Redação da Folha assegura a todos”. Ele não lamenta ter se tornado assessor. “Trabalhar em redação é um saco, é pressão de cima e de baixo, é pensar se a circulação do jornal está boa, se tem anúncio, isso torra a paciência de qualquer um”, disse. A parte boa do seu atual emprego, informou, é a convivência com Maluf. “Não se ganha mal e ele não te enche o saco, e olha que o Paulo tem tudo para ser o enchedor-de-saco-mor da República”, disse.

Perguntado se não haveria apenas dois terráqueos – ele próprio e a Sra. Sylvia Maluf – a acreditar no que diz o ex-prefeito, Laranjeira foi, mais uma vez, profissional. “De jeito nenhum. Muita gente acredita!”, bradou. “Olha, converso com o Paulo mais do que falo com a minha mulher. Se o cara esconde algo, uma hora ele se trai. E, em todos esses anos, ele nunca, nunca escorregou em nada.”

A célebre frase infelizmente não foi repetida como fecho de ouro da entrevista. Mas ainda há de ser ouvida várias vezes no futuro. E pode muito bem figurar na lápide do acusado: “Aqui jaz Paulo Maluf, que não tem nem nunca teve conta no exterior.”

Daniela Pinheiro

Daniela Pinheiro foi jornalista da piauí entre 2007 e 2017

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