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Ne estas malmulte!

Se não a paz, ao menos o amor

Fábio Fujita | Edição 50, Novembro 2010

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Na pré-adolescência, o paranaense Roger Gotardi se considerava “um chauvinista”. O destino de mártir tupiniquim lhe soava quase doce. Se adiantasse alguma coisa oferecer o próprio corpo em holocausto para transformar o país em potência – e, consequentemente, a língua portuguesa em idioma dominante entre os homens –, que assim fosse. Tudo para mandar para as calendas o estudo do inglês, aquela arbitrariedade do currículo escolar brasileiro. Por que diabos forçar os jovens a entender a língua dos gringos? Ainda mais ele, que nunca sonhara em ir à Disney apertar a mão do Pateta.

Ah, o sistema… “Era uma forma de dominação cultural”, resmunga até hoje, com 27 anos e a exaltação de um Policarpo Quaresma. Enquanto não crescia nem se tornava estadista ou revolucionário, o jeito foi decorar o maldito verbo to be e engolir que thought, sabe-se lá por que desígnios lógicos,era a versão pretérita de think. O tempo foi correndo e não fez murcharem as inquietações, que apenas se metamorfosearam. Gotardi passou a fantasiar um mundo em que todas as nações se comunicavam numa mesma língua, sobre a qual nenhuma delas detinha maior ou menor direito. Todo mundo irmanado numa língua franca…

Ele não era o primeiro a pensar nisso. Um dia, aos 19 anos, descobriu que, pouco mais de um século antes, o polonês Ludwik Lejzer Zamenhof se imbuíra exatamente daquele belo propósito ao inventar uma língua novinha: o esperanto. Foi um deslumbramento para Gotardi. Varrendo a internet em busca de textos e rádios esperantistas, absorveu tudo o que lhe passou pelos olhos e ouvidos. Dali a pouco, com grande satisfação, desconfiou que se tornara um genuíno falante do esperanto.

Certeza mesmo não dava para ter, pela boa razão de que não tivera oportunidade de se testar. Ainda não encontrara um interlocutor que pudesse comprovar as suspeitas. “Demorei uns seis meses para achar o grupo”, lembra Gotardi, referindo-se à Bejo, a Brazila Esperantista Junulara Organizo ou Organização da Juventude Esperantista Brasileira, ala jovem da Liga Brasileira de Esperanto.

Desde julho, Gotardi é o presidente da entidade, que possui cerca de 100 associados. Atualmente, a principal batalha da Bejo – pronuncia-se “bêio” – consiste em desfazer o mito de que o esperanto é uma língua morta. (uma alma vendida aos interesses norte-americanos poderia redarguir, com desagradável ironia, que para estar morta uma língua precisaria antes ter vivido…) “Já conheci gente de lugares de que eu nunca tinha ouvido falar e conversei como se fosse na minha língua nativa”, diz Gotardi, referindo-se aos congressos anuais promovidos pela entidade que preside e pela Tutmonda Esperantista Junulara Organizo, ou Tejo, a versão global da Bejo.

A Brazila não recorre a argumentos antiamericanos para defender o esperanto. Apenas considera que, como o inglês será sempre mais bem falado pelos que o tiverem como língua materna, qualquer um que se sente do outro lado na mesa de negociações estará automaticamente numa posição enfraquecida. É injusto. Já o esperanto, dotado de funcionalidade cartesiana – seu sistema gramatical possui apenas dezesseis regras e dispensa verbos irregulares – faria do mais tímido dos seres um igual de Cícero ou Rui Barbosa.

 

Os esperantistas acreditam que o babelismo idiomático é responsável por grande parte dos conflitos da história. Quem não se comunica se trumbica, resumiu o sábio, tanto assim que um projeto de lei do senador Cristovam Buarque (PDT-DF) incluiu o esperanto entre as disciplinas facultativas do ensino médio, “pelo espírito de pacifismo” que o idioma simboliza.

Além do quê, o inglês, atual expressão do império, também passará. Igualzinho ao latim, a língua global pelos séculos e séculos que durou o domínio de Roma. “Caiu o império, caiu o latim, que hoje é uma língua quase morta”, comenta Gotardi. Ele não está nem aí para o fato de o moribundo latim ter ao menos uma existência memorável para contar. Sem disfarçar o sarcasmo, especula que dentro de vinte ou trinta anos seremos todos forçados a aprender mandarim.

Não, é claro, no que depender dele. Há quem estime em 10 milhões o número de esperantistas pelo mundo. Gotardi acredita que não passem de 2 milhões. Num universo de 7 bilhões de humanos, trata-se, portanto, da proverbial agulha no palheiro. Por isso é que Gotardi só fala esperanto com sua meia-irmãzinha de seis meses. É preciso educar desde o berço.

De outra parte, como se sabe, nada melhor para forjar laços inquebrantáveis do que pertencer a uma minoria aguerrida. Membros da Tejo dispõem de um serviço de intercâmbio que lhes garante hospedagem em qualquer canto do planeta onde porventura se ache um esperantista. Gotardi já acolheu franceses, ingleses e americanos em casa e foi acolhido por um peruano em Lima. Deitaram e rolaram no esperanto.

 

Eles não podem se dar ao luxo de perder a ocasião, e por isso, nenhum esperantista que se preze sai por aí sem a sua estrelinha verde de cinco pontas, símbolo do idioma. Estampadas no botton ou na camisa, quando duas delas têm a sorte de se encontrar, entregam-se invariavelmente a uma louca verborragia. É um prazer que não está ao alcance de Gotardi na pequena Salto do Lontra, a cidade de 13 mil habitantes onde ele vive e exerce a advocacia, no interior do Paraná. Seu único interlocutor nas redondezas, infelizmente, por enquanto não passou do gugu-dadá.

O que não significa que a sorte – e, com ela, toda a vida – não possa mudar de uma hora para outra. Foi o que aconteceu com um amigo de Gotardi. Ao participar de um congresso internacional de esperantistas na Itália, o moço topou com uma polonesa que lhe inspirou todos os suspiros passíveis de serem derramados em esperanto. Hoje são marido e mulher. Fossem contar com o polonês dele ou com o português dela, teriam ficado no zero a zero.

Se a invenção do esperanto, ao contrário do que previu Zamenhof, ainda não resultou num mundo de paz e harmonia, ao menos já se provou que as flechas de Cupido sabem ferir também na língua universal. Não é pouco, ou melhor: Ne estas malmulte.