esquina

Nem só de bode vive o Cariri

Estrelas brilham na Roliúde Nordestina

Renato Terra
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

Mesmo com o sol a pino queimando os mortais como um implacável maçarico cenográfico, o pedreiro José Alceu era um dos poucos viventes que conseguia caminhar serenamente pelo centro de Cabaceiras, na Paraíba. Apenas os cactos, mandacarus e o som de suas sandálias no chão de terra batida o distraíam. Ao virar a esquina, que vai dar na praça principal, foi abordado pela presteza sedutora de uma produtora de elenco. “O senhor quer fazer parte do filme ?” Parecia uma miragem. José coçou os olhos e pensou ter perdido de vez o juízo. Não esperava que a fama lhe sorrisse de maneira tão faceira.

Tomado de uma generosidade incomum aos famosos, José Alceu relembra com detalhes que sua fisionomia agradou em cheio: “Acho que queriam gente com pele mais escura, com cara sofrida. Me levaram para dentro daquela casa ali e tiraram uma foto minha. O Guel Arra esguardou a foto. Eu mesmo peguei algumas, mas hoje não tenho quase nenhuma. Toda vez que vem alguém da família me visitar, um primo, uma prima, eles levam uma cópia.”

E então, às cinco da manhã, lá estava o neófito, vestido de cangaceiro dos pés à cabeça, aguardando o comando para correr em direção à igreja. Ficou em serviço até as quatro da tarde. Às vezes, ia procurar um terno surrado com a figurinista, quando davam o comando: “Bota roupa de povo!” Ajudado pelo fato de que, na cidade, suar a camisa jamais é mera força de expressão, José Alceu teve um insight sobre o estrelato: “A gente pensa que não, mas vida de ator é dureza. Ficar com aquela roupa de cangaceiro debaixo do sol do Cariri não é mole.”

Cabaceiras, município paraibano de 5 mil habitantes situado a 180 quilômetros de João Pessoa, recebe os forasteiros com um letreiro gigante no alto de um morro: ROLIÚDE NORDESTINA. Wills Leal, autor da ideia de parodiar a matriz americana, chama a atenção para uma peculiaridade do nome: “Veja que tem acento na letra u…” Parece que a ideia pegou. O letreiro já dura três anos, e a cidade se orgulha de lembrar, a cada esquina, que serviu de locação não só para (1999/2000, minissérie e filme dirigidos por Guel Arraes), mas também para Cinema, Aspirinas e Urubus (2005, de Marcelo Gomes) e Canta Maria (2006, de Francisco Ramalho Jr.), entre mais de trinta longas, médias e curtas-metragens.



De cambulhada com o cinema, é natural que se tenha criado uma inédita rede de intrigas. Assim é que, na praça, ao passar por um estabelecimento especializado em artigos paraibanos, José Alceu faz uma denúncia: “As paredes da loja do Zé da Cila estão cheias de fotos com artistas. Ele ganha dinheiro contando coisas que não fez. Tem até um diploma de ator numa moldura, mas é tudo mentira.”

José Nunes deAraújo Neto – que prefere o apelido Zé da Cila, como é “conhecido no Brasil e no exterior” – diz que chegou a receber propostas da TV Record para ir para São Paulo, mas aos 65 anos, “já conhecendo o mundo lá fora”, não seria o caso. Mostrando um caderno onde cola todas as reportagens em que é citado, ele se defende: “O povo tem ciúme porque eu cooperei muito com .” Para inveja geral, ele aparece numa foto não como figurante, mas segurando um pequeno avião no papel que lhe coube em O Mundo Encantado do Poderoso Bode, ópera popular com libreto de Wills Leal, montada em 2010 com mais de 100 participantes locais.

Essa ópera, aliás, reforçou outro ponto forte da cidade. Quando se entra em Cabaceiras, notam-se casas coloridas com pintura nova, uma igreja, uma praça e um bocado de referências a um dos quadrúpedes mais estimados no Nordeste, o bode. Um monumento retrata três exemplares em tamanho real, encarapitados sobre uma rocha. O restaurante mais popular da cidade se chama Berro de Bode. Em junho ocorre o grande evento do calendário local – a Festa do Bode Rei –, ocasião em que se praticam o pega-bode, o futebode (modalidade em que o animal atua na função de bola) e a Fórmula Bode.

Poderoso Bode também confirma Wills Leal como um ponta de lança da cultura autóctone. Foi ele o idealizador do Memorial Cinematográfico de Cabaceiras, fundado em 5 de maio de 2007 e instalado perto da igreja. Ali se tem acesso a inúmeros recortes de jornais com reportagens que destacam Cabaceiras. As paredes estão tomadas por cartazes de filmes e fotografias de atores que passaram pela cidade. Há, por exemplo, uma foto de Zé da Cila vestido de padre, pronto para atuar como dublê de Rogério Cardoso em .

Num longo artigo distribuído como jornalzinho, Wills afirma que “a principal característica do Projeto Roliúde Nordestina é ser uma tentativa bem planejada, visando encontrar, com a utilização de uma estrutura formal e recursos bem criativos, soluções para que a cidade de Cabaceiras se torne, de fato, um polo de produções audiovisuais”. Adiante, lê-se que “o modelo a ser perseguidoé o enfoque antirroliudiano, isto é, de negação aos seus postulados ideológicos, ao estrelismo”. Para quem estranha esse alinhamento anti-Hollywood, o autor evoca a tradição das chanchadas de satirizar os clássicos americanos e explicita: “Não se busca fazer cinema que seja ‘só comércio’. Pretende-se produzir obras que reflitam o Nordeste em suas mais diversificadas faces, mas com corretas práticas de total sustentabilidade.” Zé da Cila ainda não fala a língua da sustentabilidade.

Sob uma tenda branca no morro, em frente ao grande letreiro, Wills explica de forma mais direta os atrativos da sua Roliúde para o cinema do país: “É uma cidade que ficou fora do eixo de turismo e, portanto, está conservada, sem falar que os moradores já se habituaram e adoram trabalhar como figurantes.” A principal vantagem diz respeito ao controle do orçamento: “O sol forte mora aqui. Pode filmar o ano inteiro porque ele não baixa e não tem vento. Programou sete dias de filmagem, filma em sete dias.” Argumento definitivo. Para efeitos de planejamento cinematográfico, Cabaceiras garante um lugar ao sol.

Renato Terra

Renato Terra foi repórter de piauí e era ghost-writer do Diário da Dilma e responsável pelo piauí Herald até 2016

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