tempos da peste

Não tenho resposta para tudo

A vida de uma médica entre seis hospitais e três filhos durante a pandemia

Chris Gallafrio Novaes
Chris Novaes, em um de seus plantões: “O mais difícil está sendo com a minha filha mais nova, Marina, de 12 anos, que sempre vem correndo me dar um abraço quando chego em casa”
Chris Novaes, em um de seus plantões: “O mais difícil está sendo com a minha filha mais nova, Marina, de 12 anos, que sempre vem correndo me dar um abraço quando chego em casa” FOTO: EGBERTO NOGUEIRA_2020

CHRIS GALLAFRIO NOVAES, 45 anos, é médica infectologista. Em março, quando o novo coronavírus passou a ser transmitido de forma comunitária no Brasil, ela recebeu seus primeiros pacientes contaminados. Foi obrigada a adaptar a rotina no trabalho (com rituais de paramentação e corridas incessantes de um local a outro) e em casa (com regras para evitar o contato com o marido e os três filhos). No diário abaixo, ela conta sobre os dias iniciais da pandemia em seis dos hospitais em que trabalha em São Paulo.

 

15 DE MARÇO, DOMINGO_As pessoas não estão se dando conta da gravidade da epidemia. Não percebem que o vírus já está circulando abertamente entre nós, com transmissão comunitária. Hoje é aniversário do André, meu marido, e minha sogra, que adora cozinhar, vinha preparando uma festa já fazia algumas semanas. Na sexta-feira, quando o vírus começou a mostrar sinais de transmissão comunitária, conversamos sobre cancelar. Foi um estresse (entendo, tudo já tinha sido comprado, mesas e cadeiras alugadas etc.). Decidimos seguir em frente com um número reduzido de pessoas. Pelo menos a festa foi ao ar livre.

Ver os amigos e familiares, todos juntos, gerou certa angústia em mim, por saber que essas reuniões passariam a ser cada vez mais arriscadas, talvez proibitivas durante alguns meses. O bebê mais fofo da festa – minha sobrinha, xodó da família – andou entre todos com coriza (chegou a subir no colo dos quatro avós). Provavelmente era um resfriado comum, mas fiquei tensa: em crianças o coronavírus se manifesta com sintomas discretos, por vezes apenas uma coriza.

 

16 DE MARÇO, SEGUNDA-FEIRA_Exausta, já passa de meia-noite e meia. Ontem, enquanto dormia, tive um pesadelo daqueles de criança. Estava numa praia tranquila, parecia até uma lagoa, as pessoas brincavam, pegavam sol, até que surgia uma onda gigante engolindo todo mundo.



Faço parte de uma equipe de três infectologistas: Marcelo, Bruno e eu. Visitei nossos pacientes internados no Hospital Sírio-Libanês e fui a uma reunião do comitê de crise da escola dos meus filhos. Havia cerca de dez pessoas, todas juntas, sentadas ao redor de uma mesa. Ficamos ali cerca de duas horas, quase encostadas umas nas outras. A ficha ainda não caiu quando se trata de ações no dia a dia.

De lá fui para o Albert Einstein visitar outro paciente. O pronto-socorro estava relativamente vazio. Não era uma coincidência: um enfermeiro me disse que o hospital havia montado outro pronto-socorro no segundo andar, só para atender suspeitos de coronavírus (e sim, esse andar estava lotado). Cheguei em casa por volta de oito e meia da noite. Antes de descer do carro, atendi à ligação da esposa de um paciente. Ele tem 65 anos, havia ido a um evento com a comitiva do Bolsonaro em Miami, e agora está com febre (por ora, a comitiva já tem catorze casos comprovados). Resolveram ir ao pronto-socorro.

Entro em casa pela porta dos fundos, higienizo as mãos com álcool gel. Tiro a roupa na lavanderia, coloco direto na máquina de lavar. Sigo para o banho. Agora essa é minha rotina. A pior parte é a de não chegar perto das crianças.

