esquina

Natal 40 graus

Uma formatura de bons velhinhos

Julia Sena
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2019

Eram nove da manhã de 5 de novembro, terça-feira, quando o primeiro Papai Noel chegou ao Trem do Corcovado, um dos acessos à estátua do Cristo Redentor, no Rio de Janeiro. Logo depois, começaram a aparecer outros senhores de roupas vermelhas, cabelos e barbas longas e grisalhas, que foram se reunindo na entrada do ponto turístico. Os galhos estáticos das árvores ao redor indicavam que as próximas horas seriam muito quentes. Mas os bons velhinhos pareciam nem notar as ameaças do calor, ansiosos que estavam para a formatura da 26ª turma da Escola de Papai Noel do Brasil.

Perto do horário do início da cerimônia, marcado para as dez da manhã, os trinta formandos resolveram se juntar para fazer uma foto. Turistas e transeuntes imediatamente sacaram seus celulares e registraram a cena. Uma mulher se aproximou do único Papai Noel negro ali presente e pediu para fotografá-lo com a filha. “Olha que legal”, disse ela à menina. “Você viu o Papai Noel antes de todas as crianças.”

Aos 66 anos, Aylton Lafayette – ou Papai Noel Obama, como ele gosta de ser chamado, por causa de sua admiração pelo ex-presidente americano – é um dos dezenove negros formados pela escola, desde sua criação, e o primeiro a trabalhar em shopping centers do Rio de Janeiro. Ele contou que, quando as crianças o questionam por ser um Papai Noel diferente do tipo tradicional, solta esta resposta bem-humorada: “É que eu desço por muitas chaminés.”

Entre os Papais Noéis, destacava-se, por sua roupagem pouco ortodoxa, o advogado Paulo Mourão, de 69 anos. Para enfrentar o calor de dezembro, há três anos ele se fantasia de Papai Noel surfista, com bermuda branca, blusa florida vermelha, gorro natalino e prancha de surfe. “Para a festa de hoje, podíamos escolher outras roupas. Com o calor que faz no Rio, eu não pensei duas vezes e escolhi essa”, afirmou.

O uruguaio Hugo Diaz, que tem 63 anos e está no Brasil há dezoito, chama de “noelismo” o seu trabalho no Natal. Ele decidiu se tornar Papai Noel depois que foi parar na UTI, prestes a enfartar. “Pensei em todas as coisas que ainda queria fazer, e a primeira que veio à minha cabeça foi ser Papai Noel”, recordou. Fechou, então, a loja automotiva que tinha em Vitória, no Espírito Santo, e em outubro deste ano se mudou para o Rio, depois de saber que tinha sido aceito no curso. “O noelismo me deu a oportunidade de colocar para fora tudo o que estava comprimido em mim”, confidenciou.

 

Em 1993, os atores Limachem Cherem e Conrado Freitas decidiram criar um curso de Papai Noel em Vila Isabel, Zona Norte da cidade. A primeira turma teve apenas dois alunos, mas o negócio foi prosperando, pouco a pouco. Quando a parceria se desfez nove anos depois, Cherem assumiu a direção. Hoje, a Escola de Papai Noel do Brasil chega a receber duzentas inscrições por ano – apenas trinta pessoas são selecionadas para o curso gratuito que acontece em outubro, com aulas de figurino, interpretação, dicção, postura e improvisação. Para participar é preciso ter mais de 50 anos, barba grisalha natural e cabelos grisalhos, gostar de crianças e “não ter vícios”, como o fumo ou o álcool.

A escola funciona também como agência de contratação de bons velhinhos para eventos natalinos. Além de atender empresas e shopping centers da cidade, oferece apresentação em domicílio – o preço na noite de Natal pode custar até 1 500 reais por quarenta minutos. Já prestou serviços inclusive para algumas personalidades famosas, como o senador Romário, o ex-prefeito do Rio Eduardo Paes e o apresentador Luciano Huck, que no Natal de 2018 fretou um helicóptero para que um Papai Noel da escola desembarcasse a tempo em seu barco em Angra dos Reis.

Toda a família de Cherem está envolvida no negócio. A mulher dele, Fátima, trabalha como figurinista, enquanto as filhas Slanny e Sluchem atuam como assistente de Papais Noéis e produtora cultural, respectivamente. Fora do período natalino, Cherem, com sua outra empresa, a Tapume Produções, organiza shows e eventos.

O curso já formou 750 Papais Noéis de várias partes do país e cerca de 300 Noeletes – a versão feminina. “Às vezes encontro ex-alunos nas regiões Norte e Nordeste e eles me dizem que estão trabalhando nos shoppings de lá”, afirmou Cherem, um homem de barba grisalha que também encarna o Papai Noel. Ele contou que, nos últimos anos, o negócio foi bastante afetado pela situação econômica do país. “Empresas grandes não têm contratado tanto na época do Natal, devido à crise.” Além disso, percebeu uma mudança radical no gosto das crianças. “Há uma década, elas pediam bola, boneca e brinquedos mais simples. Hoje, querem produtos tecnológicos, como tablets e smartphones.”

 

A cerimônia de formatura começou na hora marcada. Cinquenta Papais Noéis, novos e antigos alunos, formaram uma meia-lua perto da bilheteria do trem e cantaram músicas natalinas. Em seguida, Cherem chamou os formandos, um por um, para entregar os certificados, e avisou que o evento prosseguiria no Corcovado, a 710 metros de altura. A cantoria dos Papais Noéis continuou na viagem de trenzinho, que dura cerca de vinte minutos.

Lá no alto, formandos e convidados seguiram para a pequena capela onde o padre Omar Raposo, reitor do Santuário Cristo Redentor, daria a bênção. Alguns, porém, não resistiram ao calor na capela lotada e foram para fora, em busca de uma sombra fresca. “Este é um momento histórico no alto do Corcovado”, disse o padre durante a celebração. “Já recebemos o Obama nesse cenário, só faltava o Papai Noel.” Conhecido no Rio como “padre pop”, Raposo é também cantor e gravou um DVD chamado Samba de Fé, que teve a participação de Jorge Aragão e Xande de Pilares, entre outros artistas.

Terminada a bênção, o padre conduziu as pessoas até a estátua do Cristo Redentor. Uma súbita ventania amenizou por um instante o calor enquanto todos caminhavam ao som dos sinos. Mas era quase meio-dia, e o termômetro marcava 41ºC – aquele foi o dia mais quente do ano no Rio até a penúltima semana de novembro. Aos pés da estátua e cercados de turistas, os Papais Noéis encheram o peito e soltaram a voz na canção Noite Feliz, que encerrou a cerimônia, enquanto o sol faiscava forte.

Julia Sena

Colaboradora da piauí. Antes, trabalhou no FOX Sports Brasil

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