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chegada

Nasce um clássico

Com o envolvente Só Entre Nós, em que rubati apolíneos se mesclam com accelerandi rodopiantes, Roberto Justus lança o CD do ano

Roberto Kaz | Edição 22, Julho 2008

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Roberto Justus não é apenas um rostinho bonito. O publicitário tem um temperamento inquieto, afeito a grandes empreitadas. Não teve medo do disse-que-disse da grã-finagem quatrocentona ao se casar quatro vezes. Não teve medo das câmeras ao se arriscar como apresentador televisivo. Não teve medo da intelligentsia paulista quando publicou uma autobiografia. Qual Cortez, sempre esteve aberto a mudanças, a aventuras, a descobertas, a conquistas.

Houve, no entanto, algo que se manteve teimosamente estático na intrépida cavalgada de Justus pelos desvãos do destino. Estivesse flanando pelos jardins de Versalhes, esquiando nas montanhas de Aspen ou observando mamutes nas savanas de Mala Mala, um detalhe contradizia a sua imagem dinâmica e cosmopolita. O mal-estar persistiu até a histórica edição de Caras, a de 23 de outubro de 2007, que marcou a formidável reviravolta: após mais de uma década, Roberto Justus mudava o corte de cabelo.

Os fios tenuemente grisalhos, agora penteados para trás e domados com fixador, antecipavam algo que dizia respeito aos recônditos mais secretos da alma do publicitário. No mês passado, o mistério foi desfeito: às vésperas do Dia dos Namorados, quando os dardos dulcíssimos de Cupido zunem em todas as direções, Justus lançou seu primeiro disco, Só Entre Nós, com a expressiva tiragem de 10 mil cópias. A gravadora Sony BMG, sabendo o valor da jóia rutilante que tem em mãos, firmou contrato para mais dois álbuns.

A carreira musical de Roberto Justus começara em despretensiosas festas de fim de ano de suas empresas. Não raro, ele subia ao palco para exibir seus dotes vocais aos subordinados, que, pasmos, se entreolhavam emudecidos e, observando o comportamento dos chefes, espoucavam num uníssono de aplausos e assobios. Em meados do ano passado, ampliou o público ao entoar a tépida voz de barítono na sua festa de casamento (o quarto). Diante do sucesso colossal, ainda que em petit comité, passou a ter aulas com Wilson Gava, professor da renomada cantora Sandy. Fiel ao preceito de que a boa arte não tem preço, bancou do próprio bolso um disco, que, infelizmente, só distribuiu entre algumas centenas de amigos íntimos.

Ardilosos executivos da Sony, no entanto, tiveram acesso ao opus e, de imediato, resolveram fazer a coruscante pepita chegar ao mercado, tão carente de música com M maiúsculo. Nos seus 53 anos de vida (embora o semblante másculo e jovial lhe desconte ao menos uma década), Roberto Justus acumulou os prêmios de Publicitário do Ano, Dirigente do Ano e Homem de Marketing do Ano. Agora, com meiga mélange de irrazão apolínea e rigor dionisíaco de Só Entre Nós, o Grammy é o limite.

Com o CD nas lojas, o novel cantante reservou a primazia da divulgação ao programa de Hebe Camargo, sua amiga de tempos imemoriais — para Justus, a amizade é uma chama sagrada que deve crepitar perpetuamente à luz de holofotes opalescentes. Ele atacou, com galhardo desassombro, a icônica Can’t Take My Eyes off of You, lançada nos anos 60 por Frankie Valli.

Diante da voz de uma oitava, com timbre aveludado, pátina de lenho do banhado e matizes ratazano-acinzentados (que, num lance de gênio, combinavam com o cabelo do artista), a buliçosa platéia, majoritariamente balzaquiana, soltou-se como uma ciranda de bacantes a verter ungüentos no cenáculo de Eros Longophallus e atingiu os píncaros do desvario. Depois de anunciar em alto e bom som que daria o disco de presente à amiga Consuelo Badra, ex-colunista social do Correio Braziliense, Hebe Camargo fulminou: “O que você fez agora uniu beleza, simpatia, essa voz deliciosa e bom gosto.” Theodor Wiesengrund Adorno não teria dito melhor.

