esquina

Não vá ao oculista

Uma última esquina em que reaparece um refrigerante

Gustavo Colares

Parintins pode confundir seu visitante mais desavisado. Diante de camisas vermelhas da seleção brasileira e de latinhas azuis da Coca-Cola, o pobre coitado pode achar que passou a vida sem saber que era daltônico. Erro grave. Durante o festival folclórico dos bois Garantido e Caprichoso, mais conhecido como festa do boi, as coisas naquelas bandas são assim mesmo. Quem torce pelo boi vermelho se recusa a usar azul, quem é da turma do boi azul enxerga no vermelho a cor do diabo.

Parintins fica a 420 quilômetros de Manaus. No final de junho, a cidade se transforma no maior pólo turístico do Norte. À tradicional família em férias, soma-se um substancial contingente de jornalistas que descem às bateladas do espantoso trenzinho da alegria movido pelos poderes que patrocinam o evento. Durante as três noites do festival, o município se parte em dois. De um lado, ficam os torcedores do “boi do povão”, de nome Garantido, cujas cores são o vermelho e o branco. Do outro, ficam o azul e o branco do Caprichoso, o “boi da elite”.

Não se deve tomar literalmente a idéia de boi. Ninguém sabe ao certo se algum dia Caprichoso e Garantido pastaram, fizeram mu ou acabaram como picanha no prato de alguém. Caprichoso e Garantido é como se chamam as duas agremiações oponentes. São como escolas de samba, ao som da toada, um ritmo local. Durante o tríduo bovino, cada boi coloca na arena uns 3500 integrantes por dia. Diante da rivalidade, a escala cromática vira um problema. É onde entram a esquisita camisa da seleção brasileira e a latinha idem da Coca-Cola. A idéia da camisa brotou da cabeça de Valdilene Lopes, lojista de 37 anos, torcedora do Garantido – “Claro, meu filho”. A camisa vermelha foi posta à venda dias antes da Copa da Alemanha, no ano passado. Em pouco tempo, as prateleiras da loja Amanda Confecções, no centro de Parintins, ficaram vazias. Enganam-se os que acham que Valdilene Lopes conspurcou um dos nossos mais prezados símbolos nacionais. A seleção brasileira de futebol já vestiu camisa vermelha em partida oficial. Foi em 1917, durante o Campeonato Sul-Americano. Argentina, Brasil, Chile e Uruguai disputaram o torneio. Na época, os três últimos times jogavam de uniforme branco. Para não confundir o torcedor e o árbitro, definiu-se por sorteio qual seleção deveria mudar de cor. O Brasil perdeu: teve de se cobrir de vermelho. Demos de 5 x 0 no Chile.

A Coca-Cola também sucumbiu às paixões locais. Em Parintins, uma das marcas mais valiosas do mundo – 67 bilhões de dólares, segundo a consultoria internacional Interbrand – é obrigada a abrir uma raríssima exceção: em algumas latinhas, sai o vermelho e entra o azul. É a única forma de não melindrar o pessoal do boi Caprichoso e evitar que eles se atirem nos braços da lata contrária, que, convenientemente, já tem o azul na marca. No festival de 2007, a empresa de refrigerantes vai desembolsar cerca de 5 milhões de reais. Segundo Marcos Simões, diretor de comunicação da empresa, a dinheirama é gasta “no patrocínio aos bois e nos gastos para transportar até Parintins, hospedar confortavelmente e acomodar no bumbódromo cerca de 200 formadores de opinião do país e do exterior”. É literalmente a farra do boi.

Gustavo Colares

Leia também

Últimas Mais Lidas

Quem ri com Bolsonaro

Na porta do Alvorada, empresário apoia agressão a jornalista; nas redes, estratégia bolsonarista amplia alcance de ataques

Seguro sinistro

Despachante de "associações de proteção" oferece prêmio a policiais para recuperar carros roubados no Rio

Foro de Teresina #89: As mentiras de Bolsonaro, a caserna no Planalto e os tiros contra Cid Gomes

O podcast de política da piauí discute os principais fatos da semana

Tanque atropela patinete

Militares e policiais acendem pavio para implodir agenda de Paulo Guedes

Greve, motim e chantagem pelo poder

Bolsonaro usa demandas dos policiais para enfraquecer governadores, em especial os de oposição

“A jornalistas, oferecem dinheiro ou chumbo”

Repórter reconstitui assassinato do jornalista Léo Veras e lembra rotina de violência do narcotráfico na região

O Farol – fantasia extravagante 

Escassez de opções e presença de Willem Dafoe levam colunista a cair no conto do “horror cósmico com toques sobrenaturais”

Coronavírus espreita a Olimpíada

A cinco meses dos jogos, Tóquio vê turistas fugirem e máscaras acabarem

Maria Vai Com as Outras #1: A necessidade faz o sapo pular

A camelô Maria de Lourdes e a costureira Alessandra Reis falam da rotina como profissionais autônomas num mercado informal: o das calçadas do Centro do Rio e o da Marquês de Sapucaí

Mais textos
1

Greve, motim e chantagem pelo poder

Bolsonaro usa demandas dos policiais para enfraquecer governadores, em especial os de oposição

2

Quem ri com Bolsonaro

Na porta do Alvorada, empresário apoia agressão a jornalista; nas redes, estratégia bolsonarista amplia alcance de ataques

3

Tanque atropela patinete

Militares e policiais acendem pavio para implodir agenda de Paulo Guedes

5

A pensão de 107 anos

Herdeiros de servidor público receberam legalmente benefício da Previdência de 1912 a 2019 – atravessando nove moedas e trinta presidentes brasileiros

6

Seguro sinistro

Despachante de "associações de proteção" oferece prêmio a policiais para recuperar carros roubados no Rio

7

Foro de Teresina #89: As mentiras de Bolsonaro, a caserna no Planalto e os tiros contra Cid Gomes

O podcast de política da piauí discute os principais fatos da semana

8

“A jornalistas, oferecem dinheiro ou chumbo”

Repórter reconstitui assassinato do jornalista Léo Veras e lembra rotina de violência do narcotráfico na região

9

Coronavírus espreita a Olimpíada

A cinco meses dos jogos, Tóquio vê turistas fugirem e máscaras acabarem