esquina

Nas alturas

Drama e comédia a vários palmos do chão

Claudia Antunes
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2013

A atriz Lígia Veiga tem pouco mais de 1,50 metro, mas no trabalho o mundo lhe bate nas canelas. Quando se apresenta, duas varas retangulares de cedro, mais finas do que seus tornozelos, lhe servem de prolongamento das pernas, e ela cresce para quase 2,70 metros, altura do pé-direito da maioria dos apartamentos. É uma atriz verdadeiramente superior.

Lígia tem 53 anos, a cabeleira selvagem e um nariz fino e aquilino no rosto redondo. Evoca tanto um duende quanto uma mamma italiana, e faz mais de trinta anos que criou a Companhia de Mystérios e Novidades. A trupe artística, que há tempos faz principalmente teatro de rua, é a única no Rio de Janeiro em que a perna de pau não é um apêndice esporádico, mas suporte obrigatório para os atores em todas as montagens.

“O transeunte é atraído por aquela figura estranhíssima, e pode se desinteressar logo ou ficar cativado pelo que você está falando. A perna eleva os atores e os coloca numa situação de risco, uma analogia com o mundo em que a gente vive”, filosofa ela numa tarde de fevereiro, no casarão antigo que a companhia ocupa no bairro carioca da Gamboa.

Lígia já formou acrobatas improváveis. Nos anos 90, recém-chegado do Maranhão, Zeca Baleiro teve de usar pernas de pau para atuar num musical dirigido por ela, em São Paulo. “Aprender foi relativamente fácil. Agora, tocar e cantar lá em cima é outro assunto”, disse o audaz compositor e cantor. Baleiro hoje ri da crise de pânico numa cena em que, “meio empostado, à la Gardel”, cantava um tango. “Na hora em que eu puxei o ar, me esqueci da perna e ela escorregou.” Para o bem do cancioneiro nacional, a tragédia não se consumou e Baleiro manteve a integridade de seus ossos.



É claro que haverá aquelas ocasiões em que se esborrachar no chão é inevitável. Para tais momentos, existe uma técnica que ajuda a diminuir o estrago. Consiste em jogar o corpo para a frente, abrir uma perna para adiante e outra para trás, e tentar apoiar-se no chão com as mãos e os joelhos. Deslocamentos de pulso são a consequência mais frequente.

 

Estar em pernas de pau é um pouco como virar tubarão. Se parar, dança. Como não há ponto de equilíbrio, é preciso estar sempre em movimento, dando passinhos. Fresca do aprendizado recente, a mais nova integrante da Companhia de Mystérios falou da dificuldade de se manter nas alturas. E que altura: Oirana Moraes tem 1,75 metro. Na perna de pau, fica com quase 3 metros. Mais um pouco, interferiria na rota dos aviões.

“Quanto mais você pensa que não é possível estar equilibrado, mais se desequilibra. Você tem que sentir que seu corpo termina quando sente o bater da madeira no chão, entende que tem que dobrar o joelho para conseguir dar passos maiores”, disse Oirana, uma bailarina portuguesa de 24 anos.

Ela treinou por dez dias e só se sentiu à vontade quando chegou seu figurino de marinheira, na véspera da encenação da Chegança do Almirante Negro na Pequena África. A peça, de 2010, conta a história de João Cândido, líder da Revolta da Chibata, e foi reeditada no Carnaval deste ano no desfile do bloco Escravos da Mauá. “A roupa é configurada para a perna, então foi aí que ela entrou no meu corpo, que eu senti que aquela estatura era do personagem. Minha segurança ficou outra.”

É preciso subir numa cadeira para montar nas pernas de pau. Os sapatos ficam presos a plataformas pregadas nas duas hastes, numa altura variável. As varas seguem até a altura dos joelhos, e um pouco abaixo deles ganham no lado interno amarras de lona forrada, que servem para firmar os membros de carne e osso e protegê-los do atrito com a madeira. Na casa da Gamboa, dezenas de pernas de pau descansam num quarto. Quando medidas, elas resultam ainda mais finas do que parecem quando usadas: 4 × 3,5 centímetros de espessura, pouco mais que a largura de dois dedos. Uma sola feita de pneu aumenta ligeiramente a superfície em contato com o chão.

A altura varia. “Depende do caráter de cada personagem e da concepção estética do espetáculo”, explicou Lígia. No drama satírico O Ciclope, do grego Eurípedes, o gigante de um olho só Polifemo, filho de Posêidon, foi representado sobre as pernas também gigantescas de bambu, cujo tamanho limita os movimentos do ator. “O Polifemo era mais pesado, lento. Já os sátiros, o coro do espetáculo, eram mais ágeis e usavam as pernas menores.”

 

Pernas de pau são utilizadas há milênios em rituais e festas. Há registros desse uso na Grécia antiga, e conta-se que soldados persas subiram nelas para assustar os inimigos. Na China, sua origem é atribuída a um embaixador que viveu há 2 700 anos. Uma raposa, o homem. Tendo vindo ao mundo em tamanho PP, uma clara desvantagem a quem precisa impressionar interlocutores, o diplomata teria subido em hastes de madeira para se impor nas tratativas com funcionários de um reino vizinho.

Como o veterano Amir Haddad, do grupo Tá na Rua, Lígia é uma operosa praticante da “arte pública” – que ela pede encarecidamente para não ser confundida com “arte mambembe”. Os temas são elevados, simbólica e literalmente. No momento, ela prepara uma montagem sobre Hipátia de Alexandria, matemática que viveu entre os séculos IV e V e morreu assassinada, em meio a disputas religiosas e políticas.

Quando a peça estrear, a Companhia de Mystérios espera estar no comando da praça da Harmonia, perto de sua sede. Será parte de um projeto experimental da prefeitura do Rio, no qual companhias de teatro de rua manterão programações para espaços públicos. Um pouso fixo para Lígia, que o ex-pernalta Zeca Baleiro chamou, rindo, de “genial incendiária, um perigo para a sociedade”.

Se não para a sociedade inteira, ao menos para a parte que estiver assistindo embaixo.

Claudia Antunes

Claudia Antunes é jornalista. Foi editora de piauí entre 2012 e 2015

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