chegada

No esporte como na política

Ex-candidato à presidência do México espanta Berlim

Consuelo Dieguez
O excesso de roupa e a falta de suor evidenciaram que o fagueiro Madrazo havia tomado um atalho que “apagou” 15 quilômetros da maratona
O excesso de roupa e a falta de suor evidenciaram que o fagueiro Madrazo havia tomado um atalho que “apagou” 15 quilômetros da maratona FOTO: VICTOR SAILER_PHOTO RUN

Até bem pouco tempo atrás, o político mexicano Roberto Madrazo era praticamente desconhecido fora das fronteiras de seu país. Na corrida presidencial do ano passado, Madrazo, candidato do Partido Revolucionário Institucional – o quase-eterno PRI, que ocupou o governo do México por setenta anos -, sofreu uma derrota humilhante: chegou em terceiro lugar, com apenas 20% dos votos. Este ano, porém, ganhou fama internacional, graças à outra corrida: a grande maratona de Berlim, disputada em 30 de setembro, um domingo. Foi um feito de dar inveja. Jornais, revistas, TVs e páginas de internet de todo o mundo exibiram, durante mais de uma semana, a imagem fresca, lépida, sorridente e fagueira do político bigodudo cruzando a linha de chegada. De braços abertos, como quem abraça o mundo, Madrazo comemorava, eufórico, a conquista do primeiro lugar na categoria homens de 55 a 59 anos. Melhor ainda: Madrazo acabava de bater o recorde mundial da categoria, com duas horas, 41 minutos e 12 segundos.

Ainda que sensacional, o que lhe garantiu tamanha notoriedade não foi bem a vitória. Tudo corria (literalmente) bem até o dia seguinte da maratona, quando alguns chatos da organização, alertados por um fotógrafo acostumado a cobrir maratonas, decidiram olhar com mais atenção a imagem do político mais veloz do México. Havia algo de estranho no comportamento do corredor de número 33.751. Evidência número 1: Madrazo cruzara a linha de chegada quase saltitante, enquanto os outros competidores, alguns na faixa dos 20 anos, praticamente se arrastavam pelo chão. Evidência número 2: enquanto todos os maratonistas se desmanchavam em suor, apesar de suas leves camisetas e dos shorts de malha, Madrazo, ataviado com uma calça de moletom preta e um grosso casaco vermelho, parecia recém-saído do banho. Evidência incontornável: seu rosto seco, sem um pinguinho sequer de suor.

Não se sabe se foi a ausência de suor, a roupa pesada ou a garbosa lepidez, mas os organizadores logo viram que o homem merecia investigação. Ao analisar os registros dos chips que os maratonistas carregam no tênis, descobriram um buraco negro entre os quilômetros 20 e 35 do percurso. De duas, uma: Madrazo se desmaterializara naquele trecho ou surrupiara 15 quilômetros da corrida. Os registros só voltavam a assinalar sua existência a 7 quilômetros da linha de chegada. A hipótese de um problema no chip foi descartada. Para completar a corrida naquele tempo espantoso, o vetusto mexicano precisaria ter corrido os tais 15 quilômetros em apenas 21 minutos. Isto é: teria estabelecido a inumana média de 42,8 quilômetros por hora, velocidade duas vezes maior do que a do recordista mundial da maratona, o etíope Haile Gebrselassie, de 34 anos.

Era inquestionável, ele havia tomado um atalho. Uma semana depois, no dia 8 de outubro, saiu o veredicto do comitê de inquérito: Madrazo foi desclassificado, perdeu o título e teve de devolver a medalha.

A descoberta do embuste sacudiu o Congresso mexicano. Javier González, líder do PRD, o partido de oposição ao PRI, foi categórico: “Isso para mim é um caso de doença”. Nem mesmo o líder do PRI na Câmara dos Deputados, Emilio Gamboa, tentou justificar o correligionário. Fúnebre, fez questão de frisar: “É preciso que fique claro que Madrazo correu em seu próprio nome, e não do partido”. Aproveitou o embalo e descascou o político maratonista. “É uma vergonha. Um erro que não serve a ninguém. Nem a ele, nem à família, nem à sua carreira política.” (Poderia ter acrescentado: também não ajudou a carreira esportiva.) A imprensa nacional reagiu com estardalhaço. No seu programa de TV, o jornalista José Ramón Fernández acusou Madrazo de criar embaraços para todos os mexicanos. “Não estranhem se, da próxima vez em que forem a Berlim, os alemães chamarem vocês de trapaceiros”, desabafou, irritadíssimo. “Ele agora deve estar escondido embaixo dos lençóis, na sua casa em Miami, descansando os ossos depois desse triunfo”, grunhiu, pingando sarcasmo. “É um sem-vergonha. Foi uma fraude descarada.”

Não é a primeira vez que denunciam Madrazo por fraude. Sua carreira política é marcada por episódios nebulosos. Em 1994, foi acusado de manipular o resultado da eleição para governador do estado de Tabasco, da qual saiu vencedor. Na época, seus adversários revelaram que 25% das urnas tinham sido violadas. E mais: Madrazo teria gastado 70 milhões de dólares na sua campanha, muito acima do permitido pela legislação eleitoral do país. O escândalo foi tão grande que o então presidente do México, Ernesto Zedillo, pediu que ele renunciasse. Madrazo se comprometeu a deixar o cargo, mas dias depois voltou atrás. Em 2002, chegou à presidência do PRI depois de uma conturbada eleição em que também houve suspeita de trapaça. A má reputação atinge também suas finanças. A imprensa o acusa de enriquecimento ilícito. Além de recordes mundiais apócrifos, Madrazo acumula casas e apartamentos que somam mais de 100 milhões de dólares.

O engodo de Berlim não espantou os mexicanos. “Quem rouba no México rouba nos Estados Unidos, na Alemanha e em qualquer lugar do mundo”, disse um cidadão exaltado ao ser entrevistado por uma rede de TV. “Ele agora vai exigir a recontagem da corrida, quilômetro por quilômetro”, ironizou outro entrevistado, em alusão ao pedido de recontagem de votos feito por Madrazo após a derrota para a presidência do país, no ano passado.

Revelada a trapaça, Madrazo esperou dois dias para se manifestar. Em carta dirigida exclusivamente à “Comunidade Esportiva Mexicana” – “por ter a certeza de que os milhões de esportistas do país me compreenderão melhor do que ninguém” -, fez sua defesa. Disse que o estardalhaço em torno do assunto era sinal de que queriam desmoralizá-lo. Assegurou que fora à maratona de Berlim já consciente de que não faria todo o percurso, pois havia se excedido ao participar de outras maratonas (ele é um maratonista contumaz). Os médicos o haviam desaconselhado a correr, mas ele insistiu. “Resultado”, conclui na carta, “tive de parar no quilômetro 21 e fui direto para a linha de chegada buscar minha medalha de participação, que se entrega a todos os corredores.” Distraído, acabou por aceitar os louros de campeão.

Consuelo Dieguez

Repórter da piauí desde 2007, é autora da coletânea de perfis Bilhões e Lágrimas, da Companhia das Letras

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