Saindo do banho, vejo que há duas ligações não atendidas. Retorno a primeira: uma amiga, cardiologista, conta que não vai conseguir voltar ao hospital para atender um paciente. Ela já vinha apresentando um quadro de moleza desde sábado, mas como nós, médicos, estamos habituados a fazer, ignorou os sintomas por serem leves. Tirou um cochilo hoje à tarde e acordou com febre. Ela me contou que atendeu um paciente, quatro dias atrás, que estava com febre depois de voltar de uma viagem (ele fez o teste e hoje recebeu o resultado: positivo). Até perceber o risco, o contato já havia acontecido. Pedi para ela fazer exame para Covid-19 e ficar em isolamento domiciliar.

A segunda ligação era do Raul, amigo querido da faculdade, ortopedista que operou minha mãe. Sua esposa estava sendo internada no Oswaldo Cruz com suspeita de coronavírus. Ela vinha com sintomas muito leves – tosse seca, sonolência –, também ignorados desde sexta-feira. Hoje, após reunião no hospital onde ela trabalha como enfermeira, apresentou febre de 38,5ºC e falta de ar. O pior é que nesse período ela teve contato com a mãe e com o sogro.

Ela fez tomografia computadorizada do tórax. Resultado: lesões muito sugestivas de coronavírus em ambos os pulmões, principalmente nas periferias e nas bases. Foi colocada em um andar reservado para esses casos, onde já há seis pacientes confirmados e onze com exames em andamento. Coloquei o Raul e as duas filhas pequenas em quarentena; eles não poderão visitá-la. Só que uma das filhas não conseguia dormir enquanto a mãe não ligasse para desejar boa-noite (o celular dela estava sem bateria, e o Raul perguntou se eu não conseguiria fazer esse pedido chegar ao quarto em que ela estava). Que dó.

Ao deitar, sinto o rosto quente, o coração um pouco mais acelerado e uma leve dispneia. Deve ser ansiedade.

 

17 DE MARÇO, TERÇA-FEIRA_Hoje cedo foi tranquilo no ambulatório de HIV do Hospital das Clínicas, onde trabalho. Os pacientes estavam preocupados sobre a forma como o novo vírus se manifestaria no caso deles. Pelas informações publicadas até o momento, parece não haver diferença entre portadores ou não de HIV. Tratei de tranquilizá-los. No Hospital das Clínicas, por enquanto, faço só ambulatório de HIV. Mas pode ser que sejamos deslocados, a depender da evolução da epidemia.

Após o almoço e até agora, meia-noite, não parei por um minuto. Segui do HC para o hospital do Butantan, onde atendo pacientes picados por animais peçonhentos, como escorpiões, aranhas, cobras, lagartas. É minha noite de plantão, que vai até a manhã seguinte. Apesar do coronavírus, as outras doenças continuam a existir.

Fora daqui o dia foi tenso e triste, por causa da primeira morte ocorrida pela Covid-19 no Brasil: um paciente de São Paulo. A situação epidemiológica hoje, segundo o site do Centro de Vigilância Epidemiológica do estado de São Paulo é a seguinte: 167 515 pacientes contaminados no mundo, 81 290 na China, 290 no Brasil, 165 em São Paulo. Mas os números brasileiros estão subestimados. Sabemos, por informações internas, que os três principais laboratórios do estado somam 821 exames positivos, que ainda não foram computados (leva-se um tempo entre a notificação de um resultado positivo e sua computação pelo Ministério da Saúde). Além disso, só em um dos maiores laboratórios há mais de 3 mil exames em andamento. A onda já é maior do que conseguimos enxergar.

Minha cunhada está em isolamento desde domingo (ela vinha apresentando um quadro de tosse, achei melhor que ficasse em casa). Hoje ela me conta que o seu marido, ortopedista, também está com suspeita de ter contraído o vírus. Ele passou o dia de ontem trabalhando com um residente – e esse residente acordou hoje com febre e falta de ar (ele fez tomografia, vi as imagens: as lesões são típicas da Covid-19). Sei que nós, profissionais da saúde, temos mais chance de ser infectados. Meu único receio, caso isso ocorra, é o de ficar afastada dos atendimentos por duas semanas, em um período em que os médicos serão cada vez mais necessários. Na minha faixa etária – tenho 45 anos –, o risco de óbito ainda é relativamente baixo (0,4%), pelo menos de acordo com os dados da China. Ele cresce após os 60 anos (3,6%), os 70 (8%) e os 80 (14,8%).

