esquina

No fear

O estilo indômito do enxadrista brasileiro Alexandr Fier

Gustavo Zeitel
CREDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2021

Em 2006, o enxadrista catarinense Alexandr Fier, então com 18 anos, disputou contra o peruano Emilio Córdova a partida mais importante de sua carreira. Era o antepenúltimo jogo de um torneio da Federação Paulista de Xadrez, e o brasileiro encontrava dificuldades para atacar. Córdova havia aplicado a abertura Trompowsky, colocando em risco o cavalo do rival. Dezenas de pessoas apinhavam-se em volta da sala à prova de som no clube em São Paulo, observando os jogadores através do vidro.

Após três horas e meia de partida, Fier sacrificou um bispo e, com a vantagem de possuir ainda alguns peões, engoliu as estratégias do oponente. Com a vitória, obteve 2 528 pontos no rating mundial e se tornou, no ano seguinte, o segundo brasileiro mais jovem a ser um grande mestre (GM), o maior título concedido pela Federação Internacional de Xadrez (Fide). O primeiro foi o maranhense Rafael Leitão, que obteve a distinção em 1998, quando também tinha 18 anos. Atualmente, o Brasil conta com catorze grão-mestres – categoria que exige do jogador a obtenção de, no mínimo, 2 500 pontos no rating. Em 2021, Fier chegou à marca dos 2 576 pontos.

O enxadrista, hoje com 33 anos, mora desde 2013 em Tbilisi, a capital da Geórgia, com a mulher, a grande mestra (wGM) franco-georgiana Nino Maisuradze, de 38 anos, e o filho, Viktor, de 7 anos. Não foi amor à primeira vista que uniu os dois. Fier e Maisuradze se enfrentaram em dezenas de competições. Aos poucos, a rivalidade foi se transformando em flerte, e em 2010 eles começaram a namorar. Resolveram viver em Tbilisi, onde nasceu Maisuradze e vive a família dela. Dali, podem se deslocar com mais facilidade para os campeonatos internacionais em diferentes países. Fier conta que vive dos prêmios – num torneio europeu pode ganhar até 1,5 mil euros – e da realização de palestras.

Em casa, ele treina, claro, com Maisuradze. “Eu quase sempre ganho”, garante. O casal pratica quatro horas por dia, em média. No resto do tempo, Fier lê livros sobre xadrez, inclusive para refutar as estratégias descritas nas obras. Também estuda as jogadas do adversário em uma base de dados que contém mais de 8 milhões de partidas. Para ele, criar novas técnicas é um objetivo essencial, porque cada vez mais os jogadores têm acesso pela internet às manobras mais comuns dos rivais.

O estilo de jogo do enxadrista brasileiro ganhou um nome entre seus fãs: No Fier – em referência à expressão inglesa no fear (sem medo). O trocadilho é uma tentativa de sintetizar o seu jeito indômito de jogar, que para alguns parece caótico, como já o qualificaram.

Fier costuma fazer longas caminhadas na sala de jogo após mover uma peça – o que às vezes exaspera o rival. “Acho que é uma coisa natural andar. Muitas pessoas pensam andando”, justifica o enxadrista. “Eu me sinto confortável fora da minha zona de conforto. Jogo mais rapidamente do que os meus adversários e tento deixá-los sem tempo.” Sua principal influência foi o enxadrista soviético Mikhail Tal, conhecido pelo estilo agressivo. Maisuradze é a antítese do marido: conservadora e cautelosa, a bicampeã francesa prefere agir com muita calma diante do tabuleiro.

Em Tbilisi, não faltam parceiros para eles treinarem. “Na Geórgia mais da metade da população sabe jogar xadrez”, diz Fier. O país tem longa tradição no jogo, que foi muito incentivado pelos governos soviéticos – durante a Guerra Fria a URSS produziu os melhores enxadristas do mundo. No Brasil, a situação é bem diferente, mas Fier, otimista, acha que o interesse pelo xadrez tem crescido no país. Uma prova disso é o sucesso que a série O Gambito da Rainha obteve aqui. “Muita gente do meu colégio, que eu não via há muito tempo, me procurou para dizer que tinha assistido. Gostei da série. Ela deu certo porque teve consultoria do Garry Kasparov”, diz. Nascido no Azerbaijão, Kasparov é considerado o maior enxadrista de todos os tempos.

 

Alexandr Hilário Takeda Sakai dos Santos Fier é filho de uma professora de matemática e de um analista de sistemas. Aos 3 anos, já mostrava interesse pelo xadrez, que seus pais jogavam regularmente. Em 1995, aos 7 anos, disputou o primeiro torneio oficial, o Campeonato Paranaense sub-10. Sagrou-se campeão invicto. Na volta para casa, dormiu no carro dos pais com o troféu no colo. Três anos depois, tornou-se vice-campeão mundial sub-10.

Na adolescência, enquanto os amigos decidiam suas profissões, Fier só tinha uma coisa em mente: ser enxadrista. Em junho de 2004, obteve seis vitórias consecutivas no VI Magistral Comunic, realizado em São Paulo, e pavimentou o caminho para se tornar mestre internacional (MI) – passo decisivo para obter o título de grão-mestre e o que faltava para ele ter mais segurança sobre a carreira que sonhava. Em 2009, ganhou o famoso torneio aberto de Sants, na Espanha, e se tornou o enxadrista número 1 do Brasil e da América do Sul.

Em média, Fier disputa por ano mais de vinte torneios oficiais. Atualmente, é o segundo colocado no ranking brasileiro – atrás apenas de Rafael Leitão, hoje com 41 anos – e o 429º no ranking mundial. Em dezembro passado, apesar da pandemia, disputou dois torneios na Espanha: ficou em quarto lugar no Sunway, em Barcelona, e em segundo no Torneo Cerrado Internacional, nas Ilhas Canárias.

Fier voltou ao topo do pódio em janeiro, após conquistar o Floripa Open (e o prêmio de 4 mil reais), em Santa Catarina. Nos torneios recentes, por causa dos protocolos sanitários contra a Covid-19 adotados nas competições, o grande mestre sentiu uma dificuldade inédita: jogar sem poder caminhar pela sala. “Tenho que ficar sentado o tempo todo. Não posso andar para pensar”, reclamou.



Gustavo Zeitel

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