esquina

No reino do Nababo Gbagbo

Lições de jornalismo com o grande líder da Costa do Marfim

Fernando Eichenberg
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2007

No hall de entrada do salão de congressos do Hotel Ivoire, em Abidjan, ex-capital da Costa do Marfim, a Guarda Vermelha espera o presidente Laurent Gbagbo. De botas pretas até o joelho, calças colantes brancas e jaquetas escarlates, os guardas estão a postos para saudar a chegada e a saída do chefe maior da nação. Esparramado, corpos atirados em cadeiras de plástico, pernas para um lado, braços para o outro, o pelotão especial lembra, no entanto, o exército de Brancaleone. “Estamos acabados”, diz um deles, com o comprido capacete dourado meio torto na cabeça.

Sob o sol, a temperatura ronda os 35 graus centígrados. Um viajante francês escreveu certa vez: “Tudo é imóvel no calor do meio-dia. Quando se ergue um turbilhão de poeira cuja extremidade se confunde com a abóbada celeste. É a África inexplicável e imprevisível, a África intensa, aquela que começa no portal das cidades”. Abidjan confirma a regra. A cidade perdeu recentemente o posto de capital política do país para Yamassoukro – uma aldeia que se pretende a Brasília da Costa do Marfim, projetada na prancheta e ainda em faraônica construção -, mas se mantém como capital econômica e sede de governo.

No interior da grande sala de cerimônias do Ivoire, o público também espera o presidente para a abertura da 39ª Sessão da União da Imprensa Francófona, que tem como tema Mídias, Democracia e Paz. Para um país que acaba de pôr fim, com a assinatura dos acordos de paz de Ouagadougou, a cinco anos de conflitos (2002-2007) e no qual a imprensa é obsessivamente vinculada a clãs e partidos políticos, não haverá de faltar assunto.
Como é costume na Costa do Marfim, evento algum começa na hora marcada; o atraso presidencial está dentro do regulamento. Uma poltrona postada no centro da primeira fila da platéia, sobre um quadrado delimitado por um tapete vermelho, aguarda com pompa a autoridade máxima. Quando Gbagbo finalmente adentra o circo, com uma impontualidade já um pouco além da impaciência do público, a mestre-de-cerimônias ordena ao microfone, sem nenhuma cerimônia: “Senhoras e senhores, levantem-se todos e aplaudam fortemente a chegada do presidente Laurent Gbagbo!” Todos obedecem.

O presidente da República da Costa do Marfim é um homem alto, de ventre avantajado e sorriso largo. Ele estava em viagem oficial a Roma quando a guerrilha eclodiu no norte do país, mas conseguiu retornar a tempo de se manter no poder. Depois do beija-mão de praxe, com todos instalados, o programa é anunciado: projeção de dois vídeos produzidos pelos ministérios do Turismo e da Economia, seguida de nove discursos, intercalados cada um por apresentações de artistas locais. O palavrório das autoridades locais – presidentes de associações de imprensa e ministros – varia entre referências toscas aos rudimentos do jornalismo, lições de araque sobre democracia e liberdade de imprensa e acertos de contas internos pós-guerra. Chegada a hora do discurso presidencial, ouve-se: “O jornalista neutro não existe. Cada jornalista está enfeudado em alguma coisa. A linha editorial é a linha política. Ser neutro é ser incolor, inodoro, com textos que não têm nenhum gosto, nem gosto de açúcar nem de sal. E o que não tem gosto não tem graça”, diz Gbagbo. E acrescenta, sem perdão: “Mas ainda estamos no estágio dos erros grosseiros. Os jornalistas são livres para se expressar, mas que sejam sérios. A única coisa que exijo é que a imprensa seja séria”. Sejamos sérios, pois.

Sobre a situação política do país, o líder supremo descarta o separatismo e promete novas eleições até o primeiro semestre de 2008. “Como historiador que sou, sei que cada país constrói sua história com altos e baixos. É o preço da liberdade, a passagem obrigatória para a formação de uma nação. Façamos que ela seja a menos dolorosa possível!”

Gbagbo pára. E uma fieira de atrações artísticas toma conta do palco. Shows de percussão, cantorias, danças. O momento mais aguardado é a presença do humorista Adama Dahico. Com seu humor sutil, ele pergunta: “Por que o biquíni fio-dental simboliza a democracia?” E responde: “Porque ele separa a esquerda da direita, arredonda as beiradas e depois atrai as massas”. Gbagbo sacode o corpanzil às gargalhadas. O público olha para o dignitário, e acompanha.

Quando o evento finalmente se encerra e o presidente se retira – sob os novos e fortes aplausos encomendados pela mestre-de-cerimônias – , a Guarda Vermelha vence a modorra para mais uma saudação. A Costa do Marfim, hoje presidida por Laurent Gbagbo e dirigida por um velho inimigo seu, o primeiro-ministro Guillaume Soro, ex-chefe da guerrilha que dividiu o país em dois, parece buscar o caminho da paz. Como disse recentemente um outro líder guerrilheiro: “Até a próxima traição”.

Fernando Eichenberg

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