Sou feliz com o que fiz e vivi até agora. Meus três filhos – eles têm 12, 13 e 15 anos – são responsáveis, maduros, se importam com o outro. Me tranquiliza ter essa certeza de que irão bem mesmo se eu não estiver mais aqui. Além disso, eles já passaram por perdas desde cedo, de pessoas muito próximas: crianças, adultos, idosos. Foram aprendendo a lidar com a morte.

Entre meus colegas, o receio maior é o de sofrer em uma UTI, com intubação e chance de pneumonia hospitalar, caso a doença evolua de maneira grave. É um receio que também tenho; pensar nisso não é agradável.

Outra preocupação frequente é a de que aqui se repita o que tem ocorrido em alguns países europeus, como a Itália, com um número avassalador de óbitos de idosos. Também há preocupação com a capacidade do SUS de atender a população, além da provável piora dos indicadores sociais. Discute-se também sobre o risco de aumento de suicídios em função do isolamento forçado. Muitos não sabem, mas as visitas a todos os pacientes internados, mesmo àqueles com outras doenças, serão cada vez mais restritas. Isso é necessário para que menos gente circule nos hospitais, reduzindo o risco de disseminação. Por outro lado, privará doentes graves de outras doenças, que estão em cuidados paliativos (do qual um dos principais pilares é o conforto propiciado pela família) de receberem seus entes queridos. Sempre me consolou pensar no tipo de morte que tiveram minha avó, minha tia e minha tia-avó, em suas casas, com suporte da família. Acho que todo mundo merecia uma morte assim.

Há pouco foi divulgado o segundo óbito, dessa vez em Niterói: um homem de 69 anos. Soube que na Itália não permitem visitas a esses pacientes nem quando caminham para a morte. Isso me arrepia.

 

18 DE MARÇO, QUARTA-FEIRA_Saí do plantão de manhã e fui direto para o consultório que divido com o Marcelo no bairro da Bela Vista. Eu precisava atender dois pacientes idosos. O primeiro havia sido operado recentemente. O segundo havia tido tuberculose. Pedi que ele não viesse ao consultório, disse que ficaria mais protegido em casa, até porque tem apresentado um quadro de melhora. Mas, como ele precisava estar na região por causa de outra consulta, acabou vindo. Os outros pacientes, mais jovens, também em situação de controle, concordaram com a consulta de retorno a distância.

Recebi ligação de um paciente que tinha recebido confirmação do coronavírus na noite anterior. Ele relatou uma falta de ar intensa – de fato parecia ofegante ao telefone. Pedi que fosse ao pronto-socorro do Sírio-Libanês, e eu o atenderia lá, porque precisaria de um exame de imagem. Perguntei como ele iria. Ele me disse que pretendia pegar um Uber, sem máscara (ele não tinha), mas eu proibi. Dei a ele duas opções: ir em carro próprio ou pedir que algum vizinho lhe providenciasse uma máscara.

No pronto-socorro, vi que ele estava bem, com bom nível de oxigenação sanguínea, embora um pouco taquicárdico. Pedi os marcadores sanguíneos e uma tomografia, depois voltei ao consultório para atender outro paciente. Dali corri para um segundo hospital, o BP Mirante, que fica a dez minutos de carro. Outra paciente com coronavírus, pouco menos de 60 anos, diabética. Correria.

Feito o atendimento, retornei ao Sírio. Os exames do paciente taquicárdico estavam prontos: a tomografia mostrava um pulmão limpíssimo, o exame de sangue também estava ótimo. Assim como faço antes de todo atendimento a pacientes com suspeita ou diagnóstico firmado de Covid-19, eu vesti avental, máscara, óculos, higienizei novamente as mãos com álcool gel e coloquei as luvas. Tranquilizei o paciente: provavelmente sua sensação de falta de ar tinha sido reflexo não do coronavírus, mas da notícia de que seu exame tivera resultado positivo. Ele entendeu e foi para casa de máscara.

Findo o atendimento, o ritual de desparamentação: retirar ainda no pronto-socorro as luvas e o avental com todo o cuidado, segurando pela parte interna; sair do quarto; higienizar as mãos; retirar os óculos pelas hastes laterais; retirar a máscara pela parte dos elásticos; higienizar novamente as mãos com álcool gel; higienizar os óculos antes de guardá-los; e novamente gel nas mãos. Ainda preciso pensar antes de cada passo; sempre tenho receio de estar fazendo de maneira errada.

