esquina

No meio do caminho

Os calceteiros de Lisboa

Jenny Barchfield
Andrés Sandoval_2018

O inverno recente foi um dos mais chuvosos dos últimos anos em Lisboa. Quando, naquela manhã de final de março, finalmente surgiu o sol, havia muito reparo a ser feito pela Brigada dos Calceteiros da Câmara Municipal da capital portuguesa. Oficialmente, a jornada começa às oito da manhã. Às sete, porém, os cinco funcionários daquele turno já estavam na sede, um depósito no extremo leste da cidade. É lá que, depois do café num dos contêineres que servem de QG, eles recebem as tarefas do dia: uma pilha de papéis com a foto e a localização das falhas que cobrem grande parte das calçadas da capital.

Se bem colados e conservados, os mosaicos de calcário podem durar décadas ou mesmo séculos. Mas basta um carro mal estacionado, uma chuva torrencial ou o salto fino de um escarpim para desencadear um desmoronamento de efeito dominó: uma pedrinha salta, outra descola por tabela, e mais outra, e em pouco tempo está feito o estrago.

Paulo Almeida, o chefe da brigada, entregou para António Cunha, o responsável da equipe diurna, um considerável maço de folhas. Os cinco funcionários então carregaram o caminhão com o material de serviço: dois regadores de plástico azul, areia, cimento e cubinhos de pedra branca e preta. Às oito já estavam a caminho da primeira das doze intervenções do dia.

Primeira parada: a elegante avenida Fontes Pereira de Melo. Silenciosos, os homens entram em ação, dando início a uma série de movimentos que décadas de trabalho em equipe sincronizaram numa coreografia sem tropeço. Armado de uma picareta, Cunha ataca o buraco, soltando a areia do fundo. Com uma pancada certeira de martelo, Carlos da Conceição e Zé Augusto Batista quebram os cubinhos de calcário e os dispõem de modo a seguir o desenho original. Quando todas as pedras substitutas estão alinhadas, Vítor Caetano semeia os rejuntes com areia temperada de cimento. Por fim, para fixar o mosaico Marcelo Rodrigues bate com delicadeza um grande pilão de madeira sobre as novas pedras. Um pouco de água arremata a operação e a equipe segue para o próximo conserto. A intervenção demorou cerca de dez minutos.

Com exceção de Rodrigues, um jovem de 22 anos que trabalha na brigada há oito meses, os calceteiros têm entre vinte e quarenta anos de ofício e estão próximos da aposentadoria. Há poucas décadas, esses profissionais se contavam às centenas. Hoje, a Câmara Municipal não divulga o número oficial, mas sabe-se que são menos de vinte, quase todos com mais de 55 anos de idade.

“Não entrou o chamado sangue novo,” disse Almeida, o chefe, um homem sorridente de 50 anos, de cabelos brancos e olhos azul-celeste. “É um trabalho duro. É frio no inverno e muito calor no verão. As mãos ficam machucadas e com a idade vêm as dores nas costas e nos joelhos. Além disso, o salário é bem baixo”, completou – os iniciantes recebem 580 euros, ou quase 2 500 reais. “Agora é difícil um jovem escolher este ofício.”

Os primeiros registros da calçada portuguesa datam do final do século XV, quando o rei dom Manuel I mandou calcetar a rua Nova dos Ferros. Mas o calcetamento como hoje o conhecemos é bem mais recente: foi criado pelo engenheiro militar Eusébio Furtado em 1842, quando aproveitou a mão de obra de presidiários para calçar o Castelo São Jorge. A notícia dessa calçada enfeitada se espalhou e logo atraiu a atenção. O estilo virou moda, se disseminou por Lisboa e outras cidades portuguesas, viajando às colônias de ultramar. Diz-se que ela existe em qualquer lugar por onde tenha andado um português.

“Mas a origem mesmo da calçada é mais divertida,” disse Paulo Almeida, com um brilho moleque nos olhos. “Conhece a história do rinoceronte?”

Pois bem: não se sabe se verdadeira ou lendária, a razão pela qual dom Manuel I teria mandado que se pavimentasse uma via atendia pelo nome de Ganga: um rinoceronte branco que o rei havia ganhado do governador de Goa e que faria parte de um cortejo para celebrar o aniversário de Sua Majestade. Ganga sairia enfeitado de cabo a rabo com penas e sedas luxuosas. Os livros atribuem o cuidado de calcetar o caminho para evitar que o animal, pisando na lama, se sujasse e emporcalhasse as autoridades.

A versão de Almeida difere um pouco: e se o animal tivesse que se aliviar em pleno desfile? Como tal ato seria incompatível com a solenidade da ocasião, os organizadores sugeriram uma solução: pavimentar a rota do desfile com pedrinhas brancas e pretas para disfarçar qualquer indiscrição digestiva da parte do animal.

Quando os homens da Brigada estavam pelo sexto buraco da manhã, um casal se posicionou a alguns metros dos trabalhadores. Brigitte Casavant e Michel Simoneau, ambos jardineiros aposentados de Montreal, começaram a tirar fotos. Os calceteiros mal pareciam notar a presença deles. “É impressionante ver como eles trabalham”, disse Simoneau enquanto clicava. “Paris pode ter a Torre Eiffel, mas Lisboa tem as calçadas mais lindas do mundo.”

Os diferentes padrões de calçamento enfeitam suvenires como camisetas, canecas e isqueiros. À medida que as pedras portuguesas se tornaram símbolo de Lisboa, os homens da Brigada dos Calceteiros ganharam celebridade. “No começo os pedidos de selfies com os turistas nos surpreenderam, mas agora já acostumamos”, disse António Cunha.

Como são poucos os calceteiros qualificados, os homens – a única mulher, Lurdes Batista, se machucou há alguns anos e agora trabalha no escritório – são convidados para dar aulas pelo país e mundo afora. “Já fomos para Timor e Bruxelas”, comentou Cunha, de cabelos grisalhos e a pele grossa e marcada.

As pedras portuguesas também viraram cartão-postal no calçadão de Copacabana, inspirado pelo desenho da praça do Rossio, no Centro de Lisboa. Cunha conheceu o Rio de Janeiro, onde passou um mês e meio em 2015. Mas não gostou do trabalho dos colegas d’além-mar. “Os calceteiros cariocas não têm muita habilidade, eles não talham as pedras e tudo fica de qualquer jeito”, reclamou. “O Rio é bonito, mas muito confuso.” 

Jenny Barchfield

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