Nem todos tiveram a finesse necessária para captar o delicado cromatismo dos falsetes de Justus. Em sua coluna em O Globo, Artur Xexéo usou e abusou do seu desconhecimento abissal da matéria para asseverar que “Roberto Justus, com orquestra, coro e tudo mais, talvez seja o pior cantor de toda a história do disco brasileiro”. Como assim? E Fagner? E Carlinhos Vergueiro? E Odair José?

À guisa de ironia, o jornalista Luiz Antonio Ryff anunciou no seu blog: “Por falar em sexta-feira 13, o publicitário Roberto Justus gravou um CD de músicas românticas. Em inglês.” Ao apontar para o repertório estelar, Ryff indagou: “Quem será que prefere escutar essas músicas na voz de Justus em vez de, só para citar alguns, ouvir as gravações de Louis Armstrong, Paul McCartney e Elvis Presley?” A resposta só pode ser uma: quem prefere Justus são justamente os melônimos fatigados do repetido ramerrão de Armstrong, McCartney e Presley.

 

Se tivessem reservado uma aconchegante noite de inverno, junto a uma lareira crepitante no castelo de Caras, saboreando fondue de requeijão e um Merlot São Roque — safra 2008 — em companhia de Luciana Gimenez, do vice-presidente José de Alencar, Regina Duarte, Ziraldo e da Mulher Melancia, os soi-disant críticos talvez conseguissem abarcar em plenitude a complexa mensagem do nosso, muito nosso, Julio Iglesias.

Certeiro como um raio desferido por Zeus, Justus atinge as semicolcheias onde elas merecem: na testa. À diferença de muitos intérpretes facilitadores, que tendem a exagerar o sentimentalismo rebarbativo, ele é econômico nos rubati, accelerandi, ralentandi e vibrati. Suas frases começam e terminam nos tempos justos (não é um acaso que ele tenha o sobrenome que tem), o que facilita a emoção adicional de quem deseja cantarolar junto. Transposta para o universo erudito, que Justus ombreia, a sua estratégia estética poderia ser comparada à do falecido maestro Arturo Toscanini, da Filarmônica de Nova York, que jamais fugiu às dinâmicas, propostas na partitura.

Justus não teme comparações. Nem imitações. Quando soam as primeiras notas de seu Unforgettable, tocadas ao piano, é inevitável rememorar a famosa versão de Nat King Cole e sua filha, Natalie — até porque o brasileiro repete a parceria em família, dividindo os vocais com sua irmã Cathy Justus (moça de talento promissor).

Quando canta I’ve Got You Under My Skin, a referência deliberada, tanto musical quanto imagética, é Frank Sinatra. Tal qual o cantor de olhos azuis (os de Justus também são fulgurantes e enigmáticos), o publicitário nada de braçada larga no estilo intimista e, nos metros finais, ultrapassa Sinatra por meio corpo. Justus — esse eterno menino peralta! — se dá ao fausto de fazer estrepolias com as palavras, estapeando-as para lá e para cá como se fossem vagabundas ou petecas. Quando entoa a palavra “move“, por exemplo, brejeiramente prolonga a letra “o”. É um achado.

Mas, dadas as armadilhas de repertório portentoso, ele sabe quando recuar. Ao arriscar-se em My Way, Justus cede os seis versos mais agudos à voz firme de Francis Bringell, cantor romântico que nos anos 80 fez duo com Fausto Silva, o Faustão. Poderia ter providenciado o acompanhamento dos Canarinhos de Petrópolis, mas escolheu a senda mais inóspita, mais defloradora.

Foi uma decisão sábia, típica de chansonniers maduros. Com isso, sobe ao pódio e colhe as láureas argênteas às quais faz jus — e que combinam tão bem com seu novo penteado. Mas não nos enganemos: nos interstícios de seus trinados, é possível entrever a infância difícil (a inveja dos amiguinhos por ser dono da bola e do campo), a mocidade de doutos estudos (das obras completas de Lya Luft, lidas da primeira à sexta página), a laboriosa porfia na maturidade (para deitar Adriane Galisteu sobre lençóis Santista) e as eternas indagações estéticas que lhe rondam a augusta fronte (“A manicure já chegou?”). É por isso que Só Entre Nós já nasce clássico.