Visitei mais dois pacientes no Sírio e segui para um terceiro hospital, o Oswaldo Cruz (mais dez minutos de carro), onde está internada a mulher do meu colega Raul. Ela vinha passando muito bem até que voltou a apresentar febre.

Dali segui para um quarto hospital, o Einstein, que fica mais distante. No caminho, aproveitei que o carro tem viva-voz e retornei as ligações de vários pacientes, a maioria idosos. “Não, melhor não sair de casa.” “Não, não pode cuidar da neta de 8 anos, e nem do neto de 3 anos que está resfriado.” “Sim, entendo que ela vai chorar porque é muito apegada.” Colegas também ligam, alguns mais velhos pedem que eu atenda seus pacientes; acho prudente.

Outros colegas ligam para tirar pequenas dúvidas. “Não estão mais fazendo teste-diagnóstico, o que faço?” Devido ao rápido consumo dos primeiros dias, os estoques acabaram e os hospitais e laboratórios foram obrigados a mudar de estratégia, reservando os exames para os pacientes graves. Recomendo então já deixar o paciente em isolamento – melhor pecar pelo excesso. “Atendi um paciente com diarreia, e depois o resultado da Covid-19 veio positivo, acredita?” Aos poucos vamos percebendo que o vírus pode se manifestar de forma atípica. “Que máscara usar? Como usar? A manga do avental sobe expondo parte do meu punho, o que faço?” Não tenho resposta para tudo, mas às vezes dividir a angústia já alivia.

No Einstein, atendi um paciente internado há um mês (nada a ver com o coronavírus). Mal eu termino, o Marcelo me avisa que a mulher de um colega pneumologista está no pronto-socorro do Oswaldo Cruz. Ela havia chegado do Canadá, onde foi fazer um curso de inglês. Só que a escola havia sido fechada depois que um aluno teve diagnóstico de Covid-19 confirmado. Dias depois ela começou a sentir um leve mal-estar. Vinha fazendo uso de ibuprofeno para cólicas menstruais, o que pode ter mascarado os sintomas, até que eles vieram com força: febre, uma sensação de aperto no peito e falta de ar. Ela então adiantou seu voo para o Brasil (veio de máscara N95 no avião). Aqui chegando, foi direto para o hospital.

Expliquei a ela como deve ser o isolamento. A pessoa com diagnóstico confirmado ou mesmo provável deve ficar em um quarto, de preferência com banheiro próprio. Uma pessoa da família deve ser designada para ter o contato mínimo necessário: levar comida, dar suporte, fazer a limpeza – sempre usando máscara e higienizando as mãos antes e depois de entrar no quarto. Animais de estimação não podem entrar. Se possível, pessoas idosas devem se mudar para outra casa. Talheres, copos e pratos devem ser de uso exclusivo do paciente, que deverá permanecer com máscara o tempo todo, e de janelas abertas. Não é simples.

Quando retornei para casa, à noite, cumpri o ritual de me despir na área de serviço, colocar a roupa para lavar e seguir direto para o banho. Conversei com as crianças de longe. Luis Henrique, de 15 anos, conseguiu finalmente se adaptar aos estudos online. Isabela, de 13, não para de falar maravilhada sobre o livro que acabou de ler, Razão e Sensibilidade, da Jane Austen (virou sua nova diva, colocada no pedestal ao lado da Emily Brontë). O mais difícil está sendo com a mais nova, Marina, de 12 anos, que sempre vem correndo me dar um abraço quando chego em casa. “Não pode, filha. Não pode, fofa”, tento explicar.

Além dos pacientes de Covid-19 que atendo, frequento muito o pronto-socorro, um ambiente potencialmente contaminado. O André está trabalhando em casa desde ontem. Tem sido puxado para ele, que tem se encarregado de ajudar as crianças na nova dinâmica de estudos, cuidar da casa, cozinhar – além de tocar seu trabalho com seguidas reuniões por videoconferência (ele é executivo).

Orientamos a senhora que trabalha conosco a ficar na casa dela desde segunda-feira, dia 16, de forma a evitar que pegue transporte público (mantivemos seu salário, claro). As crianças fizeram uma tabela, por iniciativa própria, com a divisão dos afazeres domésticos (regra maravilhosa: quem esquecer de limpar seu banheiro terá que limpar o da mamãe também).

São quase onze da noite. Me esparramo no sofá exausta, após mais de 36 horas trabalhando, e começo a checar as centenas – não é linguagem figurada – de mensagens de WhatsApp, enquanto o André prepara o jantar. Comemos na varanda. Depois tento vencer o sono enquanto checo algumas publicações científicas recentes sobre o coronavírus. Infelizmente, o antirretroviral usado até pouco tempo atrás para pacientes de HIV – uma associação de lopinavir com ritonavir – não se mostrou eficaz contra o coronavírus, segundo o New England Journal of Medicine. Leio também uma análise publicada no Morbidity and Mortality Weekly Report sobre faixa etária de pacientes mortos nos Estados Unidos.

Tento manter certa distância do André, mas é difícil. Acordo várias vezes à noite preocupada em não virar o rosto para o lado dele na cama. Acho que não conseguiremos manter essa regra por muito tempo, nem com relação a ele nem com os meus filhos. A Marina vive tentando me abraçar de surpresa. Talvez o dano provocado pelo afastamento seja maior que o do coronavírus…

 

19 DE MARÇO, QUINTA-FEIRA_Manhã no ambulatório de HIV do Hospital das Clínicas. Ligamos para os pacientes, para dispensar de consulta aqueles cujos exames estivessem com carga viral indetectável. Os que apresentavam algum tipo de alteração sanguínea continuaram com as consultas presenciais agendadas.

À tarde, o Marcelo ficou encarregado de visitar todos os nossos pacientes internados. Eu queria aproveitar o tempo para estudar as novas publicações científicas sobre o coronavírus, mas acabei me dedicando à enxurrada de mensagens que havia recebido de pacientes e colegas – provocada pela circulação de uma notícia sobre a “cura” da Covid-19 com um remédio chamado cloroquina.

Resolvi ler um dos artigos acadêmicos responsáveis por essa euforia. Me animei: ele vinha com um gráfico mostrando resultados supostamente superiores de pacientes que haviam usado a hidroxicloroquina associado à azitromicina. Mas o entusiasmo foi por terra assim que comecei a ler o trabalho: a pesquisa era pequena, não tinha os dados de quem melhorou e de quem foi a óbito. Além disso, o grupo tratado com cloroquina tinha idade inferior à do grupo não tratado – e a gente sabe que essa doença castiga mais os idosos.

Eventualmente pode ser que a hidroxicloroquina – que é um derivado menos tóxico da cloroquina – venha a ser útil, mas por ora não temos base para usá-la. O problema é que o fogo pegou em campo seco, e ficou difícil apagá-lo. Houve paciente me enviando foto da caixinha do remédio – que ele já havia comprado, por conta própria –, perguntando como deveria tomar. O mais triste disso tudo é que os pacientes que realmente têm indicações de tomar a hidroxicloroquina – pessoas com artrite reumatoide, por exemplo – ficarão sem a droga, já que ela se esgotou nas farmácias.

À noite, reunião de classe da Isabela por videoconferência – coisa inédita, ainda mais considerando a escola de pedagogia Waldorf onde as crianças estudam.

 

20 DE MARÇO, SEXTA-FEIRA_Ambulatório vazio de manhã. Continuei o processo de checar os exames e telefonar para os pacientes: é estranho não tê-los aqui, a sala de espera virou um vazio, só se ouve a televisão ligada para ninguém.

Ao meio-dia fui do HC para o BP Mirante, onde a paciente diabética com Covid-19 está internada (o quadro estava mais estável, sem febre). De lá segui para o Oswaldo Cruz indo visitar a esposa do Raul. Ela apresentou melhora, sem febre por 48 horas, embora esteja com o intestino um pouco solto. Sente muita falta das filhas. Está abalada também porque um paciente do seu andar – onde só há internados com Covid-19 – foi a óbito.

Normalmente a essa hora, por volta de meio-dia e meia, eu busco cinco crianças na escola – meus três filhos e mais dois colegas (me revezo no transporte com a mãe das outras crianças). Costumo demorar uma hora para ir e outra para voltar, já que a escola fica em Santo Amaro. Mas como as escolas estão fechadas, volto para casa e ajudo o André a fazer a comida; ele está exausto.

Meu primeiro paciente de Covid-19 está em seu nono dia de quarentena, já muito bem. Ele me ligou para saber se após ter pego o vírus ficaria protegido contra reinfecção. Aparentemente sim, respondi, embora haja relatos –  raros, e ainda não comprovados – de pacientes que teriam contraído a doença duas vezes. Trata-se de uma enfermidade nova, ainda estamos aprendendo. Ele me explicou o motivo da pergunta: quer se inserir em algum projeto como voluntário caso de fato esteja protegido. Isso me fez feliz por um ano inteiro.

 

21 DE MARÇO, SÁBADO_Ontem à noite uma nova paciente com suspeita de coronavírus me mandou uma mensagem: estava começando a sentir falta de ar. Como ela não tem doença crônica e não está na faixa etária de risco, a orientei a observar e me telefonar caso os sintomas se intensificassem (sempre peço que me telefonem durante a noite, porque nem sempre acordo com o barulhinho da mensagem).

Ela não ligou, mas mandou mensagem às 5h30 porque estava pior. Milagrosamente acordei com o bip, e a orientei a ir – de máscara – para o pronto-socorro do Sírio enquanto eu tomava um banho rápido.

Lá chegando, subi direto para o décimo andar, onde foi montado um pronto-socorro para atender casos suspeitos de coronavírus (separaram também um elevador exclusivo, que não para em nenhum outro andar). Me paramento, entro no local onde está a paciente, converso com ela, peço exames de sangue e tomografia. Enquanto ela os faz, aproveito para passar visita na paciente que está no BP Mirante. Ela ainda cansa quando tira o cateter de oxigênio, mas está visivelmente melhor. Depois vou para o Oswaldo Cruz ver a mulher do Raul. Ela também melhorou, hoje é o terceiro dia sem febre. Converso com o pneumologista que também a acompanha, e concordamos que ela está apta a receber alta. À noite recebo uma mensagem dela agradecendo; tinha sentido muito medo de morrer. “Quando cheguei em casa, eu e o Raul ficamos chorando muito”, ela diz. “E ainda estou assustada com o que está por vir.” Não vai ser fácil.

 

22 DE MARÇO, DOMINGO_No total, agora, tenho uma paciente com coronavírus internada e outros doze em acompanhamento a distância (o Marcelo tem mais dezoito). Por volta de meio-dia, vou ver essa paciente no BP Mirante. Ela está melhor: pela primeira vez conseguiu ficar algumas horas sem oxigênio. Percebo que agora meu processo de paramentação e desparamentação – colocar e tirar máscara, óculos, avental, luvas e muito álcool gel – já está automatizado.

Enquanto descrevo a evolução da paciente no sistema de computadores, percebo que a auxiliar de enfermagem do meu lado está um pouco desconfortável. Ela me conta que trabalha no ambulatório de saúde da mulher, e que foi deslocada para o andar dos pacientes com Covid-19. Hoje é seu primeiro dia. Está preocupada com o filho pequeno; tem medo de levar a infecção para casa. Essa preocupação não é infundada. Um editorial do periódico The Lancet citou mais de 3 300 profissionais de saúde infectados na China e pelo menos 22 mortes. Na Lombardia, principal área afetada da Itália, a infecção de profissionais de saúde está em 20%, com alguns óbitos. Quando penso nisso, os casos de agressão contra enfermeiras em transporte público me deixam ainda mais revoltada.

Um colega anestesista relatou que uma enfermeira do Einstein chegou ao hospital chorando após quase ser expulsa do vagão do trem (os passageiros acharam que ela poderia infectá-los depois de verem sua malinha com a logomarca do hospital). No meu prédio mesmo, onde moram muitos médicos, um vizinho sugeriu que nós, médicos, não usássemos mais o elevador. Concordei, não só porque desse modo gero menos insegurança para os outros moradores, mas também porque assim faço um pouco de atividade física.

À tarde uma colega que não estava se sentindo bem pediu para que eu visse um paciente dela internado por infecção intestinal. Rumei para o Einstein. Cidade vazia e silenciosa, boa para pensar. O artigo recente do jornalista Jamil Chade ocupa minha mente durante o caminho. O título diz tudo: A Crise que Definirá Nossa Geração.

Chris Gallafrio Novaes

É médica infectologista

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